A segunda vindima da Serra Fluminense
- gleniosabbad
- 27 de jul.
- 7 min de leitura
Como vinhedos, fazendas históricas e enoturismo estão redesenhando o mapa do vinho no Estado do Rio de Janeiro.
"As paisagens também amadurecem. Algumas apenas precisam de tempo; outras, de videiras."
Por Glênio S Guedes (advogado)
Durante muito tempo, pareceu existir um acordo silencioso acerca do Estado do Rio de Janeiro. Coube-lhe fornecer ao imaginário nacional praias, samba, carnaval, montanhas imperiais e cartões-postais. O vinho, dizia-se sem grande cerimônia, pertencia a outros mapas. Havia quem o procurasse na Serra Gaúcha, quem o descobrisse no Vale do São Francisco e, mais recentemente, quem se deixasse surpreender pela Serra da Mantiqueira. O Rio de Janeiro, segundo essa cartografia preguiçosa, deveria contentar-se em brindar com rótulos produzidos alhures.
As montanhas fluminenses, como convém às paisagens verdadeiramente educadas, preferiram não discutir.
Plantaram videiras.
É curioso como certas ideias sobrevivem durante décadas apenas porque ninguém se dispõe a contradizê-las. Não resistem ao argumento; resistem ao hábito. Bastam algumas safras para que velhas certezas envelheçam mais depressa do que uma garrafa mal armazenada.
É exatamente isso que começa a acontecer na Serra Fluminense.
Seria um equívoco, porém, imaginar que ali se assiste ao nascimento de uma atividade inteiramente nova. O que ocorre é mais interessante.
Não houve substituição.
Houve sobreposição.
A Serra Fluminense não abandonou a própria história para vestir roupas novas. Limitou-se a acrescentar mais um capítulo a um livro que já possuía excelente enredo.
Muito antes das videiras vieram os caminhos abertos pela Serra do Mar. Depois, as fazendas, o ciclo do café, a imigração europeia, as colônias agrícolas, a arquitetura serrana, os hotéis de montanha, a gastronomia e uma cultura rural que, apesar das transformações econômicas, jamais desapareceu.
O vinho não chegou para apagar essa memória.
Chegou para conversar com ela.
Talvez resida aí a principal singularidade da Serra Fluminense.
Enquanto algumas regiões precisaram criar uma identidade praticamente do zero, a serra fluminense já possuía uma paisagem cultural consolidada. As videiras encontraram casarões centenários, antigas fazendas, cozinhas tradicionais, pequenos produtores, estradas sinuosas e uma hospitalidade construída ao longo de gerações. Encontraram, sobretudo, uma história pronta para ser continuada.
Essa continuidade aparece de forma exemplar na trajetória da Vinícola Inconfidência.
Sua origem não nasceu de um plano elaborado em escritórios ou de uma aposta passageira nas modas do mercado. Nasceu de uma adversidade. Depois que uma forte chuva de granizo destruiu um cafezal, seus proprietários decidiram estudar uma alternativa inspirada nas pesquisas conduzidas por Murillo Regina sobre a dupla poda, técnica que revolucionaria a viticultura de inverno brasileira. Em 2010 foram plantadas as primeiras videiras; em 2014 ocorreu a primeira colheita; poucos anos depois, a vinícola já possuía estrutura própria de elaboração de seus rótulos.
Há nisso uma discreta ironia da natureza.
Às vezes, ela destrói uma lavoura apenas para permitir o nascimento de outra.
A Família Eloy representa um estágio diferente dessa transformação.
Não se trata apenas de produzir bons vinhos.
Trata-se de produzir um lugar.
Seu projeto reúne vinhedos, restaurante, experiências gastronômicas e o Borgo del Vino Hotel & Vinícola, formando um conjunto que ultrapassa a ideia tradicional de uma propriedade rural. A referência à Toscana, longe de constituir mera estratégia publicitária, revela a tentativa de associar vinho, arquitetura, hospitalidade e paisagem em uma experiência integrada.
Algum purista talvez proteste.
Perguntará se seria necessário evocar a Toscana para produzir grandes vinhos.
A pergunta merece respeito.
Mas talvez contenha um pequeno equívoco.
