Simulação de um caso concreto num dia comum na Roma republicana: como eram os casos resolvidos?
- gleniosabbad
- 2 de fev.
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Atualizado: 3 de fev.
(Um exercício de imaginação controlada, com rigor histórico)
Por Glênio S Guedes ( advogado )
1. Manhã em Roma: o problema nasce
Roma, por volta de 60 a.C. O sol mal aqueceu as pedras do Fórum quando Marcus Atilius, pequeno proprietário rural, cruza o átrio de sua domus com o cenho franzido. Seu vizinho, Publius Fabius, colheu uvas de uma vinha cuja posse ambos disputam há meses. Marcus não quer brigar no Fórum sem saber se o direito está com ele.
— “Antes de ir ao pretor, vou ouvir quem sabe”, murmura.
O patrono que o acompanha sugere o nome óbvio:
— “Procure Alfenus.”
Não se trata de fama literária. Trata-se de autoridade técnica.
2. A consulta ao jurista
Na casa de Alfenus Varus, não há púlpito nem audiência solene. Entram consulentes, saem respostas. Jovens aprendizes escutam em silêncio. O direito ali acontece.
Marcus expõe o caso, sem floreios:
— “A vinha é minha por compra antiga. Publius diz que a posse lhe pertence. Colheu os frutos antes da colheita.”
Alfenus não discursa. Faz duas perguntas secas:
— “A posse era dele?”— “Houve acordo?”
Marcus responde. Não houve acordo; a posse era controvertida.
Alfenus pensa por um instante — e decide.
Alfenus (em latim): Si fundus alienus est, fructus non debentur.
Tradução: Se o imóvel é alheio, os frutos não são devidos.
Nada mais. Nenhuma moralização. Nenhuma citação. O responsum está dado.
Um aprendiz anota. O patrono memoriza. Marcus agradece.
3. O que fazem as partes em seguida?
3.1. O autor (Marcus)
De posse do responsum, Marcus tem três caminhos — e escolhe dois:
Procura o pretor, levando a solução de Alfenus para moldar a fórmula da ação.
Avalia a estratégia: agora sabe que o direito técnico o favorece.
No Fórum, o patrono invoca a autoridade do jurista:
— “Segundo Alfenus Varus, nesta hipótese, os frutos não são devidos.”
O pretor concede a ação e fixa a fórmula, prevendo a condenação pecuniária e, se for o caso, a exceção adequada.
3.2. O réu (Publius)
Publius reage. Não pode ignorar o peso do nome citado. Pode:
Transigir (evitar o processo);
Defender-se, alegando boa-fé ou outra exceção;
Arriscar, sabendo que um responsum respeitado pesa contra ele.
Escolhe defender-se.
4. O julgamento: quem decide?
O caso segue apud iudicem. O juiz é um cidadão romano, não um jurista profissional. Ele não cria o direito; aplica a fórmula.
O patrono de Marcus volta a mencionar Alfenus. O juiz escuta. Não está vinculado — mas sabe que ignorar a auctoritas é arriscado.
Ao final, decide pela condenação em dinheiro.
5. E se o condenado resistir?
Publius hesita em pagar. Não há polícia para constrangê-lo. Roma não funciona assim.
Marcus propõe a actio iudicati. O pretor autoriza a execução patrimonial (missio in bona). A ameaça de infâmia pesa mais que a força física. Publius cede.
O direito se cumpre — não por armas, mas por autoridade.
6. O que este dia comum revela?
O jurista não julga, mas orienta todo o sistema.
O responsum não é retórico: é curto, condicional, decisório.
A sentença não se executa sozinha: depende de novas ações.
A coerção é patrimonial e social, não policial.
O direito romano funciona porque a técnica é reconhecida.
7. Epílogo: por que começar por Alfenus?
Porque, nesse cotidiano sem teatro, vemos o direito em transição: ele deixa a oratória e passa à linguagem da decisão. É por isso que a presente simulação começa por Alfenus: ali o latim se dobra à função jurídica, e o direito aprende a falar pouco — para decidir muito.


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