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Viajar: conhecer o mundo ou apenas consumi-lo?
Inspirado pelas memórias de Claude Lanzmann, este ensaio propõe uma pergunta incômoda: quando foi que a viagem deixou de ser um encontro com o desconhecido para tornar-se apenas um catálogo de experiências previamente embaladas? "Viajar não é mudar de paisagem; é permitir que a paisagem mude alguma coisa em nós." Ao amigo Markson Vieira Coelho, que há anos constrói, com discrição e competência, a arquitetura invisível de tantas viagens. Ao cuidar de voos, hospedagens, desloca
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há 20 horas5 min de leitura
Nas margens da lei
Como um manuscrito medieval explica por que interpretar sempre foi tão importante quanto legislar "As leis ocupam poucas linhas. As civilizações jurídicas escrevem o restante nas margens." Por Glênio S Guedes (advogado) Quem abre, pela primeira vez, um antigo manuscrito jurídico medieval costuma experimentar uma estranha sensação. Procura a lei e quase não a encontra. No centro da página existe um pequeno bloco de texto, cuidadosamente copiado em letras maiores. Ao redor dele
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há 2 dias5 min de leitura
A montanha engarrafada
O inverno, a dupla poda e as vinícolas que estão mudando a história do vinho brasileiro. "Há montanhas que produzem pedra. Outras, quando encontram mãos pacientes, produzem história." Por Glênio S Guedes (advogado) Durante muitos anos, afirmou-se, com a solenidade própria das certezas prematuras, que o Brasil jamais seria um país de grandes vinhos. Os mais generosos acrescentavam um advérbio de consolo: ainda. Os mais severos dispensavam qualquer esperança. O argumento pareci
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27 de jul.6 min de leitura
A segunda vindima da Serra Fluminense
Como vinhedos, fazendas históricas e enoturismo estão redesenhando o mapa do vinho no Estado do Rio de Janeiro. "As paisagens também amadurecem. Algumas apenas precisam de tempo; outras, de videiras." Por Glênio S Guedes (advogado) Durante muito tempo, pareceu existir um acordo silencioso acerca do Estado do Rio de Janeiro. Coube-lhe fornecer ao imaginário nacional praias, samba, carnaval, montanhas imperiais e cartões-postais. O vinho, dizia-se sem grande cerimônia, pertenci
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27 de jul.7 min de leitura
Senhor Musk, antes de colonizarmos Marte, permita-me uma dúvida terrestre: o fim da escassez elimina o desejo?
Entre a promessa da abundância tecnológica e a antiga pobreza de sentido que acompanha a condição humana. "A solução do mistério é sempre inferior ao mistério. O mistério participa do sobrenatural e do divino; a solução, do jogo manual." — Jorge Luis Borges, O Aleph Por Glênio S Guedes (advogado) Há quem olhe para Marte e veja um planeta. Elon Musk olha e vê um destino. Eu o olho e vejo uma pergunta. É difícil não admirar alguém que conseguiu transformar tantas improbabilidad
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26 de jul.3 min de leitura
Neojuricídio Tributário: Quando o Fisco ignora a Constituição para acelerar a arrecadação
"Se alguém tem direito a algo, então é errado que o governo lhe negue, mesmo que seja do interesse geral fazê-lo." — Ronald Dworkin Por Glênio S Guedes (advogado) O cenário fiscal brasileiro é historicamente marcado pela tensão ininterrupta entre a necessidade de custeio do Estado e a preservação das garantias fundamentais do contribuinte. O pano de fundo dessa disputa revela cifras superlativas: hoje no Brasil, 22,5 mil contribuintes devem R$ 2,3 trilhões à União em dívidas
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21 de jul.3 min de leitura
O Masturbador de Sua Majestade
Rumor, favoritismo e poder na corte de D. João VI À memória dos historiadores que preferem as perguntas às certezas. E a El Toro e seus homólogos, que tanto nos divertem com suas proezas inenarráveis! Por Glênio S Guedes (advogado) Pode um capítulo de livro dar origem a um artigo? A pergunta parece modesta; a resposta, ao menos neste caso, é afirmativa. Há capítulos que terminam na última página. Outros continuam a ser lidos muito depois de fecharmos o livro. O capítulo 13 —
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21 de jul.4 min de leitura
O Brasil dorme?
