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A metafísica do aeroporto

Foto do escritor: gleniosabbad
gleniosabbad
30 de out.
5 min de leitura

Do cérebro que calculou a fuga, da consciência que ficou para trás e das portas que o futuro resolveu fechar.

Tinha passagem, passaporte e destino. Faltava-lhe apenas uma explicação, artigo que as companhias aéreas, por felicidade, ainda não exigem no balcão.

Glênio S. Guedes (advogado)


A neurocientista Suzana Herculano-Houzel, em seu artigo “O cérebro do fugitivo”, publicado na Folha de S.Paulo, em 29 de outubro de 2026, oferece-nos uma curiosa anatomia da ambição política. Acompanhando a trajetória de Flávio Bolsonaro, descreve um cérebro que deseja, articula, antecipa a vitória e, finalmente, descobre as virtudes da partida. A inteligência, sugere a autora, consiste em conservar abertas as portas do futuro. Ocorreu-me, entretanto, uma dificuldade: nem toda porta aberta conduz à liberdade; algumas apenas dão acesso à sala de espera.

Comecemos pelo sobrenome. Há homens que precisam construir uma reputação; outros a recebem pronta, como uma mobília antiga, com seus ornamentos, suas gavetas secretas e seus cupins. O herdeiro político encontra uma plateia que não precisou conquistar inteiramente. Basta-lhe aparecer, repetir certos gestos, pronunciar determinadas palavras. O público, reconhecendo a família, completa o espetáculo.

Albert Bandura explicaria parte do fenômeno pela aprendizagem social. Pierre Bourdieu acrescentaria o capital simbólico, essa espécie de fortuna que dispensa cofres e, não raro, inventários. O sobrenome converte-se em patrimônio eleitoral. Não garante, contudo, que o herdeiro tenha recebido as virtudes que os admiradores atribuem ao antecessor — nem que o antecessor as possuísse. A hereditariedade, afinal, transmite muitas coisas; a virtude não consta entre as de transmissão obrigatória.

Segue-se a ambição. Nada há de extraordinário em desejar o poder. Aristóteles distinguia a habilidade na escolha dos meios da prudência na determinação dos fins. Maquiavel examinou as circunstâncias em que o poder se conquista e conserva. Entre ambos, a política encontrou espaço para homens prudentes, homens hábeis e alguns que confundem as duas espécies.

Prometem-se futuros, distribuem-se expectativas, antecipam-se recompensas. O futuro possui uma vantagem financeira sobre o presente: admite despesas sem exigir pagamento imediato. É possível repartir ministérios imaginários, prestígios hipotéticos e favores condicionais. Tudo se encontra disponível, desde que a realidade tenha a delicadeza de não chegar antes da hora.

Chega, porém, a campanha. E com ela uma curiosa enfermidade da razão: a crença de que desejar intensamente um resultado aumenta sua probabilidade.

Daniel Kahneman estudou os mecanismos pelos quais superestimamos nossas previsões e subestimamos a incerteza. O excesso de confiança não é privilégio dos políticos, mas neles adquire especial visibilidade, porque costuma vir acompanhado de microfones.

Então sobrevém a derrota.

As urnas têm um defeito desagradável: não reconhecem a autoridade dos prognósticos. Contam votos, não convicções. Leon Festinger chamou de dissonância cognitiva o desconforto produzido pelo conflito entre crenças e informações. Diante da contradição, podemos rever nossas certezas ou procurar explicações que as preservem.

É nesse ponto que a crônica de Suzana encontra sua imagem mais provocadora: o cérebro que, diante de um futuro ameaçador, descobre no aeroporto uma solução.

A metafísica, entretanto, não dispensou a logística.

Segundo as notícias publicadas, Flávio deixou o Brasil depois de uma determinação judicial de entrega de passaportes e restrição de saída, utilizando documento italiano na passagem pela Argentina e prosseguindo em aeronave particular, com escala no Equador e destino aos Estados Unidos. Não havia mandado de prisão, distinção juridicamente relevante. A origem dos recursos empregados na viagem tampouco ficou esclarecida nas informações examinadas. E há perguntas que, diferentemente das malas, não se perdem durante as conexões.

