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O Kamasutra e a arte perdida de desejar

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • há 2 dias
  • 6 min de leitura

“A cama, no Kamasutra, começa muito antes do colchão: começa na palavra, no perfume, no olhar, na música, na espera.”

“Sem linguagem, o desejo é apenas pressa.”(antiga sabedoria indiana)

À FILBo 2026, que este ano rende justa homenagem à Índia, civilização que soube transformar até o desejo em matéria de reflexão.


Por Glênio S Guedes (advogado)



Somos, todos, textos em movimento. Textos que leem, que recolhem, que se deixam emendar por outros textos, numa espécie de marginália invisível em que a experiência humana vai sendo redigida a várias mãos. Quase nada do que pensamos nasce em estado virginal; quase tudo nos chega de uma página antecedente, de uma observação alheia, de uma voz remota que, sem pedir licença, instala-se em nosso repertório interior. Foi assim que me vieram, em meio às fecundas provocações intelectuais da FILBo 2026, as finas reflexões da historiadora Sandra Cardona, em seu artigo El Kamasutra o la melancolía de un mundo perdido, publicado em El Periódico de la Feria. E é sob a discreta inspiração dessas linhas — cultas, sensíveis e oportunamente nostálgicas — que me permito revisitar uma das obras mais citadas do planeta e, simultaneamente, uma das menos compreendidas em sua substância.

Porque o Kamasutra, convenhamos, é um daqueles livros aos quais a celebridade prestou o desfavor da vulgarização.

Basta mencionar-lhe o nome para que o imaginário automático do Ocidente convoque, com a presteza própria das inteligências preguiçosas, duas ou três acrobacias de alcova, algumas gravuras indevidamente coloridas e a convicção satisfeita de que a Índia antiga, entre meditações metafísicas e elefantes ornamentados, teria decidido legar à humanidade um compêndio atlético de contorcionismos conjugais. A civilização ocidental, sempre diligente quando se trata de reduzir o complexo ao folclórico, comprou o título, folheou a caricatura, sorriu com malícia e julgou encerrado o assunto. Conservou a capa; dispensou o livro. Método, aliás, muito em voga: hoje também se faz isso com doutrinas, pessoas, instituições e, em certos parlamentos, até com a própria Constituição.

Ocorre que o Kāmasūtra está muito longe de ser um manual de proezas anatômicas. No sânscrito, kāma (काम) não designa apenas o sexo em sua acepção fisiológica, mas o desejo, o prazer, a fruição sensorial, o deleite estético; já sūtra (सूत्र) significa fio, aforismo, enunciado condensado de ensinamento. Estamos, pois, diante de um tratado sobre a inteligência do prazer humano — e não de um catálogo de ginástica matrimonial para casais ansiosos em busca de novidades de domingo.

A diferença não é pequena.

Na tradição clássica da Índia, o kāma integrava os chamados puruṣārthas (पुरुषार्थ), isto é, as quatro grandes finalidades da existência: o dever ético (dharma), a prosperidade material (artha), o prazer (kāma) e a libertação espiritual (mokṣa). Observe-se a sofisticação da arquitetura antropológica: o prazer não comparecia ali como penetra moral a ser tolerado às escondidas, mas como dimensão legítima da condição humana, digna de reflexão, pedagogia e medida. Nós, modernos, preferimos submetê-lo à tirania do improviso, do impulso e, ultimamente, do algoritmo. A civilização que criou o Kamasutra resolveu pensar o desejo; nós, mais pragmáticos e talvez menos pacientes, optamos por terceirizá-lo a aplicativos de celular.

Vātsyāyana, o autor a quem tradicionalmente se atribui a obra, não escrevia para curiosos de banca de aeroporto nem para consumidores de risadinhas semissábias. Vātsyāyana escrevia para uma sociedade urbana, refinada e ritualizada, em que a vida amorosa ainda era concebida como arte de civilização. O prazer, nesse universo, exigia educação dos sentidos, disciplina da linguagem, percepção do tempo oportuno e sensibilidade para aquilo que a estética indiana chamava rasa (रस): o sabor interior da experiência, sua essência emotiva, sua seiva invisível.

Convém ainda desfazer outro equívoco recorrente. O Kamasutra não se confunde propriamente com o tantra, como tantas vitrines esotéricas do Ocidente gostam de sugerir entre velas aromáticas e promessas instantâneas de iluminação. O tantrismo trabalha a integração cósmica de energias, a transcendência e certos itinerários espirituais do corpo; o Kamasutra é menos místico e mais civilizacional: interessa-se pela sociabilidade, pelo cortejo, pela convivência, pela psicologia do encontro e pela educação sensorial do desejo. Um busca, em larga medida, a metafísica da união; o outro, a gramática humana da aproximação.