O despertar de uma República começa quando ela reaprende a dizer “não” “Sapere aude! Tem coragem de servir-te do teu próprio entendimento.” Immanuel Kant Por Glênio S Guedes (advogado) Acordar é um ato cotidiano e, por isso mesmo, profundamente suspeito. Levantamo-nos da cama, abrimos as cortinas, consultamos o telefone e concluímos, com a modéstia própria dos grandes equívocos, que já estamos despertos. O corpo abandonou o travesseiro; quanto ao espírito, não convém importu
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12 de jul.4 min de leitura
As duas farmácias da democracia
Uma caminhada por Bogotá para recordar por que a liberdade depende das leis e da coragem cívica «¡Colombianos! Las armas os han dado la independencia; las leyes os darán la libertad.»Francisco de Paula Santander Por Glênio S Guedes (advogado) Há cidades que se visitam pelos museus. Outras, pela gastronomia ou pela arquitetura. Bogotá, para mim, tornou-se uma cidade a ser percorrida por razões mais discretas: ela conserva, em seu centro histórico, duas pequenas farmácias da de
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5 de jul.10 min de leitura
As mulheres pensadoras da Índia: uma história de três mil anos
Da metafísica védica às reformas sociais modernas: por que a Índia preservou uma das mais longas tradições intelectuais femininas da humanidade "Há civilizações que conservaram templos; a Índia conservou também as vozes de mulheres que pensaram o universo, a liberdade e a condição humana." O autor registra seu agradecimento à Feira Internacional do Livro de Bogotá (FILBo 2026), que teve a República da Índia como país convidado de honra. As exposições ali apresentadas, especia
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3 de jul.10 min de leitura
Por que um museu consegue fazer um objeto falar?
Os semióforos do Museu Paulista e a construção simbólica da história do Brasil À Fernando (para quem toda viagem começa na Sorbonne e termina em alguma inesquecível experiência de campo) e Ricardo (o Galeno dos infantes, ajudando o Brasil a crescer alguns centímetros, todos os dias), amigos fraternos, cuja inteligência, generosidade e permanente entusiasmo pela cultura brasileira são também autores invisíveis destas páginas. Com eles, reaprendi que o Brasil continua valendo a
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2 de jul.5 min de leitura
O compliance tornou-se o novo sigilo bancário
Como o dever de conhecer o cliente substituiu o dever de ocultar sua identidade e transformou a própria natureza da atividade bancária "Durante quase um século, perguntava-se ao banco se ele sabia guardar um segredo. Hoje pergunta-se se ele sabe descobrir a verdade." Por Glênio S Guedes (advogado) Há instituições jurídicas cuja força não reside apenas nas normas que as disciplinam, mas também no imaginário que conseguem construir. Durante boa parte do século XX, poucas desper
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29 de jun.5 min de leitura
O maior patrimônio do Museu do Ouro não é o ouro. É a extraordinária inteligência simbólica que ele preserva.
Notas semio-hermenêuticas de uma visita ao extraordinário Museu do Ouro de Bogotá Por Glênio S Guedes (advogado) Confesso um equívoco que o tempo já deveria ter corrigido. Esta não era minha primeira visita ao Museu do Ouro de Bogotá. Nem a segunda. Era a terceira. Ainda assim, entrei acreditando que iria ver ouro. À primeira vista, parece uma confissão pouco honrosa. Afinal, depois de três visitas, seria razoável imaginar que já não restassem surpresas. Ocorre justamente o c
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28 de jun.4 min de leitura
Todo caso jurídico é um problema filosófico?
