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E se Brasil e Colômbia fossem operar?

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 14 de mai.
  • 5 min de leitura

Notas anestésicas de Simão Bacamarte sobre duas repúblicas latino-americanas

“Há pacientes cuja enfermidade está nos órgãos; outros a carregam nos costumes.”
“O problema de certas repúblicas não é a cirurgia. É sobreviver à anestesia.”

Por Glênio S Guedes (advogado)


Na antessala cirúrgica das nações latino-americanas, Brasil e Colômbia aguardavam a avaliação pré-operatória. Ambos haviam sido encaminhados para procedimentos reparadores complexos — daqueles que exigem não apenas bisturis e sedativos, mas equipes multidisciplinares, comitês de crise, observadores internacionais e prudência quase metafísica.

Tratava-se, afinal, de pacientes institucionais.

À frente da junta estava Simão Bacamarte.

Já não o célebre alienista de Itaguaí, mas o mais respeitado anestesiologista político do continente — homem de olhar clínico, ironia discreta e perigosa confiança em classificações científicas. Trocara a Casa Verde por um centro cirúrgico transnacional especializado em democracias fatigadas, Estados hipertrofiados e repúblicas acometidas de insuficiência sistêmica crônica.

A complexidade dos casos obrigara o hospital a ampliar a equipe.

Não bastavam médicos.

Compunham a junta:


  • um professor de anestesiologia da USP;

  • um professor de geopolítica internacional;

  • um economista especializado nas Américas;

  • dois analistas de risco institucional;

  • um sociólogo das patologias republicanas;

  • um consultor em estabilidade democrática;

  • e, por razões prudenciais, um contador forense.


A experiência demonstrara que certas repúblicas latino-americanas não podiam mais ser avaliadas apenas por exames laboratoriais convencionais. Era preciso verificar:


  • a coagulação institucional;

  • a oxigenação democrática;

  • o metabolismo fiscal;

  • o nível de inflamação populista;

  • e, sobretudo, a resistência do organismo à verdade clínica.


Sobre a mesa repousava o protocolo ASA — o sistema da Sociedade Americana de Anestesiologistas destinado a medir o estado físico do paciente antes da cirurgia.

O método classificava os organismos desde o saudável ASA I até o moribundo ASA V.

Bacamarte adaptara o sistema às democracias.

Segundo ele, algumas nações apresentavam:


  • hipertensão fiscal;

  • obesidade burocrática;

  • insuficiência moral crônica;

  • déficit de memória institucional;

  • dependência aguda de personalismos;

  • e episódios recorrentes de delírio retórico incompatíveis com exames empíricos.


O Brasil foi chamado primeiro.

Entrou na sala carregando pilhas tributárias, centenas de medidas provisórias, emendas parlamentares mal cicatrizadas e um visível edema administrativo. Sentou-se lentamente. Respirava como quem acabara de subir quatro lances de escada carregando a máquina pública nas costas.

O anestesiologista iniciou a avaliação.

— Histórico de crises?

O Brasil sorriu com patriotismo fatigado.

— Apenas turbulências normais de democracia vibrante.

O economista ergueu os olhos do prontuário.

Ali estavam registrados:


  • episódios sucessivos de hipertensão fiscal;

  • arritmias regulatórias;

  • ansiedade inflacionária intermitente;

  • dependência litigiosa crônica;

  • obesidade burocrática mórbida;

  • e uma curiosa compulsão arrecadatória acompanhada de baixa eficiência circulatória.


O geopolítico observou:

— Paciente continental. Reservas minerais estratégicas. Capacidade agrícola extraordinária. Potencial energético relevante. Mas apresenta instabilidade operacional persistente e dificuldade histórica de coordenação sistêmica.

O contador forense pediu licença para acrescentar novas observações clínicas.

Havia chegado naquela manhã um relatório sobre o chamado “Caso Banco Master”, já tratado nos corredores hospitalares como uma septicemia institucional de natureza financeira.

Segundo os exames apresentados à junta:


  • o organismo financeiro desenvolvera um crescimento abrupto e suspeito;

  • havia sinais de contaminação entre sistema bancário, política e estruturas de poder;

  • detectaram-se inflamações simultâneas nos três Poderes da República;

  • e o quadro evoluíra para comprometimento sistêmico generalizado.


Bacamarte leu silenciosamente o prontuário complementar.

A patologia parecia sofisticada.

Encontraram-se:


  • suspeitas de relações promíscuas entre agentes financeiros e estruturas estatais;

  • circulação anômala de influência;

  • monitoramento de desafetos;

  • infiltrações nos tecidos institucionais;

  • contratos vascularizados por interesses cruzados;

  • e episódios de insuficiência ética aguda atingindo áreas sensíveis do organismo republicano.


