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A Omertà dos Três Poderes

Foto do escritor: gleniosabbad
gleniosabbad
5 de set.
4 min de leitura

O ecossistema vorcárico, a captura do Estado pelas finanças e a anatomia da autodestruição corporativa


"Todo o arranjo da conciliação das elites dependia, porém, da proteção de cada um dos protagonistas da captura estatal pelo Sistema Vorcárico (...) Agora, uma peça fundamental desabou."

Demétrio Magnoli, Um pacto em ruínas (Folha de S.Paulo, 4 de setembro de 2026)  


"Ao contrário dos garotos de programa da vida real, que ao menos mantêm a decência profissional de combinar a tarifa sem fingir santidade, nossas excelências se vendem na calçada enquanto posam de guardiões da moral e da Constituição."


Mariliz Pereira Jorge, Vorcaro, o sugar daddy dos Três Poderes (Folha de S.Paulo, 4 de setembro de 2026)  


Por Glênio S Guedes (advogado)



Dizia certo conselheiro machadiano que a virtude é amiúde uma senhora austera e exigente, cujo trato cansa os espíritos mais refinados; a conveniência, ao revés, porta-se como dama complacente, afeita ao veludo das poltronas e às faturas discretamente liquidadas ao cabo do banquete. Se o leitor der uma volta pelos arredores da Praça dos Três Poderes em tardes de calmaria aparente, há de notar a gravidade com que os varões de Plutarco ostentam suas togas, becas e broches de lapela. Ali se fala na higidez da Carta da República, no zelo pelos desvalidos e na intocabilidade dos ritos. Contudo, se a Providência — sempre inclinada ao sarcasmo — consentir que um relâmpago de indiscrição ilumine as galerias interiores, o que se avista não é a severidade dos tribunos romanos, mas a opereta bufa de um condomínio patrimonialista erigido sobre o silêncio compartilhado.  


A recente implosão do arranjo institucional brasileiro, dissecada com bisturi cáustico por Mariliz Pereira Jorge e com frieza sociológica por Demétrio Magnoli nas páginas da Folha de S.Paulo, deu nome e método a essa mecânica de mútua condescendência: o ecossistema vorcárico.  


Até então, o vulgo supunha que as cúpulas republicanas se consumissem em um duelo titânico de princípios. À luz dos holofotes e das transmissões ao vivo, digladiavam-se patriotas e democratas, esgrimiam-se anátemas ideológicos e prometia-se a salvação da pátria contra o abismo do adversário. Pura cenografia de auditório. Sob os panos de cena, como observou Mariliz, o banqueiro Daniel Vorcaro exercia o benfazejo magistério do sugar daddy ecumênico da República, oferecendo afeto remunerado com admirável espírito distributivo, sem discriminar credos, matizes partidários ou convicções doutrinárias.  


No cardápio desse mecenato das finanças, cada carência encontrava consolo proporcional à liturgia do beneficiário: desde alfaiatarias nababescas em que varões austeros provavam cortes de tecidos caríssimos até viagens regadas a uísque de malte raro e hotéis de alto luxo na Europa, passando pelo patrocínio de obras de heróis de conveniência e diárias generosas para o conforto de filhos pródigos no exterior. Onde a legislação insistia na esterilidade do conflito de interesses, o ecossistema respondia com a fecundidade de honorários familiares vultosos, revistos no aconchego do gabinete e carimbados pela amizade íntima. Formou-se o milagre da conciliação das elites: o poliamor institucional - nas palavras talentosas de Mariliz -, em que extremos retóricos dividiam fraternalmente a generosidade do mesmo limite de crédito corporativo.  


Todavia, qualquer feudo fundado na conveniência só prospera se observar com devoção religiosa a mais antiga lei das sociedades subterrâneas: a omertà. A disciplina do silêncio não repousa sobre a afeição sincera — sentimento rarefeito nos salões do planalto —, mas sobre a certeza aritmética de que o primeiro a balbuciar condena o conjunto da confraria. Cada magistrado guardava a faca afiada contra os apetites orçamentários do Congresso; os parlamentares, por sua vez, empunhavam a lâmina enferrujada do impeachment sobre o tribunal, assegurando que nenhum dos lados ousasse cruzar a linha do escarcéu irremediável. Ao mesmo tempo, os órgãos persecutórios cumpriam seu papel protocolar com diligente letargia, velando o sono dos justos e o segredo dos negócios familiares com o espesso manto do sigilo judicial.  


A engrenagem do ecossistema parecia invulnerável justamente porque todos eram, a um só tempo, cúmplices e reféns. Ocorre que o diabo, como ensina a sabedoria das crônicas, não reside apenas nos detalhes, mas no instinto mesquinho da autopreservação individual.  


A ruptura do pacto, como bem descortinou Magnoli, sobreveio não por um surto súbito de virtude cívica, mas pelo pânico comezinho do cadafalso. Quando os vazamentos da Polícia Federal começaram a romper o cerco de fumaça, trazendo a lume a intimidade de contratos, hospedagens e mensagens comprometedoras, a solidariedade de gabinete tornou-se artigo sumamente oneroso. Diante do risco de ser engolido pelo turbilhão que já tragava Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, André Mendonça optou por violar a sacrossanta regra da casa: encaminhou à Procuradoria-Geral da República mensagens reveladoras das tratativas de Vorcaro, detonando a carga explosiva no alicerce de seus pares.  


Ao fazê-lo, Mendonça não restaurou a pureza da República; inaugurou a sua fase canibal. Quebrada a omertà, o "dilema do prisioneiro" se impõe com a frieza de uma sentença matemática. Quando a blindagem coletiva racha, a lealdade transforma-se em tolice suicida e a delação preventiva torna-se o único escudo viável. O cálice de cristal, uma vez estilhaçado no assoalho de mármore, recusa qualquer tentativa desesperada de restauração com cuspe e saliva institucional.  


A tragédia — ou farsa, se se preferir o vocabulário das comédias de costumes — é que a queda de uma peça ameaça arrastar consigo a cadeia inteira de indulgências recíprocas. A ruína da toga arrasta o líder do Centrão, contamina as aspirações de príncipes do Congresso e priva a extrema-direita de seu esconderijo processual confortável. Resta agora à sociedade contemplar os guardiões da moral e da Constituição desnudos de sua pompa, disputando o bote salva-vidas enquanto o mecenas do balcão assiste à derrocada do palácio que alugou por tão módicas quantias. Não há heroísmo no entulho desse pacto; há apenas o espetáculo melancólico de uma elite que, havendo vendido a alma a troco de viagens de luxo e alfaiatarias sob medida, esqueceu-se de que até a cumplicidade exige fidelidade para não virar poeira.  

 
 
 

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