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Circombia ou Circobrasil?

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 6 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

Minhas histórias preferidas do livro de Daniel Samper


Uma leitura que dispensa o divã: rir é o melhor diagnóstico.


Por Glênio S Guedes ( advogado )


Ler Circombia, de Daniel Samper Ospina, é um ato de saúde pública. O livro deveria ser prescrito em qualquer clínica de almas cansadas — substitui a psicanálise e faz o papel de remédio antidepressivo com bula literária. Cada página é uma sessão de terapia em grupo entre riso e melancolia, onde o paciente, depois de gargalhar, percebe que o doente é ele — ou melhor, o país inteiro.

Samper, cronista colombiano de humor fino e ironia compassiva, monta um picadeiro onde o poder e o povo trocam de máscaras sem cessar. E o espelho dessa Colômbia tragicômica reflete, com perfeição inquietante, a nossa própria paisagem. Por isso, não é exagero dizer: Circombia poderia chamar-se também Circobrasil — e ninguém notaria a diferença.


I. O Twitter de Petro, ou o governo por trinos


Em uma das crônicas mais saborosas, Samper imagina que alguém — talvez a secretária Laura Sarabia — tenha a coragem de confiscar o celular do presidente Gustavo Petro, impedindo-o de tuitar. A cena é digna de Machado de Assis, se este houvesse vivido na era digital: um presidente movido pelo “humanitismo eletrônico”, crente de que pode governar pela tecla “enviar”.

Petro, entre uma metáfora e outra, oscila entre a revolução e a notificação. Machado talvez dissesse que é o novo Quincas Borba, só que em versão de aplicativo: o homem que acredita poder salvar a humanidade a cada “trino”.

E nós, brasileiros, estamos isentos? Tivemos também nossos governantes virtuais — uns governando por lives, outros por threads, e todos com a mesma crença de que o Estado cabe num feed. A diferença é apenas de algoritmo.


II. Quando Bogotá tenha metro — ou o trem que nunca chega


Outra pérola é “Cuando Bogotá tenga metro”. O narrador, pai dedicado, acorda as filhas às seis da manhã para levá-las ao evento mais aguardado da história colombiana: a inauguração do metrô. Mas o trem, após meio século de promessas, move-se por quarenta e sete segundos — e volta ao repouso, triunfante como um fantasma mecânico.

Machado, com seu ceticismo de domingo, talvez comentasse: “o metrô é o novo Brás Cubas — nasceu para morrer de ideia”. E nós, que também temos nossos trens prometidos, nossas obras eternamente “em fase final”, compreendemos o espírito da piada: aqui e lá, o progresso é um ensaio geral sem estreia.

Bogotá sonha com o metrô; Brasília sonha com o país. E ambos dormem profundamente logo em seguida.


III. Se Petro fosse médico — ou a clínica do populismo


Nesta sátira irresistível, o presidente Petro abandona o cargo e transforma-se em médico de família. De casa em casa, estetoscópio ao peito e revolução na ponta da língua, diagnostica a alma da Colômbia. Mede pressões, prescreve cannabis terapêutica, oferece curas sociais.

Samper, com sua ironia cirúrgica, mostra o populismo como uma doença autoimune: o governante que promete curar o corpo do povo é, na verdade, o sintoma mais grave da enfermidade.

No Brasil, já tivemos médicos semelhantes. Uns receitavam fé, outros cloroquina, todos convictos de que a pátria cabia num receituário. Machado, espectador invisível, anotaria no rodapé: “Os remédios morais, em geral, agravam o paciente.”


IV. Se Jesus chegasse à Colômbia — ou a segunda vinda pelo Terminal Rodoviário


A crônica mais genial do livro, “Si Jesús llega a Colombia”, começa com um erro celestial: Jesus, no retorno à Terra, desce em Bogotá. Logo é confundido com candidato, ativista e até colunista de opinião. É entrevistado por jornalistas, denunciado por curar sem diploma, e processado por pregar sem autorização municipal.

A paródia teológica de Samper não é apenas hilariante — é uma radiografia do absurdo latino. E se Jesus, em vez de Bogotá, pousasse no Brasil? Seria autuado pela Receita Federal por multiplicar pães sem nota fiscal, acusado de aglomeração por pregar em praça pública e intimado pelo Senado para explicar o milagre da multiplicação dos peixes.

No final, talvez se salvasse — não por um ato divino, mas porque o processo prescreveria.

Machado, com seu humor de cemitério e lucidez eterna, observaria a cena do alto e escreveria em silêncio:

“O Filho do Homem voltou, mas esqueceu que o novo Calvário é burocrático.”

Epílogo: a catarse do riso


Confesso: admiro profundamente Daniel Samper Ospina. Poucos autores conseguem, como ele, unir o sarcasmo de Swift, a doçura triste de García Márquez e o olhar clínico de Machado. Ler Circombia é experimentar uma catarse — rir do caos, mas também dele se libertar.

Samper faz com as palavras o que o terapeuta faz com o silêncio: devolve-nos à consciência. E ao fim da leitura, o leitor percebe — entre uma gargalhada e outra — que o circo é universal, e que o riso, às vezes, é a única forma digna de oração.

Leiam Circombia. É um exorcismo da política e uma comédia da alma. E o melhor: não precisa marcar horário nem pagar coparticipação.


Referência: SAMPER OSPINA, Daniel. Circombia: La historia de un país lleno de bufones, contorsionistas y otros especímenes humanos. Bogotá: Aguilar, 2023.


 
 
 

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