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Viajar: conhecer o mundo ou apenas consumi-lo?

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • há 12 minutos
  • 5 min de leitura

Inspirado pelas memórias de Claude Lanzmann, este ensaio propõe uma pergunta incômoda: quando foi que a viagem deixou de ser um encontro com o desconhecido para tornar-se apenas um catálogo de experiências previamente embaladas?

"Viajar não é mudar de paisagem; é permitir que a paisagem mude alguma coisa em nós."

Ao amigo Markson Vieira Coelho, que há anos constrói, com discrição e competência, a arquitetura invisível de tantas viagens. Ao cuidar de voos, hospedagens, deslocamentos e de tantos detalhes que raramente aparecem nas fotografias, oferece aos viajantes o bem mais precioso: a serenidade necessária para que possam dedicar-se inteiramente ao encontro com o mundo. Nestas linhas, ele representa todos os profissionais do turismo que compreendem que viajar começa muito antes do embarque e continua muito depois do retorno.


Por Glênio S Guedes (advogado)


Há palavras que o uso excessivo desgasta. "Experiência" talvez seja uma delas. Prometem-nos experiências gastronômicas, sensoriais, imersivas e exclusivas. Viajar, hoje, parece consistir menos em deslocar-se pelo mundo do que em acumular experiências cuidadosamente desenhadas para não surpreender ninguém. O inesperado converteu-se em defeito de logística; o silêncio, em falha de programação; o desvio, em atraso; o acaso, em inconveniência.

Entretanto, houve — e ainda pode haver — outra maneira de viajar.

Foi essa tradição que Claude Lanzmann registrou em suas memórias, A lebre da Patagônia, obra que inspira estas reflexões. Ao narrar décadas de deslocamentos pela Europa, pelo Oriente Médio, pela América do Sul e por tantos outros lugares, Lanzmann descreve muito mais do que itinerários. Mostra um homem que viaja para compreender. Em suas páginas, cidades, montanhas, fronteiras e encontros transformam-se em ocasiões para rever certezas, descobrir histórias e ampliar a própria inteligência do mundo.

Essa talvez seja a primeira distinção que mereça ser recuperada.

Há viagens que acrescentam quilômetros ao currículo; outras acrescentam profundidade ao espírito.

A diferença raramente depende da distância percorrida. Depende da disposição para aceitar que o lugar visitado possui uma existência própria, independente dos desejos de quem o visita. Viajar para conhecer exige uma virtude hoje pouco cultivada: a disponibilidade para ser contrariado.

O turismo contemporâneo, evidentemente, produziu benefícios incontestáveis. Democratizou deslocamentos outrora reservados a poucos, aproximou culturas, ampliou o acesso ao patrimônio histórico e movimentou economias inteiras. O problema não está em consumir serviços durante uma viagem, mas em reduzir o destino à condição de produto inteiramente preparado para satisfazer expectativas previamente fabricadas.

Não viajamos apenas com malas.

Viajamos também com algoritmos.

Antes mesmo do embarque, o olhar já foi treinado. Sabemos quais cafés merecem fotografia, quais ruas são "imperdíveis", qual mesa oferece o melhor enquadramento, qual pôr do sol produz mais aprovação nas redes sociais. Em muitos casos, chegamos ao destino apenas para confirmar imagens que outros já produziram por nós.

A viagem deixa então de descobrir o lugar; limita-se a verificar se ele corresponde ao catálogo.

Pouco resta para a surpresa.

Lanzmann percorre caminho oposto. Em A lebre da Patagônia, tempestades alteram rotas, doenças interrompem expedições, acidentes quase fatais modificam itinerários, encontros inesperados redefinem projetos intelectuais. A geografia jamais aparece como cenário neutro. O Mediterrâneo, Jerusalém, os Alpes, Paris ou a Patagônia não são cartões-postais, mas arquivos vivos da história, da política, da memória e da condição humana.

Há, porém, um aspecto particularmente revelador dessas memórias.

Lanzmann atribui parte dessa educação do olhar à convivência com Simone de Beauvoir. Ela não surge apenas como companheira de viagem, mas como companheira de conhecimento. Viajava depois de ler, pesquisava antes de partir, fazia perguntas incessantes, relacionava paisagens com acontecimentos históricos, obras literárias, tradições culturais e problemas filosóficos. Um lugar jamais lhe interessava apenas por sua beleza; interessava-lhe por aquilo que podia revelar acerca da condição humana.