As regiões vinícolas jovens costumam recorrer a imagens conhecidas para facilitar sua compreensão. O tempo, entretanto, encarrega-se de tornar essas comparações desnecessárias. Ninguém visita Bordeaux esperando encontrar a Toscana. Tampouco percorre o Douro imaginando o Vale do Reno.
Chegará o momento em que bastará pronunciar duas palavras.
Serra Fluminense.
Os próprios roteiros turísticos revelam que essa identidade começa a ganhar forma.
Curiosamente, eles não convidam apenas à degustação.
Convidam à permanência.
Em vez de apresentar vinícolas isoladas, propõem circuitos que reúnem gastronomia, hospedagem, história, paisagem e experiências culturais. O vinho permanece no centro da narrativa, mas deixa de caminhar sozinho.
Essa talvez seja a mudança mais importante.
Durante muito tempo, acreditou-se que o sucesso de uma região vitivinícola dependia exclusivamente da qualidade da bebida.
Hoje se compreende que grandes vinhos dificilmente florescem em territórios culturalmente pobres.
Eles prosperam onde existe uma paisagem capaz de ser lembrada.
É precisamente essa paisagem que começa a ser cultivada na Serra Fluminense.
A Terras Frias, em Nova Friburgo, ilustra bem essa lógica. Sua produção em altitude associa degustações aos queijos artesanais da região e à contemplação da paisagem serrana, demonstrando que o terroir não se limita ao solo e ao clima: estende-se à cultura local e à mesa que recebe o visitante.
A Casa Rozental acrescenta outro elemento igualmente significativo. Pequena, artesanal e voltada para grupos reduzidos, oferece uma experiência intimista, na qual o visitante conhece de perto o processo produtivo e harmoniza rótulos como Sauvignon Blanc, Syrah e Cabernet Sauvignon. Não impressiona pelo gigantismo; conquista pela proximidade. E talvez seja justamente essa escala humana um dos maiores patrimônios da nova vitivinicultura fluminense.
Há regiões que exibem seus vinhos.
A Serra Fluminense parece preferir apresentar as pessoas que os produzem.
E talvez essa seja a diferença mais elegante entre vender uma garrafa e compartilhar uma história.
A Maturano talvez represente o estágio mais avançado dessa nova geração de empreendimentos. Mais do que uma vinícola, nasce como um complexo de enoturismo concebido para integrar vinho, gastronomia, hospitalidade e lazer. A adega deixa de ser o destino final da visita. Torna-se apenas uma das portas de entrada para uma experiência mais ampla, na qual a permanência importa tanto quanto a degustação.
É uma mudança aparentemente discreta.
Mas profunda.
Durante séculos, a agricultura ocupou-se de produzir alimentos.
Agora, em muitos lugares, ela também produz experiências.
Talvez nenhuma atividade ilustre tão bem essa transformação quanto a vitivinicultura.
Ninguém percorre centenas de quilômetros apenas para beber uma taça de vinho.
Percorre-os para conhecer a paisagem que a tornou possível.
A Fazenda Bemposta acrescenta outra dimensão a esse processo. Fundada ainda no início do século XIX, traz consigo a memória do ciclo do café, da formação das grandes propriedades rurais e da própria história econômica da região. Quando uma fazenda dessa natureza passa a cultivar videiras, não rompe com o passado. Pelo contrário, prolonga-o sob outra linguagem. A paisagem permanece a mesma; muda apenas a cultura que dela brota.
Algo semelhante ocorre com a Tassinari.
Sua trajetória demonstra que a moderna vitivinicultura fluminense não surgiu à margem da agricultura tradicional.
Nasceu dentro dela.
O conhecimento acumulado durante décadas de trabalho com outras culturas agrícolas converteu-se em vantagem competitiva para o cultivo das videiras. Quem aprendeu a observar o solo, o relevo, a insolação, a umidade e o ritmo das estações já conhecia, ainda que sem o saber, parte da gramática que o vinho exige.
Essa talvez seja a maior riqueza da Serra Fluminense.
Ela não improvisou uma vocação.
Descobriu uma continuidade.
Frequentemente se afirma que uma região passa a existir no mapa dos vinhos quando produz bons rótulos.
