E se Brasil e Colômbia fossem operar?
- gleniosabbad
- há 12 horas
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Notas anestésicas de Simão Bacamarte sobre duas repúblicas latino-americanas
“Há pacientes cuja enfermidade está nos órgãos; outros a carregam nos costumes.”
“O problema de certas repúblicas não é a cirurgia. É sobreviver à anestesia.”
Por Glênio S Guedes (advogado)
Na antessala cirúrgica das nações latino-americanas, Brasil e Colômbia aguardavam a avaliação pré-operatória. Ambos haviam sido encaminhados para procedimentos reparadores complexos — daqueles que exigem não apenas bisturis e sedativos, mas equipes multidisciplinares, comitês de crise, observadores internacionais e prudência quase metafísica.
Tratava-se, afinal, de pacientes institucionais.
À frente da junta estava Simão Bacamarte.
Já não o célebre alienista de Itaguaí, mas o mais respeitado anestesiologista político do continente — homem de olhar clínico, ironia discreta e perigosa confiança em classificações científicas. Trocara a Casa Verde por um centro cirúrgico transnacional especializado em democracias fatigadas, Estados hipertrofiados e repúblicas acometidas de insuficiência sistêmica crônica.
A complexidade dos casos obrigara o hospital a ampliar a equipe.
Não bastavam médicos.
Compunham a junta:
um professor de anestesiologia da USP;
um professor de geopolítica internacional;
um economista especializado nas Américas;
dois analistas de risco institucional;
um sociólogo das patologias republicanas;
um consultor em estabilidade democrática;
e, por razões prudenciais, um contador forense.
A experiência demonstrara que certas repúblicas latino-americanas não podiam mais ser avaliadas apenas por exames laboratoriais convencionais. Era preciso verificar:
a coagulação institucional;
a oxigenação democrática;
o metabolismo fiscal;
o nível de inflamação populista;
e, sobretudo, a resistência do organismo à verdade clínica.
Sobre a mesa repousava o protocolo ASA — o sistema da Sociedade Americana de Anestesiologistas destinado a medir o estado físico do paciente antes da cirurgia.
O método classificava os organismos desde o saudável ASA I até o moribundo ASA V.
Bacamarte adaptara o sistema às democracias.
Segundo ele, algumas nações apresentavam:
hipertensão fiscal;
obesidade burocrática;
insuficiência moral crônica;
déficit de memória institucional;
dependência aguda de personalismos;
e episódios recorrentes de delírio retórico incompatíveis com exames empíricos.
O Brasil foi chamado primeiro.
Entrou na sala carregando pilhas tributárias, centenas de medidas provisórias, emendas parlamentares mal cicatrizadas e um visível edema administrativo. Sentou-se lentamente. Respirava como quem acabara de subir quatro lances de escada carregando a máquina pública nas costas.
O anestesiologista iniciou a avaliação.
— Histórico de crises?
O Brasil sorriu com patriotismo fatigado.
— Apenas turbulências normais de democracia vibrante.
O economista ergueu os olhos do prontuário.
Ali estavam registrados:
episódios sucessivos de hipertensão fiscal;
arritmias regulatórias;
ansiedade inflacionária intermitente;
dependência litigiosa crônica;
obesidade burocrática mórbida;
e uma curiosa compulsão arrecadatória acompanhada de baixa eficiência circulatória.
O geopolítico observou:
— Paciente continental. Reservas minerais estratégicas. Capacidade agrícola extraordinária. Potencial energético relevante. Mas apresenta instabilidade operacional persistente e dificuldade histórica de coordenação sistêmica.
O contador forense pediu licença para acrescentar novas observações clínicas.
Havia chegado naquela manhã um relatório sobre o chamado “Caso Banco Master”, já tratado nos corredores hospitalares como uma septicemia institucional de natureza financeira.
Segundo os exames apresentados à junta:
o organismo financeiro desenvolvera um crescimento abrupto e suspeito;
havia sinais de contaminação entre sistema bancário, política e estruturas de poder;
detectaram-se inflamações simultâneas nos três Poderes da República;
e o quadro evoluíra para comprometimento sistêmico generalizado.
Bacamarte leu silenciosamente o prontuário complementar.
A patologia parecia sofisticada.
Encontraram-se:
suspeitas de relações promíscuas entre agentes financeiros e estruturas estatais;
circulação anômala de influência;
monitoramento de desafetos;
infiltrações nos tecidos institucionais;
contratos vascularizados por interesses cruzados;
e episódios de insuficiência ética aguda atingindo áreas sensíveis do organismo republicano.