Mas o episódio reservava um capítulo ainda mais curioso. Já nos Estados Unidos, Flávio divulgou uma carta na qual se apresentava como o verdadeiro presidente eleito do Brasil, embora as urnas houvessem decidido diversamente. A primeira versão ostentava um brasão com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, denominação histórica que parecia convocar o passado para testemunhar em favor de uma pretensão presente.

Vieram as correções. O brasão foi substituído; o presidente eleito transformou-se em líder do Brasil. Segundo informações jornalísticas, a alteração do título teria ocorrido após intervenção de emissários ligados ao Departamento de Estado americano. O que se conhece publicamente dessa intervenção, contudo, ainda depende dos relatos das fontes.

O episódio adquiriu também dimensão jurídica. Advogados apresentaram notícia de fato à Polícia Federal, questionando o emprego do símbolo da República em documento político particular e apontando possível incidência do art. 296 do Código Penal. A apuração deverá distinguir a irregularidade alegada da eventual responsabilidade criminal.

A carta, porém, já oferecia matéria suficiente à ironia. A geografia fora vencida por um avião; a aritmética eleitoral mostrou-se menos acessível aos recursos da aviação. E a autoridade que as urnas não haviam conferido tampouco poderia nascer da substituição de um cabeçalho.

O aeroporto, afinal, é uma instituição filosófica subestimada. Nele, a liberdade apresenta-se sob a forma de destinos, horários e portões numerados. Escolhe-se uma cidade, apresenta-se um documento e atravessa-se uma porta. Nenhum funcionário pergunta se o passageiro resolveu seus conflitos interiores. A alfândega fiscaliza mercadorias; não dispõe de competência para inspecionar consciências.

Convém, entretanto, distinguir a metáfora do fato jurídico. Sair do país não equivale, por si só, a fugir da Justiça. A presunção de inocência não perde validade quando o personagem desperta antipatia.

Resta a questão filosófica: fugir pode ser uma decisão inteligente?

Sem dúvida, em certas circunstâncias. Mas Aristóteles advertiria que a habilidade para escolher meios não constitui necessariamente prudência. Kant acrescentaria que a eficácia de uma conduta não demonstra sua legitimidade moral.

Um homem pode encontrar a saída e perder o caminho.

Há, contudo, uma consequência política que ultrapassa o destino individual do viajante. Em editorial de 30 de outubro, o Estadão contrapôs a autoproclamação de Flávio Bolsonaro ao reconhecimento do resultado eleitoral por Tarcísio de Freitas, defendendo uma oposição de direita comprometida com as regras democráticas.

Talvez esteja aí uma oportunidade para a política brasileira: distinguir a direita, tradição legítima do pluralismo democrático, de práticas que subordinam a soberania popular às conveniências de uma família. A crítica não exige adesão à esquerda, tampouco absolve qualquer outro campo político de suas próprias contradições. Exige apenas reconhecer que eleições não são válidas somente quando confirmam nossos desejos.

Uma direita democrática, como qualquer oposição constitucional, não precisa renunciar às suas convicções para aceitar a derrota. Precisa apenas compreender que o adversário não se transforma em usurpador pelo fato de haver recebido mais votos.

Suzana Herculano-Houzel talvez tenha razão: a inteligência procura conservar abertas as portas do futuro. Mas há portas que somente se abrem quando se aprende a reconhecer as que as urnas legitimamente fecharam.

O aeroporto cumpriu sua função: transportou o passageiro. Quanto ao passado, não constava da lista de embarque; nem por isso deixou de acompanhá-lo.


Ensaio inspirado em “O cérebro do fugitivo”, de Suzana Herculano-Houzel (Folha de S.Paulo, 29/10/2026), com referência à reportagem “Advogados acionam PF por uso de brasão da República em carta de Flávio” (Migalhas, 29/10/2026) e ao editorial “Um golpista em Miami, um democrata em SP” (O Estado de S. Paulo, 30/10/2026).


 
 
 

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