A frase contém apenas meia verdade.
Os grandes territórios vitivinícolas não se distinguem apenas pela qualidade de suas garrafas.
Distinguem-se porque conseguem contar uma história coerente.
Bordeaux conta a história da tradição.
A Borgonha, a do detalhe.
O Douro, a da persistência humana diante de uma geografia improvável.
A Toscana, a da harmonia entre paisagem, arquitetura e cultura.
A Serra Gaúcha narra a epopeia da imigração italiana.
A Serra da Mantiqueira tornou-se símbolo da inovação científica aplicada ao campo.
E a Serra Fluminense?
Talvez conte uma história diferente.
A história de um território que descobriu no vinho uma nova forma de conservar a própria memória.
Não por acaso, os roteiros recentemente organizados deixam evidente que a proposta vai muito além da degustação. O visitante é convidado a percorrer diferentes municípios, conhecer produtores, caminhar entre vinhedos, hospedar-se em antigas fazendas, experimentar queijos artesanais, compreender o ciclo das videiras e perceber que cada propriedade acrescenta um capítulo distinto a uma narrativa comum.
É interessante observar que quase nenhuma dessas iniciativas procura competir frontalmente com outras regiões produtoras.
Essa talvez seja sua maior demonstração de maturidade.
Quem conhece a própria identidade não precisa disputar semelhanças.
Precisa apenas cultivar diferenças.
Enquanto algumas regiões oferecem a imponência de séculos de tradição, a Serra Fluminense oferece o privilégio de assistir ao nascimento de uma tradição.
Há certo encanto nisso.
É possível visitar vinhedos cujas primeiras videiras ainda pertencem à mesma geração de pessoas que as plantou.
É possível conversar com quem escolheu as castas, acompanhou as primeiras colheitas, enfrentou geadas, granizos, estiagens e incertezas.
Em outras palavras, ainda é possível ouvir a história diretamente de seus protagonistas.
O tempo encarregar-se-á de transformar essas narrativas em patrimônio.
Há, porém, uma reflexão que ultrapassa o vinho.
Durante décadas, o interior fluminense foi lembrado sobretudo pelo passado.
Pelas fazendas imperiais.
Pelos barões do café.
Pelas estradas históricas.
Pelas construções coloniais.
Era um patrimônio admirável.
Mas frequentemente contemplado como quem observa um álbum de fotografias.
A vitivinicultura altera essa perspectiva.
Ela devolve futuro ao passado.
Os antigos casarões deixam de ser apenas testemunhas de outra época.
Voltam a participar da economia regional.
As montanhas deixam de servir apenas de cenário.
Recuperam sua condição de espaço produtivo.
A memória deixa de ser museu.
Converte-se em projeto.
Talvez seja essa a verdadeira segunda vindima da Serra Fluminense.
Não apenas a colheita das uvas.
Mas a colheita de uma nova maneira de habitar o próprio território.
No início deste ensaio, lembrávamos que havia quem imaginasse o Estado do Rio de Janeiro condenado às praias, ao carnaval e aos cartões-postais.
As montanhas responderam com a elegância dos sábios.
Não escreveram manifestos.
Não organizaram congressos.
Não discutiram estatísticas.
Plantaram videiras.
Esperaram.
E permitiram que o tempo — esse enólogo paciente de todas as paisagens — fizesse o restante.
Hoje, cada nova safra parece repetir, silenciosamente, a mesma resposta.
A Serra Fluminense não vive uma ruptura.
Vive uma continuidade.
A primeira vindima produziu café, arquitetura, caminhos, fazendas, memória e identidade.
A segunda acrescenta vinhedos, enoturismo, gastronomia, hospitalidade e uma nova economia, construída sem renegar nenhuma das riquezas anteriores.
Há regiões que precisam escolher entre tradição e inovação.
A Serra Fluminense encontrou solução mais elegante.
Transformou a inovação em mais um capítulo da própria tradição.
E talvez seja justamente por isso que seus vinhos tenham tanto a dizer.
Não apenas porque amadurecem em altitude.
Mas porque amadurecem sobre uma história que já estava pronta para recebê-los.


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