O anestesiologista suspirou.

— Fascinante.— O paciente desenvolveu metástases oligárquicas com comportamento autoimune.

O Brasil protestou imediatamente.

Alegou:


  • independência institucional;

  • eleições periódicas;

  • funcionamento regular dos órgãos constitucionais;

  • estabilidade monetária relativa;

  • sofisticação financeira;

  • e inequívoca vitalidade democrática.


Bacamarte ouviu tudo com a paciência dos médicos acostumados a pacientes que pesquisam sintomas na internet.

— Meu caro — respondeu —, sobreviver não é exatamente o mesmo que estar saudável.

Deteve-se por alguns segundos.

— O preocupante é que seu organismo parece ter desenvolvido tolerância histórica à febre institucional.


A Colômbia entrou em seguida.

Trazia postura mais disciplinada e hemodinamicamente elegante, embora marcada por cicatrizes profundas. O prontuário indicava:


  • traumas armados prolongados;

  • hipertensão narcogeopolítica;

  • episódios recorrentes de violência política;

  • deslocamentos populacionais;

  • tensão periférica crônica;

  • e fragilidade territorial residual.


Em compensação, exibia certa previsibilidade macroeconômica que impressionava parte da junta.

O anestesiologista começou o exame.

— Como anda sua estabilidade democrática?

A Colômbia hesitou discretamente.

O consultor institucional abriu então um relatório recente do Democracy Index 2025.

A sala silenciou.

O documento registrava que a Colômbia sofrera a queda democrática mais pronunciada de toda a América Latina, aproximando-se perigosamente da condição de “regime híbrido”.

O professor de geopolítica prosseguiu a leitura:


  • deterioração institucional;

  • aumento da violência política;

  • fragilidade crescente do sistema de freios e contrapesos;

  • confrontos entre Executivo e instituições independentes;

  • erosão da confiança pública;

  • tensão entre poder civil e estruturas militares;

  • e sintomas avançados de hiperpresidencialismo inflamatório.


O sociólogo da junta acrescentou:

— Há também desgaste importante da cultura democrática e episódios repetidos de fadiga institucional coletiva.

A Colômbia tentou defender-se.

Mencionou:


  • resiliência histórica;

  • estabilidade relativa;

  • capacidade adaptativa;

  • amadurecimento econômico;

  • integração internacional.


Bacamarte anotava tudo sem alterar a expressão.

Por fim perguntou:

— O paciente ainda distingue oposição política de inimigo existencial?

A Colômbia permaneceu em silêncio.

O anestesiologista então concluiu:

— Quadro menos caótico do que certos vizinhos. Contudo, observo risco relevante de deterioração progressiva da oxigenação democrática.

O economista comentou:

— Ambos os pacientes parecem sofrer da mesma enfermidade continental: instituições formalmente preservadas convivendo com desgaste funcional silencioso.

— Exato — respondeu Bacamarte.— São organismos que aprenderam a parecer estáveis diante das câmeras, mesmo quando os exames já apontam inflamação sistêmica.

Do lado de fora da sala cirúrgica, outras repúblicas aguardavam atendimento. Algumas apresentavam falência múltipla de órgãos; outras sobreviviam graças a sedativos ideológicos de longa duração.

O Brasil e a Colômbia, entretanto, continuavam intrigando a junta.

Possuíam:


  • recursos naturais vastíssimos;

  • densidade cultural extraordinária;

  • elites sofisticadas;

  • estruturas jurídicas complexas;

  • potencial econômico considerável;

  • e notável capacidade de sobrevivência histórica.


Ainda assim, produziam crises com impressionante regularidade fisiológica.

Bacamarte fechou os exames.

Escreveu:


Brasil: “Paciente funcional. Obesidade burocrática importante. Episódios recorrentes de febre institucional. Metabolismo tributário hipertenso. Tendência à normalização da anomalia.”


Colômbia: “Paciente relativamente compensado. Cicatrizes traumáticas persistentes. Queda recente nos índices de estabilidade democrática. Sinais moderados de desgaste institucional progressivo.”


Ao final, registrou:


“ASA III avançado para ambos. Com risco aumentado no pós-operatório.”


A junta perguntou se a cirurgia seria bem-sucedida.

Bacamarte respondeu com serenidade quase machadiana:

— A cirurgia talvez funcione.— O problema é saber se os pacientes suportam acordar sem anestesia.

E voltou silenciosamente aos prontuários, como quem já compreendera que certas repúblicas latino-americanas desenvolveram uma singular capacidade de conviver com sintomas graves sem jamais admitir que estão doentes...

 
 
 

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