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BRASIL + COLÔMBIA = O BRASILOMBIANO: ENSAIO SOBRE UMA IDENTIDADE HIPOTÉTICA

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 16 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

À guisa de exercício sociológico-linguístico e cultural


Por Glênio S Guedes ( advogado )


“Todos esses que aí estão

Atravancando meu caminho,

Eles passarão…

Eu passarinho!”Mário Quintana, Poeminho do Contra


“É sempre mais difícil ancorar um navio no espaço.”Ana Cristina César, Cenas de Abril

 

1. Considerações preliminares


Se por obra de imaginação sociopolítica e fabulação histórico-cultural se operasse uma fusão simbólica entre Brasil e Colômbia, resultando daí uma nova entidade humana, geográfica, espiritual e civilizatória — o brasilombiano — teríamos diante de nós não apenas um epifenômeno diplomático, mas uma síntese antropológica de largo fôlego, situada nas encruzilhadas da iberidade, da mestiçagem constitutiva, das melancolias tropicais e do gênio improvisador que marca ambas as nações.

Não se trataria de mero hibridismo territorial, mas de uma nova gramática de ser, forjada no cadinho das emoções latino-americanas, cuja tessitura se adensaria no encontro de duas psicologias coletivas aparentadas, ainda que dotadas de matizes particulares. O brasilombiano, assim concebido, não seria apenas o resultado da soma, mas o nascimento de um terceiro gênero: um ser barroco, cordial, festivo, sonhador, contraditório, humorado, resiliente, eivado de utopias e indulgências cíclicas; criatura das esperanças reiteradas e dos projetos interrompidos; simultaneamente lírico e pragmático, mas jamais indiferente à vida.


2. Bases formativas da identidade brasilombiana


Sendo brasileiro o país da cordialidade, da ginga, da conciliação e das soluções de ocasião, e sendo a Colômbia pátria da improvisação genial, do humor como válvula psíquica e da contradição como método, o brasilombiano herdaria:


  1. Da Colômbia – a imaginação improvisadora, a ironia terapêutica, o temperamento de entusiasmo súbito, o orgulho ferido, a hiperconsciência afetiva, o hábito de transitar sem escândalo entre a tragédia e a festa, e a ambiguidade como estilo de convivência.

  2. Do Brasil – a plasticidade afetiva, a diplomacia instintiva, a tolerância quase infinita, a musicalidade do comportamento cotidiano, a esperança como religião civil e a notável capacidade de reinventar-se nos interstícios da adversidade.


Dessa simbiose, emergiria um sujeito histórico dotado de sensibilidade elevada ao quadrado e de vocação para a convivência, ainda que perigosamente inclinado ao adiamento dos rigores do método.


3. Psicologia coletiva do brasilombiano


Do ponto de vista psicossociológico, o brasilombiano seria:


  • exuberante no sonho,

  • lúdico no discurso,

  • solidário no afeto,

  • carnavalesco no sofrimento,

  • intermitente na disciplina,

  • generoso na convivência,

  • e oscilante na responsabilidade histórica.


Movido por uma fenomenologia emocional abundante, tal sujeito tenderia a confundir esperança com projeto, improviso com método, empatia com compromisso, reproduzindo, em escala ampliada, a conhecida dialética latino-americana do quase, do amanhã, do vamos ver, do por enquanto, sempre embalado pelo canto do possível que não se resigna — mas que, por vezes, cede à sedução do caminho curto.


4. Linguagem, retórica e sentido da palavra


Linguística e retoricamente, o brasilombiano seria amante da palavra saborosa, do fraseado imagético, da metáfora farta, do apelo hiperbólico e do relato vivencial. Cultuaria a conversa como espaço de deliberação social e, não raro, empregaria o humor como modalidade de negociação, evitando conflitos abertos pela via da ironia ou da cordialidade anestésica.

Assim como o colombiano cultiva o dito espirituoso e o brasileiro aprecia a malícia discursiva cordial, o brasilombiano seria a perfeita fusão do que se chama de função estética e afetiva da linguagem, acima da função denotativa ou prescritiva.

A retórica, portanto, seria nele menos instrumento de prova que de convivência, mais ponte do que contrato, mais música do que cálculo.


5. Política, história e destino


O brasilombiano, enquanto cidadão, possuiria:


  • fé constante na mudança, ainda que não invariavelmente sustentada por engenho e perseverança operacional;

  • tolerância elevada para com o erro, a lentidão, e os improvisos administrativos;

  • preferência pela estética do discurso em detrimento da dureza dos mecanismos de controle;

  • alto potencial de convivência democrática, mas risco de desinteresse pelo rigor institucional.


Em síntese, sua política tenderia a ser conciliatória, emocional, estética e narrativa, e menos aritmética, fiscal, documentária e prospectiva.


6. Ética do prazer, estética da vida e metafísica do cotidiano


Num mundo cada vez mais tecnocrático, o brasilombiano portaria consigo o que poderíamos denominar patrimônio afetivo-civilizatório, baseado na crença de que a vida deve, antes de tudo, ser sentida, gozada, celebrada e narrada.

A festa, a música, a mesa, o abraço, o humor, a dança, o romance, o mar, o café, a praia, o vallenato, o samba, o carnaval, a arepa com feijão tropeiro, a guayabera com chinelo havaiano — tudo nisto constituiria linguagem, teologia e medicina da alma.

À falta de um projeto frio, sobraria calor humano.

À ausência de um cálculo exato, transbordaria afeto.

À lentidão das reformas, sobreviveria a esperança.

E, talvez por isso, o brasilombiano jamais seria derrotado na dimensão simbólica da existência.


7. Síntese conclusiva


Se, como ensinava Ortega y Gasset, o homem é ele e sua circunstância, o brasilombiano, produto poético-hipotético da fusão Brasil-Colômbia, seria um artista da sobrevivência afetiva, um improvisador genial da vida cotidiana, um metafísico do sorriso, um engenheiro do possível, e um habitante do reino onde o real e o imaginário se abraçam sem escândalo.

Mais do que uma nacionalidade, seria uma vocação estética de ser, em que a esperança seria a gramática secreta do espírito latino : nunca conjuga o verbo desistir...

 
 
 

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