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Senhor Musk, antes de colonizarmos Marte, permita-me uma dúvida terrestre: o fim da escassez elimina o desejo?

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 26 de jul.
  • 3 min de leitura

Entre a promessa da abundância tecnológica e a antiga pobreza de sentido que acompanha a condição humana.

"A solução do mistério é sempre inferior ao mistério. O mistério participa do sobrenatural e do divino; a solução, do jogo manual." — Jorge Luis Borges, O Aleph

Por Glênio S Guedes (advogado)


Há quem olhe para Marte e veja um planeta.

Elon Musk olha e vê um destino.

Eu o olho e vejo uma pergunta.

É difícil não admirar alguém que conseguiu transformar tantas improbabilidades em realidade. Carros elétricos deixaram de ser promessa; foguetes passaram a regressar à Terra; a inteligência artificial tornou-se protagonista das grandes transformações econômicas; Marte deixou de pertencer apenas aos astrônomos para tornar-se projeto de engenharia.

Justamente por isso, vale a pena ouvir suas previsões com atenção.

Em recente entrevista à The Economist, Musk descreve um futuro em que a inteligência artificial e a robótica produzirão tamanha abundância que o trabalho humano poderá tornar-se opcional e até o dinheiro perder parte de sua importância.

Se essa visão se concretizar, estaremos diante de uma das maiores conquistas da inteligência humana.

Mas permita-me, senhor Musk, uma dúvida ainda presa à gravidade terrestre.

O fim da escassez elimina o desejo?

A pergunta pode parecer pequena diante da perspectiva de colonizar outro planeta. Talvez seja. Mas suspeito de que seja também mais antiga do que qualquer tecnologia e mais duradoura do que todas elas.

Imaginemos, por um instante, que o senhor esteja absolutamente certo.

As máquinas produzirão praticamente tudo.

O trabalho deixará de ser necessidade.

A abundância substituirá a carência.

A humanidade vencerá uma batalha travada desde o início da civilização.

E então?

O que acontecerá no dia seguinte?

Continuaremos desejando?

Ou o desejo desaparecerá juntamente com a escassez?

Talvez estejamos confundindo duas realidades profundamente diferentes.

Necessidades parecem conhecer um ponto de chegada.

A fome termina.

A sede termina.

O frio termina.

O desejo comporta-se de outra maneira.

Quando um objetivo é alcançado, outro discretamente ocupa o seu lugar.

Quando uma conquista é celebrada, outra começa a ser imaginada.

É como se a solução de um problema abrisse espaço para uma nova pergunta.

Vivemos mais.

Sabemos mais.

Produzimos mais.

Comunicamo-nos mais.

E, apesar disso, continuamos convivendo com formas de sofrimento que parecem resistir obstinadamente ao progresso material.

A geração que cresceu cercada pela maior oferta de informação, conectividade e recursos tecnológicos da história também relata níveis preocupantes de ansiedade, depressão, solidão e dificuldade para construir vínculos duradouros.

Não afirmo que a tecnologia seja a causa desse fenômeno.

Seria simplificar um problema cuja complexidade recomenda prudência.

O fato, porém, permanece intrigante.

A eliminação de certas escassezes não eliminou certos sofrimentos.

Talvez porque nem todos eles pertençam à mesma categoria.

Há problemas que cedem diante de melhores ferramentas.

Há outros que parecem acompanhar o homem onde quer que ele vá.

Talvez a pergunta decisiva nunca tenha sido quanto conseguimos produzir.

Talvez seja para quê produzimos.

A engenharia responde brilhantemente ao como.

Ela calcula.

Constrói.

Projeta.

Resolve.

Mas existe outra pergunta, menos espetacular e talvez mais difícil.

Depois de resolvido o problema, o que faremos da solução?

Se amanhã um robô cozinhar melhor do que qualquer chef, continuará existindo alguém que deseje preparar o jantar para quem ama.

Se uma inteligência artificial escrever romances impecáveis, continuará existindo alguém disposto a escrever o próprio, ainda que imperfeito.

Se trabalhar deixar de ser uma necessidade econômica, talvez continue sendo uma forma de criar, pertencer, servir ou simplesmente dar sentido aos dias.

Porque nem tudo o que fazemos nasce da necessidade.

Muito do que fazemos nasce do desejo.

É justamente aqui que sua entrevista me parece mais instigante.

Ela descreve com extraordinária lucidez o futuro das máquinas.

Mas permanece quase silenciosa sobre o futuro do homem.

Não porque isso constitua uma falha.

Talvez porque não seja essa a pergunta da engenharia.

A engenharia constrói pontes.

Não decide para onde devemos atravessá-las.

Constrói foguetes.

Não escolhe o sentido da viagem.

Constrói ferramentas.

Mas o uso delas continua pertencendo a uma dimensão que nenhuma máquina pode determinar.

Colonizar Marte poderá ser um dos maiores feitos técnicos da história.

Espero sinceramente que aconteça.

Tenho apenas uma pequena preocupação.

Receio que levemos conosco os terráqueos.

O primeiro ser humano a pisar naquele solo avermelhado desembarcará trazendo exatamente a mesma bagagem invisível que acompanhou todos os exploradores desde o início da história.

Levará esperança.

Ambição.

Curiosidade.

Amor.

Vaidade.

Solidão.

Ansiedade.

Desejos.

Nenhum desses passageiros precisará de passaporte.

Mas todos embarcarão.

Porque o homem atravessa oceanos, desertos e, talvez em breve, planetas inteiros.

O que jamais conseguiu atravessar completamente foi a si mesmo.

Talvez por isso a grande pergunta do futuro não seja tecnológica.

Nem econômica.

Nem sequer espacial.

Seja humana.

Toda solução elimina um problema.

Mas nenhuma solução elimina o mistério de ser humano.

E talvez a maior fronteira da humanidade nunca tenha estado entre a Terra e Marte.

Sempre esteve entre aquilo que conseguimos construir e aquilo que continuamos tentando compreender em nós mesmos.

 
 
 

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