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A NORMA NÃO ESTÁ NA LEI; A NORMA NÃO ESTÁ NO FATO: A NORMA ESTÁ NA OPERAÇÃO HERMENÊUTICA ENTRE LEI E FATO! A IA SABE DISSO?

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 29 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

Por Glênio S. Guedes (advogado)


I. A ilusão da norma pronta


Durante séculos, repetiu-se a ideia de que a norma jurídica estava contida no texto da lei, bastando ao intérprete “retirá-la” de suas palavras. Outros imaginaram que a norma estaria “nos fatos”, como se a realidade, ao tocar o direito, emitisse automaticamente seu significado. Mas nem a lei oferece sentido sem interpretação, nem o fato fala por si mesmo.

A norma jurídica — a verdadeira norma — não reside em nenhum desses polos isoladamente. Ela surge na operação hermenêutica que articula texto e realidade, no encontro entre linguagem normativa e situação concreta.

Esta percepção, que atravessa de Kelsen a Müller, de Perelman a Alexy, de Dworkin a Günther, é o núcleo da racionalidade jurídica contemporânea. E também é a chave para entender por que o direito não pode ser reduzido a um algoritmo, nem mesmo quando a inteligência artificial parece seduzir com promessas de automatização.


II. A norma não está na lei


A lei é texto. E textos são:


  • vagos,

  • abertos,

  • polissêmicos,

  • contextualmente moldáveis.


O sentido normativo não preexiste à interpretação; ele se forma no processo interpretativo. Enunciados legais são apenas matérias-primas linguísticas, que precisam ser transformadas em “normas de decisão” mediante concretização hermenêutica.

O texto não contém a norma; ele contém dados normativos, que precisam ser integrados ao caso. Entre texto e norma há sempre um processo ativo, argumentativo e construtivo — jamais automático.


III. A norma não está no fato


O fato também não fornece, por si, o conteúdo da norma. Ele precisa ser:


  • percebido,

  • selecionado,

  • recortado,

  • juridicamente qualificado.


A simples pergunta “O que aconteceu?” não basta. É preciso perguntar: “O que juridicamente aconteceu?” E isto depende da operação interpretativa que converte fatos brutos em fatos juridicamente relevantes.

O fato, isolado, não é capaz de acionar a norma; é a interpretação que cria o elo normativo. Daí a importância de distinguir entre “fatos naturais” e “fatos normativos”.


IV. A norma está na operação hermenêutica entre lei e fato


Entre a lei e o fato há uma ponte, e essa ponte é construída pelo intérprete. Não é obra de mera subjetividade, mas de racionalidade prática. É nessa operação que ocorre:


  1. a identificação do enunciado legal,

  2. a compreensão dos fatos do caso,

  3. a integração normativa que gera a norma de decisão.


A norma jurídica nasce, portanto, do processo e não do ponto de partida.

É exatamente essa operação que explica por que:


  • duas decisões podem divergir interpretando o mesmo texto,

  • casos aparentemente semelhantes admitem soluções distintas,

  • princípios podem superar regras,

  • regras podem ser derrotadas por razões mais fortes.


Aqui está o berço da derrotabilidade jurídica: a regra não é um comando absoluto; ela é um argumento que pode ceder quando, no caso concreto, razões constitucionais, morais ou pragmáticas exigem uma solução diversa.


V. A Constituição como moldura hermenêutica


Com o constitucionalismo contemporâneo, especialmente após 1988, toda interpretação jurídica é concretização constitucional. A Constituição:


  • irradia sentido para os demais ramos do direito,

  • prioriza princípios sobre silogismos,

  • exige proporcionalidade e ponderação,

  • reforça a normatividade do caso concreto.


O intérprete não é mero aplicador da lei. Ele é autor da norma de decisão, sempre perante o tribunal superior da Constituição.

Isso torna impossível retornar ao modelo exegético ou mecanicista: não há norma pronta esperando para ser “aplicada”; há enunciados que precisam ser compreendidos e ajustados ao caso concreto, em diálogo com a Constituição.


VI. A IA sabe disso?


A pergunta é instigante — e perigosa.

A inteligência artificial opera, estruturalmente, como uma máquina de padrões. Ela identifica regularidades, estatísticas, correlações linguísticas. Mas a hermenêutica jurídica não é um padrão estatístico, e sim um exercício de:


  • reconstrução argumentativa,

  • valoração constitucional,

  • leitura pragmática do caso,

  • ponderação de razões,

  • justificação racional sob condições de imparcialidade.


Um modelo de IA pode imitar decisões, mas não pode compreender:


  • a força normativa do caso concreto,

  • o peso dos princípios constitucionais,

  • a finalidade da norma,

  • a legitimidade democrática da interpretação,

  • a distinção entre argumentos aceitáveis e inaceitáveis.


Ele pode prever resultados, mas não pode justificá-los.

E no direito, como ensinava Perelman, justificar é tudo.


O que a IA sabe?


Ela sabe que textos se parecem. Ela sabe que decisões se repetem. Ela sabe que há padrões.


O que ela não sabe?


Ela não sabe por que um princípio deve prevalecer sobre outro. Ela não sabe como ponderar valores. Ela não sabe qual interpretação respeita melhor a Constituição. Ela não sabe o que significa justiça.

E enquanto não souber isso — e talvez nunca possa saber —, ela não conseguirá substituir a operação hermenêutica que cria a norma jurídica. A IA pode auxiliar, sistematizar, lembrar, comparar; mas não pode decidir.

Porque decidir, no direito, exige:


  • responsabilidade,

  • argumentação,

  • prudência,

  • compromisso democrático,

  • e consciência do caso concreto.


Nenhum algoritmo suporta esse peso.


VII. Conclusão


A norma jurídica não reside no texto, nem no fato: ela se realiza no ato interpretativo que integra ambos à luz da Constituição. É um produto hermenêutico, argumentativo, racional e contingente — e é por isso que pode ser derrotada, ponderada, reconstruída.

A inteligência artificial pode mapear esse processo, mas não pode habitá-lo. Pode observar o direito, mas não pode praticá-lo. Pode aprender padrões, mas não pode compreender razões.

Porque o direito vive no espaço em que a linguagem encontra o mundo — e onde o intérprete, responsável perante a Constituição e a comunidade política, constrói a norma que nenhum texto traz pronta.

Enquanto existir esse espaço, o direito continuará sendo humano.


 
 
 

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