Quer ficar mais inteligente? Visite Cantagalo e passe no museu de Euclides da Cunha
- gleniosabbad
- há 2 dias
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“Os Sertões é um consórcio entre ciência e arte.”— Leopoldo M. Bernucci
Ao povo de Cantagalo, que teve a fina audácia de conservar o cérebro de Euclides da Cunha — gesto que, convenhamos, é uma das formas mais inteligentes de patriotismo cultural.
Por Glênio S Guedes ( advogado )
Onde mora o pensamento
Há perguntas antigas que nunca nos abandonam. Uma delas — talvez a mais antiga de todas — é esta: onde mora o pensamento?
Durante séculos, filósofos e médicos disputaram o endereço da inteligência humana. Houve quem acreditasse que ela residia no coração, esse órgão ardente que pulsa nas tragédias gregas e nos amores contrariados. Outros, mais sóbrios, suspeitaram do cérebro — essa massa silenciosa, cheia de sulcos e mistérios, que pesa pouco mais de um quilo e, no entanto, governa todas as nossas ideias.
Hoje sabemos que o pensamento nasce ali: na rede complexa de bilhões de neurônios que formam o cérebro humano. Cada lembrança, cada conceito, cada metáfora é, no fundo, um fenômeno elétrico e químico que percorre essas delicadas trilhas biológicas.
Mas há um paradoxo curioso.
Se o pensamento nasce no cérebro, ele também o ultrapassa. Um cérebro individual pode cessar sua atividade; as ideias que produziu, porém, continuam caminhando pelo mundo, como viajantes que não sabem que o autor já partiu.
É nesse ponto que entra uma pequena cidade da serra fluminense chamada Cantagalo.
Uma cidade que guarda um cérebro
Cantagalo é uma cidade tranquila, dessas que parecem conversar em voz baixa com as montanhas ao redor. Não tem o tumulto das capitais nem a pressa nervosa das grandes metrópoles. Quem passa por ali talvez imagine encontrar igrejas antigas, praças arborizadas ou histórias de fazendeiros do café.
Mas Cantagalo guarda algo mais singular.
Ali repousa o encéfalo de Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, um dos livros mais extraordinários já escritos sobre o Brasil.
Sim, leitor: existe no país um museu onde se conserva o cérebro de um escritor.
E não um escritor qualquer.
Mas um homem que tentou compreender o Brasil como um geólogo examina a terra: escavando camadas.
O cérebro que tentou decifrar o Brasil
Euclides da Cunha não foi apenas um literato.
Foi engenheiro, jornalista, correspondente de guerra, observador atento das paisagens e das tragédias humanas.
Quando publicou Os Sertões, em 1902, produziu algo que até hoje desconcerta classificações acadêmicas. O livro é ao mesmo tempo:
geografia física
análise social
crônica de guerra
reflexão histórica
e obra literária de potência quase épica.
O crítico Leopoldo M. Bernucci descreveu essa mistura com uma fórmula admirável: um consórcio entre ciência e arte.
De fato, a mente de Euclides parecia funcionar como um laboratório interdisciplinar antes mesmo que as universidades inventassem essa palavra.
A arquitetura da prosa
Há escritores que escrevem com delicadeza. Outros escrevem com ironia. Euclides escrevia como quem move placas tectônicas.
Sua linguagem é famosa por suas tensões:
antíteses violentas
imagens geológicas
metáforas quase cósmicas
frases que parecem construídas como pontes.
Não por acaso: ele era engenheiro.
A prosa de Euclides tem algo de arquitetônico. Cada período parece desenhado com régua e compasso. As palavras se alinham como estruturas de pedra. O texto cresce como uma cordilheira.
Ler Os Sertões às vezes dá a sensação de que não estamos diante de um livro, mas diante de um relevo.
O telescópio do pensamento
A própria estrutura da obra revela uma mente curiosa.
Euclides começa com uma visão ampla do território brasileiro — quase uma contemplação geográfica do país. Depois aproxima o foco lentamente, como quem regula a lente de um telescópio: Brasil→ sertão→ Canudos→ a guerra.
Esse movimento do geral para o particular revela um modo de pensar típico das grandes interpretações históricas.
Primeiro o panorama. Depois o drama humano.
A guerra que virou interpretação
Euclides esteve em Canudos como correspondente de guerra.
Ele viu de perto o conflito entre o Exército da jovem República e os sertanejos liderados por Antônio Conselheiro. O que presenciou foi tão brutal que exigiu mais do que uma reportagem. Exigiu um livro.
Mas o livro que nasceu desse episódio não é apenas a narrativa de uma guerra. É uma tentativa de compreender um país que parecia dividido entre dois mundos:
o litoral urbano e moderno
o interior áspero e esquecido.
Talvez por isso Os Sertões permaneça tão inquietante. Ele não oferece respostas fáceis. Em vez disso, transforma o conflito em pergunta.
O paradoxo do cérebro silencioso
A neurociência moderna calcula que o cérebro humano possua cerca de 86 bilhões de neurônios.
Essas células formam redes complexas que produzem pensamento, memória e imaginação.
O cérebro de Euclides — aquele que hoje repousa em Cantagalo — um dia foi atravessado por essas correntes elétricas. Foi ali que nasceram as imagens, as hipóteses e as frases que compõem Os Sertões.
Hoje, naturalmente, esse cérebro está silencioso.
Biologicamente, sua atividade terminou.
Mas há um paradoxo curioso.
Enquanto o órgão permanece imóvel, as ideias que ele produziu continuam em movimento.
Elas circulam em livros, aulas, debates e interpretações. O cérebro físico repousa; o pensamento continua viajando.
Um convite ao leitor
Talvez seja por isso que Cantagalo mereça uma visita.
Não apenas pelas montanhas serenas da região, nem pela história do interior fluminense, mas por guardar algo raro: o vestígio material de uma mente que tentou compreender o Brasil.
Se você gosta de praias, vá ao litoral.
Se prefere montanhas, vá à serra.
Mas se tiver curiosidade intelectual — essa pequena coceira que aparece no cérebro quando encontramos uma boa pergunta — considere um passeio a Cantagalo.
Ali repousa um cérebro que um dia tentou explicar o país.
Talvez ele não o tenha explicado completamente. Nenhum pensador conseguiu.
Mas deixou uma tentativa tão grandiosa que continua fazendo gerações inteiras pensarem.
E, convenhamos, poucos lugares no Brasil oferecem uma experiência turística tão cerebral quanto essa.
Bibliografia
BERNUCCI, Leopoldo M. Prefácio e notas críticas. In: CUNHA, Euclides da. Os Sertões. Edição crítica comentada. São Paulo: Ateliê Editorial; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.
DOLZAN, Marcio. “As cidades de Euclides”. In: Especial Euclides da Cunha – 150 anos. São Paulo: O Estado de S. Paulo.
DOLZAN, Marcio. “Casa Euclides da Cunha reabre após 12 anos com objeto de fascínio: o cérebro do escritor”. O Estado de S. Paulo, Caderno Cultura.
LENT, Roberto (org.). Neurociência da mente e do comportamento. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.


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