Nada mais distante, convenha-se, da pedagogia contemporânea do toque apressado, da conversa telegráfica e da sedução reduzida a notificações luminosas piscando na tela.

Aí reside o ponto que mais desconcerta o leitor moderno: o Kamasutra começa precisamente onde nós terminamos cedo demais.

A aproximação amorosa, em Vātsyāyana, não se inaugura no contato físico, mas na construção gradual de uma atmosfera. Começa na palavra, no perfume, no olhar, no silêncio calculado, na música, no adorno, no intervalo entre a insinuação e o gesto. Começa, para usar outro conceito central da estética sânscrita, no śṛṅgāra (शृंगार), isto é, no erotismo adornado, no amor revestido de forma, no desejo que se apresenta vestido de linguagem antes de comparecer despido de roupa. Entre aquele mundo e o nosso medeia a distância que separa o artesão do apertador de botões: um edificava ambiência; o outro exige resultado. Um compreendia o valor voluptuoso da demora; o outro, servo da ansiedade digital, receia a espera como se ela fosse falha de conexão.

Talvez por isso o Ocidente tenha se agarrado com tanto entusiasmo às célebres “sessenta e quatro posições”. Era a parte menos comprometedora do livro — e, sobretudo, a parte que dispensava formação interior.

Posições podem ser copiadas por qualquer manual ilustrado ou por certos influenciadores contemporâneos, sempre dispostos a prestar à humanidade o serviço de ensinar o que ignoram. Já a delicadeza da escuta, a arte da insinuação, o cultivo do subentendido, a disciplina dos sentidos e a inteligência da espera requerem profundidade psíquica, vocabulário afetivo e imaginação moral — mercadorias mais raras que promoção de sinceridade em redes sociais. A modernidade aprecia técnicas porque as técnicas poupam a alma; basta seguir o esquema e posar de sofisticado. Civilizar o desejo, porém, é empreendimento menos fotogênico e infinitamente mais árduo.

Sandra Cardona, com feliz intuição, chamou o Kamasutra de melancolia de um mundo perdido. A expressão é exata. Há naquele texto não apenas ensinamentos sobre o prazer, mas a nostalgia implícita de uma época em que o prazer ainda obedecia a certa solenidade da experiência humana. Não se desejava aos atropelos. Não se convertia o encontro em competição atlética nem a intimidade em relatório de desempenho. Não se confundia intensidade com velocidade — equívoco em que nossa época insiste com a candura técnica de quem acredita que um elevador mais rápido seja, por isso, melhor arquitetura.

A verdade, talvez incômoda, é que não compreendemos o Kamasutra porque o lemos a partir de nossas indigências.

Quem se habituou a pensar o erotismo como descarga vê no livro apenas licença; quem reduziu o amor a logística corporal enxerga nele apenas exotismo; quem já não possui tempo para desejar imagina que o desejo seja somente a parte final do processo. Daí a vulgarização inevitável: fizemos de um tratado de sensibilidade um almanaque de colchão. É como visitar uma biblioteca para admirar a espessura das estantes — ou, em certas leituras universitárias contemporâneas, para conferir apenas se a capa combina com a ideologia do semestre.

No fundo, o Kamasutra nos constrange porque nos recorda de uma perda maior: não a perda de técnicas amorosas, mas a perda de linguagem para o desejo. Já não sabemos construir expectativa, ornamentar presença, cultivar promessa, atribuir ao silêncio função de preâmbulo. Queremos a chegada sem itinerário, a intimidade sem liturgia, o fruto sem estação. E depois nos espantamos de que o prazer, órfão de imaginação, envelheça com a rapidez dos produtos de consumo.

Talvez Vātsyāyana sorrisse — com aquela ironia serena que só os antigos possuíam — ao ver que transformamos sua obra em souvenir erótico de livraria turística. Um tratado escrito para ensinar a arte de desejar converteu-se, em mãos apressadas, em catálogo para quem mal dispõe de tempo de desejar alguma coisa. Não é defeito do texto; é sintoma do leitor.

Eis por que Sandra Cardona tem razão ao falar de um mundo perdido. O que se perdeu não foi a cama. Camas continuam abundantemente disponíveis, com molas ensacadas, espuma ortopédica, descontos sazonais e parcelamento sem juros — a civilização moderna, sempre previdente, nunca falha quando se trata de fabricar suportes. O que se perdeu foi aquilo que o Kamasutra sabia inaugurar muito antes do colchão: a lenta liturgia da palavra, o perfume como linguagem invisível, o olhar como preâmbulo, a música como cumplicidade e a espera como arte superior do desejo.

Perdemos, em suma, não o corpo.

Perdemos a antecâmara da alma.


 
 
 

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