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A Apocolocyntosis: O Triunfo do Abobrado na Política Global?

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 6 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Por Glênio S Guedes ( advogado )


Ó, tempos! Ó, costumes! Diria Cícero, se não estivesse ocupado a revirar-se no túmulo com a intensidade de um rotor de helicóptero. Não é de hoje que a humanidade, em sua cíclica mania de tropeçar nas próprias pernas, se vê diante de um espetáculo que faria o próprio Júpiter engasgar com sua ambrosia. Mas o que temos hoje, meus caros, é um show de horrores que transcende o mero drama; é uma comédia bufa, um mimo grotesco, um pastelão cósmico, onde a inteligência parece ter sido banida não para a Córsega, mas para alguma galáxia distante, habitada por quarks e fantasmas.

Sêneca, o astuto filósofo e dramaturgo, que em vida teve o dissabor de ser tutor do (então promissor) Nero e exilado pelo (já abobrado) Cláudio, legou-nos com sua obra-prima da desforra: a Apocolocyntosis Divi Claudii— a famigerada "Abobrificação do Divo Cláudio". E por que "abobrificação"? Ah, meus incautos, porque o tal Cláudio, esse imperador gago, manco e (dizem as más línguas) meio tolo, não merecia os louros de uma apoteose, de uma divinização. Não, senhores! Merecia ser transformado em uma abóbora, em um "cucurbita", o apelido pejorativo que circulava nos burburinhos do Senado. Um vegetal oco, redondo e, francamente, sem grande utilidade além de enfeitar festas de outono ou virar sopa – quando muito.


Mas a pergunta que não quer calar, ecoando nos corredores digitais e nos cafés vazios da sanidade, é: será que não abobrificamos de vez, nós também?


I. O Balbuciar Global e a Gagueira da Razão


Cláudio, em sua chegada ao Olimpo, tentava falar. Misturava latim e grego, balbuciava, e os deuses, coitados, ouviam um ruído indefinido, um "som confuso" que mais parecia o bramido de uma fera enjaulada do que a fala de um soberano.


E que temos hoje? Nossos líderes, com suas língues afiadas em soundbites vazios, com suas redes sociais a vomitar sentenças dignas de um oráculo com deficiência de cálcio. A cada novo dia, um discurso que "mais atrapalha do que esclarece", uma promessa que evapora antes mesmo de ser pronunciada, uma explicação que enreda mais do que desata. A gagueira de Cláudio era um defeito físico; a gagueira de nossos governantes é, em muitos casos, uma gagueira moral e intelectual, uma incapacidade crônica de articular ideias coerentes, de construir pontes de diálogo onde só existem muros de ódio. O que Cláudio dizia não fazia sentido. O que nossos líderes proferem, muitas vezes, faz menos sentido ainda, ou pior, faz sentido demais para uma agenda sombria de manipulação. É a cacofonia do prosímetro político, onde o verso elevado da promessa é sempre tragado pela prosa vulgar da incoerência.


II. A Tirania da Ignorância e o Massacre dos Fatos


Sêneca, com sua pena afiada, não poupou Cláudio das acusações mais graves. Augusto, no concílio divino, lista com horror os 35 senadores e 321 cavaleiros romanos sumariamente executados. Cláudio, o censor, transformou sua função em um instrumento de morte, um açougue de cabeças políticas.


E hoje? Não vemos a guilhotina na praça, mas testemunhamos o massacre dos fatos, a execução sumária da verdade em alta definição. Nossos líderes, com ares de "censor", invalidam a ciência, ridicularizam a expertise, e desconstroem qualquer narrativa que não se encaixe em seus delírios autoritários. A censura de Cláudio era a espada; a censura de hoje é o algoritmo, a notícia falsa (fake news, para os mais afeitos ao barbarismo), a distorção orquestrada que silencia vozes e enterra a lucidez sob uma montanha de trivialidades e mentiras deslavadas.

Onde está o Catão, o censor modelo, para chorar as injustiças? Vemos, em seu lugar, o veredicto: a tirania da ignorância, antes vista em decretos sangrentos, agora se consagra na banalização do absurdo, na glorificação do embuste, na "abobrificação" de nossa própria capacidade de discernimento, transformando a verdade em mais uma vítima a compor a lúgubre lista de Augusto.


III. A Falsa Apoteose do Medíocre e a Servidão Voluntária


Cláudio, em sua morte, não se tornou um deus, mas uma abóbora. Seu funeral, um espetáculo de choro e adulação artificial, não enganou ninguém. A farsa da divinização, encenada pelos seus herdeiros, desmanchou-se como um castelo de areia.


E qual a nossa "falsa apoteose" hodierna? É a elevação de figuras medíocres, narcisistas e, muitas vezes, francamente inaptas, ao altar do poder. São os "influenciadores" da política, com suas frases de efeito e suas poses grandiosas, vendendo a ilusão de um "líder forte" enquanto a realidade se desintegra. A adulação excessiva que Cláudio exigia e recebia, nós a vemos replicada na veneração cega, na submissão ao "líder" que fala à barriga e não à razão.

A punição final de Cláudio – ser condenado à servidão de um liberto no submundo – é a suprema inversão de hierarquia. E nós? Não estaremos, porventura, nos submetendo a uma espécie de servidão voluntária, escravos não de um liberto, mas do aparato midiático e dos engenheiros da trivialidade? Entregamos a nossa autonomia em troca de um conforto mental anestesiante, trocando a liberdade pela tirania da simplicidade. A questão não é se Cláudio podia matar uma mosca, mas se nós, em nossa inércia, permitimos que a abóbora vestida de César mate a nossa própria razão.


Conclusão: O Que Fazer Diante da Colheita de Abóboras?


Sêneca, em sua Apocolocyntosis, legou-nos um antídoto. Uma ferramenta de escárnio, de mordacidade e riso ácido (dicacitas e facetiae), para confrontar a pretensão e a estupidez que se vestem de poder. A sátira menipeia, com sua fusão de registros, é a nossa clava contra a abóbora vestida de César.


Não podemos nos dar ao luxo de abobrificarmos de vez. Não podemos aceitar a servidão da mente, o massacre dos fatos, a gagueira da razão. É preciso rir, sim, mas um riso que fira, que exponha, que desmascare a abóbora travestida de divindade. Que Cláudio e seus análogos modernos sejam despidos de sua falsa majestade e recebam o veredito merecido: a condenação ao ridículo eterno, a um posto de servidão na lavoura da história, onde suas "abobrinhas" serão apenas adubo para o solo da sanidade.


Bibliografia menipeia

SÊNECA, Lucius Annaeus. Apocolocyntosis Divi Claudii / Abobrificação do Divo Cláudio. Tradução e notas de Luiz Henrique Milani Queriquelli, Maria Helena Felicio Adriano, Miguel Angelo Andriolo Mangini e Pedro Falleiros Heise. São Paulo: Iluminuras, 2022.


 
 
 

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