Viajar ao lado de Beauvoir significava descobrir duas vezes o mesmo mundo: primeiro porque ele existia; depois porque alguém ensinava a vê-lo.

Essa talvez seja a forma mais elevada da companhia intelectual.

Nem sempre o maior presente que alguém nos oferece consiste em mostrar um lugar novo. Às vezes, consiste em revelar profundidades que nossos próprios olhos não haviam percebido.

Viajar, nesse sentido, aproxima-se muito mais da pesquisa do que do entretenimento.

O pesquisador parte porque admite não saber. O turista-consumidor, ao contrário, muitas vezes parte acreditando já conhecer o destino graças às milhares de imagens previamente consumidas. O primeiro formula perguntas; o segundo procura confirmações.

É por isso que alguns regressam apenas com fotografias, enquanto outros retornam com problemas intelectuais inteiramente novos.

Também as cidades sofrem as consequências dessa mudança de perspectiva. Quando passam a existir sobretudo para serem visitadas, fotografadas e consumidas, deixam gradualmente de organizar-se em torno da vida cotidiana de seus habitantes. Cafés convertem-se em cenários; mercados transformam-se em atrações; bairros inteiros passam a responder menos às necessidades de quem ali vive do que aos desejos de quem ali permanecerá durante poucos dias.

Em vez de conhecer uma cidade, conhece-se uma versão cuidadosamente editada dela.

Mas seria igualmente ingênuo imaginar que basta abandonar roteiros para encontrar a verdade. O acaso, por si só, não garante conhecimento. Pode conduzir ao extraordinário ou ao trivial, ao sublime ou ao decepcionante. Seu valor reside em outra dimensão: preservar a possibilidade de que o mundo interrompa nossos planos e nos obrigue a enxergar aquilo que jamais procuraríamos espontaneamente.

Toda grande descoberta intelectual possui algo desse encontro inesperado.

O filósofo encontra um problema que não procurava; o cientista tropeça numa hipótese; o arqueólogo identifica um vestígio improvável; o viajante depara com uma conversa, uma rua, uma biblioteca, uma paisagem ou um silêncio que nenhum guia recomendaria.

Talvez seja precisamente aí que resida a diferença entre deslocar o corpo e deslocar a inteligência.

É curioso recordar que Lanzmann evoca, em suas memórias, o fascínio dos grandes alpinistas diante das montanhas. A célebre resposta de George Mallory, perguntado por que desejava escalar o Everest — "Porque ele está lá" — costuma ser interpretada como celebração do risco. Talvez exprima algo mais profundo: a curiosidade humana diante daquilo que resiste à utilidade imediata.

Entre o alpinista que sobe porque a montanha existe e o turista que sobe apenas porque a fotografia renderá aprovação digital medeia uma diferença decisiva. Um procura ampliar a experiência; o outro, muitas vezes sem percebê-lo, limita-se a ampliar seu arquivo de imagens.

No fim das contas, viajar continua sendo uma forma de leitura.

Há quem leia apenas os títulos. Há quem percorra as notas de rodapé. Há quem deseje compreender a arquitetura inteira da obra. As cidades, como os livros, revelam muito pouco a quem apenas lhes percorre a superfície.

Claude Lanzmann compreendeu isso de maneira exemplar. Em A lebre da Patagônia, cada viagem transforma-se num exercício de atenção, investigação e abertura ao real. Não viaja para colecionar destinos, mas para ampliar sua capacidade de compreender homens, culturas e acontecimentos. E Beauvoir, com sua curiosidade metódica e inesgotável, aparece como uma das grandes educadoras desse olhar.

Talvez por isso uma das imagens mais belas do livro seja também uma das mais simples. Em certo momento, uma lebre cruza inesperadamente uma estrada da Patagônia. Não há monumento, espetáculo nem roteiro turístico. Há apenas um instante em que o mundo se impõe antes de ser convertido em fotografia, legenda ou mercadoria.

Talvez viajar seja exatamente isso: conservar a possibilidade de que algo nos surpreenda antes que consigamos classificá-lo, avaliá-lo ou publicá-lo.

Quem regressa apenas com imagens mudou de cenário.

Quem regressa com perguntas, talvez tenha realmente viajado.


Obra inspiradora: Claude Lanzmann, A lebre da Patagônia (edição brasileira).

 
 
 

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