O anestesiologista suspirou.
— Fascinante.— O paciente desenvolveu metástases oligárquicas com comportamento autoimune.
O Brasil protestou imediatamente.
Alegou:
independência institucional;
eleições periódicas;
funcionamento regular dos órgãos constitucionais;
estabilidade monetária relativa;
sofisticação financeira;
e inequívoca vitalidade democrática.
Bacamarte ouviu tudo com a paciência dos médicos acostumados a pacientes que pesquisam sintomas na internet.
— Meu caro — respondeu —, sobreviver não é exatamente o mesmo que estar saudável.
Deteve-se por alguns segundos.
— O preocupante é que seu organismo parece ter desenvolvido tolerância histórica à febre institucional.
A Colômbia entrou em seguida.
Trazia postura mais disciplinada e hemodinamicamente elegante, embora marcada por cicatrizes profundas. O prontuário indicava:
traumas armados prolongados;
hipertensão narcogeopolítica;
episódios recorrentes de violência política;
deslocamentos populacionais;
tensão periférica crônica;
e fragilidade territorial residual.
Em compensação, exibia certa previsibilidade macroeconômica que impressionava parte da junta.
O anestesiologista começou o exame.
— Como anda sua estabilidade democrática?
A Colômbia hesitou discretamente.
O consultor institucional abriu então um relatório recente do Democracy Index 2025.
A sala silenciou.
O documento registrava que a Colômbia sofrera a queda democrática mais pronunciada de toda a América Latina, aproximando-se perigosamente da condição de “regime híbrido”.
O professor de geopolítica prosseguiu a leitura:
deterioração institucional;
aumento da violência política;
fragilidade crescente do sistema de freios e contrapesos;
confrontos entre Executivo e instituições independentes;
erosão da confiança pública;
tensão entre poder civil e estruturas militares;
e sintomas avançados de hiperpresidencialismo inflamatório.
O sociólogo da junta acrescentou:
— Há também desgaste importante da cultura democrática e episódios repetidos de fadiga institucional coletiva.
A Colômbia tentou defender-se.
Mencionou:
resiliência histórica;
estabilidade relativa;
capacidade adaptativa;
amadurecimento econômico;
integração internacional.
Bacamarte anotava tudo sem alterar a expressão.
Por fim perguntou:
— O paciente ainda distingue oposição política de inimigo existencial?
A Colômbia permaneceu em silêncio.
O anestesiologista então concluiu:
— Quadro menos caótico do que certos vizinhos. Contudo, observo risco relevante de deterioração progressiva da oxigenação democrática.
O economista comentou:
— Ambos os pacientes parecem sofrer da mesma enfermidade continental: instituições formalmente preservadas convivendo com desgaste funcional silencioso.
— Exato — respondeu Bacamarte.— São organismos que aprenderam a parecer estáveis diante das câmeras, mesmo quando os exames já apontam inflamação sistêmica.
Do lado de fora da sala cirúrgica, outras repúblicas aguardavam atendimento. Algumas apresentavam falência múltipla de órgãos; outras sobreviviam graças a sedativos ideológicos de longa duração.
O Brasil e a Colômbia, entretanto, continuavam intrigando a junta.
Possuíam:
recursos naturais vastíssimos;
densidade cultural extraordinária;
elites sofisticadas;
estruturas jurídicas complexas;
potencial econômico considerável;
e notável capacidade de sobrevivência histórica.
Ainda assim, produziam crises com impressionante regularidade fisiológica.
Bacamarte fechou os exames.
Escreveu:
Brasil: “Paciente funcional. Obesidade burocrática importante. Episódios recorrentes de febre institucional. Metabolismo tributário hipertenso. Tendência à normalização da anomalia.”
Colômbia: “Paciente relativamente compensado. Cicatrizes traumáticas persistentes. Queda recente nos índices de estabilidade democrática. Sinais moderados de desgaste institucional progressivo.”
Ao final, registrou:
“ASA III avançado para ambos. Com risco aumentado no pós-operatório.”
A junta perguntou se a cirurgia seria bem-sucedida.
Bacamarte respondeu com serenidade quase machadiana:
— A cirurgia talvez funcione.— O problema é saber se os pacientes suportam acordar sem anestesia.
E voltou silenciosamente aos prontuários, como quem já compreendera que certas repúblicas latino-americanas desenvolveram uma singular capacidade de conviver com sintomas graves sem jamais admitir que estão doentes...


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