A montanha engarrafada
- gleniosabbad
- 27 de jul.
- 6 min de leitura
O inverno, a dupla poda e as vinícolas que estão mudando a história do vinho brasileiro.
"Há montanhas que produzem pedra. Outras, quando encontram mãos pacientes, produzem história."
Por Glênio S Guedes (advogado)
Durante muitos anos, afirmou-se, com a solenidade própria das certezas prematuras, que o Brasil jamais seria um país de grandes vinhos. Os mais generosos acrescentavam um advérbio de consolo: ainda. Os mais severos dispensavam qualquer esperança. O argumento parecia irrefutável. Chovia quando não devia chover; fazia calor quando as videiras pediam frio; as uvas amadureciam sob um verão que lhes roubava elegância. A sentença estava lavrada antes mesmo do julgamento.
O curioso é que as videiras jamais foram consultadas.
Nem os agrônomos.
Muito menos a Serra da Mantiqueira.
Esta, ocupada havia séculos em produzir montanhas, resolveu guardar silêncio. Fez o que fazem as paisagens inteligentes: esperou. Afinal, existe enorme diferença entre responder a um argumento e desmenti-lo. O primeiro exige palavras; o segundo, paciência.
Foi assim que uma das mais interessantes revoluções da agricultura brasileira começou sem trombetas, sem manifestos e sem discursos. Bastou uma pergunta aparentemente singela: e se, em vez de obrigar a natureza a obedecer ao calendário, fosse o calendário a adaptar-se à natureza?
Nascia, assim, a dupla poda.
A expressão, à primeira vista, parece pertencer ao vocabulário reservado aos agrônomos, essa respeitável confraria que conversa com videiras usando linguagem científica. No entanto, seus efeitos ultrapassaram em muito os limites da técnica. Ao deslocar a colheita para os meses de inverno, quando os dias são secos, as noites frias e a amplitude térmica favorece a maturação das uvas, a dupla poda transformou um obstáculo climático em vantagem competitiva. O verão deixou de ser o senhor absoluto da viticultura brasileira. O inverno, até então simples visitante das montanhas, tornou-se coproprietário das adegas.
É possível que algum cético ainda franzisse a testa.
Os céticos prestam excelentes serviços à humanidade. Obrigam os inovadores a trabalhar melhor. O problema começa quando confundem prudência com profecia. Há previsões que envelhecem pior do que um vinho mal armazenado.
A Mantiqueira encarregou-se de demonstrá-lo.
Pouco a pouco, surgiram vinhedos onde antes havia apenas a convicção de que eles jamais prosperariam. Vieram as primeiras garrafas, depois as primeiras medalhas, em seguida os primeiros visitantes. Hoje, os chamados vinhos de inverno já somam mais de dois milhões e meio de garrafas por safra, produzidas por mais de cento e sessenta novas vinícolas, a grande maioria instalada na Serra da Mantiqueira, numa região que concentra investimentos superiores a um bilhão de reais e coleciona premiações em concursos internacionais.
Convém notar um detalhe.
Nenhuma região vinícola se torna memorável apenas porque produz vinho de qualidade.
Garrafas excelentes existem em muitos lugares.
Territórios extraordinários são mais raros.
As grandes regiões do mundo compreenderam, há muito tempo, que o vinho não nasce propriamente na adega. Nasce na paisagem. A adega apenas lhe empresta voz.
É exatamente essa percepção que começa a distinguir a Serra da Mantiqueira.
Suas vinícolas não parecem competir entre si como comerciantes disputando fregueses na mesma calçada. Lembram antes personagens de um romance coral, no qual cada uma desempenha papel próprio na construção de uma narrativa comum.
Há propriedades que apostam na hospitalidade silenciosa de chalés voltados para as montanhas; outras transformam o almoço harmonizado em extensão natural da degustação; algumas preferem experiências intimistas entre os vinhedos; outras investem em restaurantes cuja cozinha dialoga diretamente com os rótulos produzidos na propriedade. A viticultura encontrou o turismo sem perder a compostura, e o turismo descobriu que a melhor propaganda de um vinho talvez seja a paisagem onde ele nasceu.
Não se pense, entretanto, que tudo se resume à contemplação.
Há ciência em cada taça.
Há pesquisa.
Há observação paciente.
Há anos de experimentação.
Existe certo romantismo apressado que imagina o vinho como simples presente da natureza. A natureza, embora generosa, raramente entrega obras acabadas. Oferece montanhas, solos, ventos, neblinas e estações. O restante costuma depender da inteligência humana.
Talvez por isso a epígrafe deste ensaio seja mais do que simples ornamento.
Há, de fato, montanhas que produzem pedra.
A Mantiqueira resolveu produzir história.
E história não se improvisa.
Constrói-se.
Vinícola após vinícola.
Safra após safra.
Erro após erro.
Acerto após acerto.
