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Do homem universal ao gestor da inteligência alheia

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 5 de jan.
  • 4 min de leitura

Polimatia, big techs e a terceirização da síntese do saber à luz de Peter Burke

“Saber muitas coisas não é o mesmo que compreender o todo.”

Por Glênio S Guedes ( advogado )


1. Introdução — A pergunta deslocada


Vivemos uma época paradoxal. Nunca houve tamanha abundância de informação, tamanha capacidade técnica de cruzar dados, integrar saberes e circular conteúdos entre áreas distintas. E, no entanto, raramente se falou tanto na crise da compreensão, na fragmentação do conhecimento e na perda de sentido. É nesse cenário que ressurge, quase sempre de modo impreciso, a figura do polímata — ora evocada com nostalgia humanista, ora projetada de maneira apressada sobre os líderes das grandes plataformas digitais contemporâneas.

A pergunta que orienta este ensaio não é biográfica nem moral. Não se trata de saber quem são os novos polímatas, mas se ainda faz sentido falar em polimatia nos termos clássicos quando o regime do saber se transforma profundamente. À luz da análise histórica proposta por Peter Burke, a hipótese aqui defendida é clara: as big techs não produzem novos polímatas; produzem gestores da polimatia potencial alheia. Trata-se de uma mutação estrutural do lugar da síntese intelectual — que deixa de ser prática pessoal e passa a ser função sistêmica.


2. Polimatia como prática histórica, não como mito


Um dos méritos centrais de O Polímata está em retirar a polimatia do campo da idealização abstrata. Burke insiste: o polímata não é um gênio atemporal, mas um produto histórico, possível apenas em determinadas condições. Regimes de saber, instituições, tecnologias de informação e expectativas sociais moldam aquilo que uma época considera conhecimento legítimo e, sobretudo, quem pode aspirar à síntese entre campos distintos.

No Renascimento e no início da modernidade, a relativa escassez de livros, a fluidez disciplinar e a valorização social da erudição tornavam plausível a figura do homem universal. À medida que o saber se expande, se especializa e se institucionaliza, essa figura passa a ser vista com desconfiança. O que antes era virtude — amplitude — transforma-se em defeito: superficialidade.

Essa observação é decisiva. A crise da polimatia não decorre de uma súbita incapacidade humana, mas de uma reorganização social do conhecimento. O problema, portanto, não é que não existam mais indivíduos curiosos ou intelectualmente versáteis, mas que o sistema deixou de esperar deles a síntese.


3. Big techs e o novo regime do saber


É nesse ponto que entram as grandes plataformas digitais. Elas surgem como infraestruturas capazes de armazenar, ordenar, cruzar e distribuir volumes inéditos de informação. Aos olhos menos atentos, isso poderia parecer a realização máxima do ideal polimático: tudo acessível, tudo conectado, tudo potencialmente integrável.

Mas aqui se impõe uma distinção fundamental, que Burke ajuda a esclarecer indiretamente: acesso ao saber não equivale a domínio do saber, e integração técnica não equivale a síntese intelectual. As big techs não pensam o todo; elas viabilizam a circulação do fragmento. Seu poder não é epistêmico no sentido clássico, mas arquitetônico: desenham os caminhos pelos quais o conhecimento transita.

Os líderes dessas plataformas, frequentemente celebrados como visionários universais, não operam como sujeitos que atravessam campos do saber produzindo unidade conceitual. Operam como orquestradores de competências alheias, mediadores entre especialistas, dados e mercados. Sua racionalidade é estratégica, não sintética; operacional, não contemplativa.


4. Do sujeito da síntese ao gestor da complexidade


Aqui se revela a mutação central que este artigo propõe nomear. O polímata clássico era um sujeito da síntese. Mesmo quando errava, era ele quem assumia a responsabilidade intelectual de articular diferentes domínios do saber numa visão de conjunto. A compreensão do todo — ainda que provisória — passava por um esforço pessoal de integração.

No regime informacional contemporâneo, essa responsabilidade se desloca. A síntese é terceirizada: distribuída entre algoritmos, equipes, rankings, modelos estatísticos. O gestor da big tech não precisa compreender profundamente os conteúdos que circulam sob sua plataforma; precisa garantir que circulem, que performem, que escalem. O critério deixa de ser a coerência do todo e passa a ser a eficiência do fluxo.

Nesse sentido, a figura que emerge não é a do novo polímata, mas a do gestor da inteligência alheia. Ele administra a possibilidade de múltiplas sínteses sem jamais se comprometer com uma. O saber torna-se potencial infinito; a compreensão, responsabilidade difusa.


5. Expectativas sociais e o eclipse da síntese


Burke insiste que nenhuma forma de conhecimento existe sem expectativas sociais que a sustentem. O polímata era valorizado porque se esperava dele uma visão abrangente do mundo. Hoje, o que se espera dos grandes agentes do saber digital não é compreensão, mas inovação contínua; não é unidade, mas escalabilidade; não é juízo, mas desempenho.

Essa mudança de expectativa é talvez o ponto mais delicado — e mais decisivo. Não estamos diante da morte do polímata por incapacidade humana, mas diante de sua irrelevância funcional num sistema que já não demanda síntese pessoal. O risco, contudo, é evidente: quando ninguém é responsável pela articulação do sentido, a abundância informacional convive com uma crescente pobreza de compreensão.


6. Uma leitura burkeana sem nostalgia


É importante sublinhar: a crítica aqui desenvolvida não é um lamento romântico pela perda do homem universal, nem uma condenação moral das big techs. Burke ensina a desconfiar tanto da nostalgia quanto da demonização. Cada regime do saber resolve problemas e cria outros.

O desafio contemporâneo talvez não seja ressuscitar o polímata clássico, mas recolocar a questão da síntese como problema humano, e não apenas técnico. Enquanto a integração permanecer delegada a sistemas e a responsabilidade intelectual dissolvida em fluxos, a polimatia existirá apenas como potencial — jamais como prática efetiva.


7. Conclusão — Polimatia sem polímatas?


À luz de Peter Burke, a resposta à pergunta inicial torna-se mais clara. Os donos das grandes big techs não são polímatas, no sentido histórico, epistemológico ou cultural do termo. São, antes, figuras centrais de um novo regime do saber, no qual a multiplicidade é administrada, mas não compreendida; potencializada, mas não sintetizada.

Vivemos, assim, uma era de polimatia sem polímatas: tudo pode ser conectado, mas quase nada é assumido como totalidade pensada. Talvez o desafio do nosso tempo não seja produzir novos homens universais, mas recuperar, em meio à abundância técnica, a coragem intelectual de responder pelo todo — mesmo sabendo que ele jamais será plenamente apreendido.


 
 
 

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