Ontologia, epistemologia e ética nos bastidores da decisão judicial “Os homens acreditam julgar os fatos. Muitas vezes julgam conceitos sem o saber.” Por Glênio S Guedes ( advogado ) I. A ilusão da superfície Há alguns anos, uma cidadã irlandesa chamada Marie Fleming levou ao Supremo Tribunal de seu país uma questão aparentemente simples. Portadora de doença degenerativa grave, desejava obter o reconhecimento jurídico do direito de receber auxílio para encerrar a própria vida
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15 de jun.6 min de leitura
E se Brasil e Colômbia fossem operar?
Notas anestésicas de Simão Bacamarte sobre duas repúblicas latino-americanas “Há pacientes cuja enfermidade está nos órgãos; outros a carregam nos costumes.” “O problema de certas repúblicas não é a cirurgia. É sobreviver à anestesia.” Por Glênio S Guedes (advogado) Na antessala cirúrgica das nações latino-americanas, Brasil e Colômbia aguardavam a avaliação pré-operatória. Ambos haviam sido encaminhados para procedimentos reparadores complexos — daqueles que exigem não apena
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14 de mai.5 min de leitura
A embriaguez das cláusulas gerais
Como o civil law latino-americano transformou indeterminação em virtude “Há legisladores que escrevem regras;outros escrevem convites hermenêuticos.” Por Glênio S Guedes (advogado) Durante muito tempo, acreditou-se que a principal função de um código civil consistia em reduzir incertezas. Não era uma pretensão modesta. Codificar significava condensar, em linguagem técnica e relativamente estável, um conjunto de critérios aptos a disciplinar a vida privada, limitar arbitraried
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13 de mai.5 min de leitura
O Direito não é máquina, é ecossistema
Por que ler Tópicos Constitucionales y Procesales del Saber Judicial, de María Patricia Balanta Medina Por Glênio S Guedes (advogado) Existe uma curiosa superstição moderna segundo a qual bastaria acrescentar mais tecnologia, mais protocolos, mais formulários eletrônicos e mais inteligência artificial ao sistema de Justiça para que o velho drama humano finalmente se rendesse à eficiência administrativa. A acreditar em certos entusiastas da automação jurídica, o futuro ideal d
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9 de mai.5 min de leitura
Constituições magníficas, Estados improvisados: Bolívar entenderia a América do Sul de hoje?
“a excelência de um governo não consiste em sua teoria, nem em sua forma, nem em seu mecanismo, mas em ser adequado à natureza e ao caráter da nação a que se destina.” — Simón Bolívar, Discurso de Angostura (1819), apud Marco Antonio Villa, A História em Discursos Por Glênio S Guedes (advogado) Há frases históricas que envelhecem depressa. Outras, porém, atravessam os séculos com a inconveniência dos espelhos honestos — esses objetos indelicados que insistem em revelar rugas
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8 de mai.5 min de leitura
Em Bogotá, certos restaurantes já não oferecem cardápios: oferecem cosmologias
“O prazer da mesa pressupõe os cuidados precedentes para preparar a refeição, para escolher o local e reunir os convivas.”— Brillat-Savarin Por Glênio S Guedes (advogado) Houve tempo em que os restaurantes se contentavam em servir comida. E já era tarefa nobilíssima. Um bom molho, uma cocção precisa, um vinho honesto e convivas minimamente civilizados bastavam para que o espírito humano se declarasse satisfeito. A posteridade gastronômica, aliás, ergueu monumentos inteiros so
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7 de mai.6 min de leitura
O contrato já não promete estabilidade: administra incertezas
“La propia realidad social siempre cambiante y compleja, por lo mismo, muy difícil de planificar.”— Rafael E. Fierro Méndez, Contratos incompletos – perspectiva jurídica. Schola Advocatus – Revista del Colegio de Abogados de la Universidad Libre de Barranquilla (CAULBQ), Barranquilla, n. 1, p. 26 et seq., dez. 2023. “O problema do contrato nunca foi faltar cláusulas; foi sobrar realidade.” Por Glênio S Guedes (advogado) Durante largo tempo, o contrato acreditou em si mesmo co
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6 de mai.5 min de leitura
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