Esse processo pode ser observado em projetos já consolidados e em empreendimentos mais recentes. Ferreira, Guaspari, InnVernia, Casa Almeida Barreto, Stella Valentino, Merum, Casa Geraldo e tantas outras propriedades apresentam estilos próprios, castas distintas e diferentes formas de receber seus visitantes. Algumas apostam na elegância do Syrah; outras exploram Cabernet Franc, Pinot Noir, Sauvignon Blanc, Gewürztraminer, Marsanne ou espumantes; todas, entretanto, parecem movidas pelo mesmo propósito: demonstrar que o vinho brasileiro pode possuir identidade regional sem precisar imitar ninguém.
É justamente aí que reside o fenômeno mais interessante.
Durante décadas, falava-se em vinho brasileiro quase sempre no singular, como se houvesse uma única história a contar.
Hoje, começam a surgir sotaques.
A Serra Gaúcha continua escrevendo capítulos indispensáveis dessa história, alicerçada sobre uma tradição construída ao longo de gerações. O Vale do São Francisco demonstrou ao mundo que a viticultura também pode florescer em pleno Semiárido, desafiando antigos determinismos climáticos. A Serra da Mantiqueira, por sua vez, acrescentou outra lição: às vezes, inovar não significa criar uma nova videira, mas ensinar uma videira antiga a dialogar com um novo calendário. E a Serra Fluminense, tendo Areal como seu principal expoente — justamente conhecida como a Capital do Vinho do Estado do Rio de Janeiro —, confirma que as regiões serranas do Sudeste começam igualmente a escrever páginas relevantes da moderna vitivinicultura nacional.
Poucas ideias possuem tanta elegância.
O vinho brasileiro já não fala com um único sotaque.
A cada safra, vai descobrindo novos acentos.
A voz da Mantiqueira possui acento serrano.
Não está sozinha.
Das encostas gaúchas às altitudes fluminenses, passando pelas montanhas mineiras e pelas experiências do Vale do São Francisco, o vinho brasileiro começa a abandonar o discurso uniforme para adquirir aquilo que distingue as grandes tradições vitivinícolas: personalidade regional. Cada terroir encontra sua própria gramática; todos passam a enriquecer a mesma língua.
A Mantiqueira, contudo, ocupa lugar singular nesse concerto. Não apenas pela qualidade crescente de seus vinhos, mas por haver demonstrado que ciência, observação e perseverança podem transformar uma aparente limitação climática em vantagem enológica. Ali, a dupla poda deixou de ser apenas uma técnica agrícola para converter-se em símbolo de uma ideia maior: a de que a inovação nasce quando se aprende a ouvir a natureza antes de pretender corrigi-la.
Talvez por isso a recente edição do TurisAgro tenha escolhido aproximar vinícolas, chefs, produtores e gastronomia. O desafio da região já não consiste em provar que seus vinhos são bons. Consiste em fazer com que um número cada vez maior de pessoas os descubra. Como observou um dos organizadores do evento, os produtores aprenderam a investir; agora precisam aprender, com igual competência, a comunicar aquilo que produzem. O enoturismo e a gastronomia aparecem, nesse contexto, não como acessórios, mas como instrumentos de consolidação de um território vitivinícola.
É uma evolução natural.
Primeiro conquista-se a excelência.
Depois constrói-se a reputação.
Por fim, forma-se uma cultura.
Talvez seja precisamente esse o estágio em que a Mantiqueira se encontra.
Ainda jovem para reivindicar séculos de tradição.
Já madura o bastante para dispensar complexos.
Não precisa imitar Bordeaux, Piemonte, Rioja ou Napa Valley. As grandes regiões vinícolas nunca se tornaram grandes por reproduzirem outras paisagens. Tornaram-se grandes quando descobriram a própria voz.
A voz da Mantiqueira respira a altitude.
Fala pelas madrugadas frias.
Expressa-se nas videiras cuidadosamente conduzidas, nas adegas discretas e nas mesas onde cada garrafa parece narrar, em silêncio, a aventura daqueles que ousaram acreditar que o inverno brasileiro poderia produzir muito mais do que geadas, neblinas e lareiras.
Produziria vinhos.
Produziria vinícolas.
Produziria um terroir.
Produziria história.
Talvez resida aí a mais agradável ironia desta narrativa.
Os antigos oráculos não estavam inteiramente errados.
Apenas fizeram a pergunta certa ao lugar errado.
Procuravam grandes vinhos onde o calendário parecia impor seus limites; não imaginaram que a resposta pudesse nascer justamente da inteligência de reinterpretá-lo.
A resposta aguardava, pacientemente, pelas montanhas brasileiras.
Encontrou na Serra da Mantiqueira sua expressão mais eloquente, sem deixar de ecoar na tradição da Serra Gaúcha, na ousadia do Vale do São Francisco e nas altitudes da Serra Fluminense.
Talvez seja esse o sinal mais seguro da maturidade de um país vitivinícola.
Não quando produz apenas um grande vinho.
Mas quando produz grandes regiões.
Não quando forma apenas excelentes enólogos.
Mas quando cada montanha, cada vale e cada terroir aprendem a falar com voz própria.
Porque, afinal, uma garrafa pode conservar a memória de uma safra.
Uma região, quando encontra mãos pacientes e inteligência persistente, conserva a memória de uma civilização inteira.
E essa história, felizmente, já começou a ser engarrafada nas montanhas do Brasil.


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