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Do auditório universal às falsas simetrias: uma análise perelmaniana do discurso de Lula na ONU

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 24 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

Por Glênio S Guedes ( advogado )


Resumo


O presente artigo analisa o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Assembleia-Geral da ONU de 2025 à luz da teoria da argumentação de Chaïm Perelman e Lucie Olbrechts-Tyteca, especialmente no que concerne à noção de “auditório universal” e às técnicas de adaptação discursiva. Examina-se, ainda, a ocorrência de falácias recorrentes no pronunciamento, notadamente a falsa simetria e a manipulação das definições, conforme a lógica informal. Conclui-se que, ao privilegiar um auditório particular ideologicamente afim, o orador perdeu a oportunidade de projetar o Brasil como mediador confiável e equânime no cenário internacional.


Palavras-chave: Retórica; Perelman; falácias; Lula; ONU; auditório universal.


1. Introdução


O discurso proferido por Lula na abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas, em 23 de setembro de 2025, foi recebido com reações ambivalentes. De um lado, apresentou-se como firme defensor da soberania nacional e crítico das sanções unilaterais impostas pelos Estados Unidos. De outro, foi indulgente em relação a regimes autoritários e atores violentos como Rússia e Hamas, incorrendo em contradições internas.

Essa ambivalência pode ser compreendida à luz da teoria da argumentação de Chaïm Perelman e Lucie Olbrechts-Tyteca (Tratado da Argumentação – A Nova Retórica), que enfatiza a necessidade de o orador adaptar-se não apenas a auditórios particulares, mas também ao auditório universal – isto é, à comunidade ideal de interlocutores racionais.


2. O auditório em Perelman: universal versus particular


Segundo Perelman, “o auditório é uma construção do orador” e cada discurso se orienta para um público real ou imaginado (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 1996, p. 22). O auditório universal, categoria central de sua teoria, é aquele que simboliza a racionalidade compartilhada, a instância diante da qual todo argumento deve poder justificar-se.

Lula, ao enfatizar a soberania contra ingerências externas, pareceu dirigir-se a esse auditório universal, evocando valores que transcendem ideologias: a igualdade entre os Estados e a recusa ao arbítrio nas relações internacionais. Contudo, ao relativizar crimes da Rússia e minimizar o terrorismo do Hamas, optou por satisfazer um auditório particular – simpatizantes ideológicos de uma narrativa antiocidental –, sacrificando a universalidade do apelo.


3. Estratégias retóricas do discurso


A retórica do presidente recorreu, sobretudo, ao gênero epidíctico, típico de celebrações e condenações. Como observa Perelman, trata-se de um gênero em que “o orador busca intensificar a adesão a certos valores, exaltando-os ou vilipendiando os seus contrários” (1996, p. 53).


  • Valores evocados: soberania, combate à fome, igualdade entre povos.

  • Hierarquias estabelecidas: primazia dos países pobres sobre as potências ocidentais.

  • Presença seletiva: ênfase nos efeitos nocivos das sanções dos EUA, mas obscurecimento dos crimes de guerra russos e do terrorismo do Hamas.


Esse desequilíbrio na seleção dos dados confirma o que Perelman denominou “presença”: dar relevo a determinados aspectos em detrimento de outros, o que molda a percepção do auditório.


4. As falácias no discurso


A análise com base na lógica informal permite identificar ao menos três falácias recorrentes.


4.1. Falsa simetria


Ao tratar a guerra da Ucrânia sem designar a Rússia como agressora, o presidente sugeriu equivalência entre as partes. Tal recurso constitui a falácia da falsa simetria: “tratar situações desiguais como se fossem idênticas”, relativizando o fato de que houve invasão a um Estado soberano.


4.2. Manipulação das definições


Na referência a Gaza, ao qualificar as ações de Israel como “genocídio”, mas relegar o Hamas a mero detalhe, houve manipulação semântica. Como lembra García Damborenea, “quem controla as definições governa o debate” (2000, p. 24). Definir o ato como genocídio desloca a percepção moral, mas evitar qualificar o terrorismo do Hamas distorce a balança do juízo.


4.3. Generalização precipitada


As menções à fome, à desigualdade e ao clima foram apresentadas em forma de slogans, como se a simples evocação desses problemas bastasse para legitimá-lo como “porta-voz dos pobres”. Trata-se de generalização precipitada: afirmar conclusões amplas a partir de premissas insuficientes.


5. Credibilidade e ethos


O ethos, componente essencial da persuasão, foi abalado pela inconsistência. Perelman lembra que a força do discurso depende não apenas dos argumentos, mas da credibilidade do orador. Ao oscilar entre estadista e militante, Lula comprometeu sua imagem de mediador imparcial.

Assim, o Brasil não emergiu como ator confiável para negociações internacionais. Antes, perdeu a oportunidade de afirmar-se como voz equânime, capaz de construir consensos.


6. Conclusão


À luz da Nova Retórica de Perelman, o discurso de Lula na ONU ilustra um paradoxo: ao mesmo tempo em que evocou valores universais, restringiu-se a um auditório particular. As falácias de falsa simetria, manipulação das definições e generalização precipitada enfraqueceram o alcance persuasivo de sua fala.

A consequência é clara: em vez de se projetar como mediador confiável e equânime, o Brasil desperdiçou a chance de desempenhar papel central em um cenário internacional que clama por vozes de equilíbrio.


Referências


  • PERELMAN, Chaïm; OLBRECHTS-TYTECA, Lucie. Tratado da Argumentação: a nova retórica. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

  • GARCÍA DAMBORANEA, Ricardo. Uso de razón: el arte de razonar, persuadir, refutar. Madrid: [s.n.], 2000

 
 
 

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