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Do Tokaj húngaro e outros vinhos: “bebidas feitas para envelhecer em um mundo sem paciência”

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 26 de jan.
  • 4 min de leitura

O vinho foi feito para um mundo que sabia esperar...


Artigo em homenagem às pessoas que ainda conseguem tempo para conversar...


Por Glênio S Guedes ( advogado )


Há vinhos que não têm pressa. Não por preguiça — vício hoje intolerável —, mas por coerência interna. O Tokaj húngaro é um deles. Não se oferece ao primeiro gole apressado, não se explica em frases curtas, não se deixa reduzir a uma impressão imediata. Exige tempo. E, como toda coisa que exige tempo, tornou-se um problema.

O mundo contemporâneo, que janta sozinho, come diante de telas e bebe por função, observa o Tokaj com a curiosidade respeitosa que se reserva aos objetos fora de uso. Reconhece-se sua importância histórica, sua sofisticação técnica, seu prestígio simbólico — mas tudo isso com a tranquilidade de quem não pretende incorporá-lo à própria vida. Afinal, para que um vinho doce, complexo, feito para esperar e envelhecer, em uma época que aboliu tanto o açúcar quanto a paciência — e, sempre que possível, o próprio encerramento das refeições?

O Tokaj foi concebido para durar. Seu açúcar residual não é concessão ao gosto fácil, mas técnica de preservação; sua oxidação controlada não é falha, mas assinatura; sua lentidão não é afetação, mas condição de existência. Ele não foi feito para acompanhar distrações, mas para interrompê-las. Eis sua inconveniência maior: interromper tornou-se gesto ofensivo.

O mundo, entretanto, mudou de relógio.

Hoje, o tempo longo é visto como desperdício, a espera como falha de planejamento e a paciência como traço de personalidade excêntrica. O vinho — durante séculos companheiro natural da mesa, da conversa e da sucessão dos pratos — passou a destoar de um cotidiano reorganizado em torno de embalagens, notificações e intervalos mínimos. Come-se sem mesa, bebe-se sem ritual, vive-se sem sobremesa. O Tokaj permaneceu fiel à lógica que o criou. O mundo é que saiu correndo.

Ele não está só. Seus irmãos de lentidão enfrentam destino semelhante. O Sauternes, símbolo histórico de abundância e encerramento solene da refeição, tornou-se anacrônico em uma economia que já não tolera o excesso nem o tempo. O Barolo tradicional, que só se revela após anos de silêncio em garrafa, passou a ser rotulado como “difícil” — adjetivo moderno para tudo o que não se submete à gratificação imediata. O Madeira, quase imortal, parece excessivo em um mundo que mal tolera permanência. O Jerez, com sua lógica própria de oxidação e memória, virou curiosidade de carta, quando não simples nota de rodapé.

Não se trata de decadência técnica — nunca se produziu vinho com tamanha precisão —, mas de deslocamento cultural. Esses vinhos foram pensados para um ecossistema que incluía mesa, partilha, conversa, silêncio ocasional e companhia. Retire-se esse ambiente e resta o líquido: correto, complexo, irrepreensível — porém órfão.

É nesse ponto que emerge a questão do álcool, geralmente tratada com zelo excessivo e reflexão insuficiente. O vinho passou a ser julgado não como alimento cultural, mas como mero portador de álcool. O atributo engoliu o sentido. Onde havia rito, instalou-se suspeita; onde havia moderação aprendida, impôs-se vigilância. Confundiu-se o excesso com o uso simbólico, o abuso com a convivência. Tentou-se extirpar o mal-estar humano com copos d’água.

A ironia é delicada e persistente: nunca se bebeu tão pouco álcool e nunca se viveu com tamanha ansiedade. O vinho, que durante séculos funcionou como moderador social, foi arrastado para o banco dos réus junto com tudo aquilo que o mundo já não sabe mais regular. Não se bebe vinho como se bebe álcool; mas o mundo passou a julgar ambos como se fossem a mesma coisa.

O setor reagiu como pôde. Transformou o vinho em ativo financeiro, em símbolo de luxo, em objeto de investimento. Criou narrativas, rótulos eloquentes, estratégias de escassez. Mas escassez não substitui sentido. Um vinho pode ser raro e ainda assim dispensável. O problema não era de mercado; era de tempo.

Certos vinhos não cabem no mundo snackizado. Não se adaptam a copos mínimos, a goles distraídos, a refeições inexistentes. Pedem mais do que segundos de atenção — exigência hoje considerada quase indecorosa. Falam em períodos longos quando o mundo só aceita títulos. São vinhos que se recusam a ser consumidos como conteúdo.

Talvez seja preciso aceitar que vivemos o crepúsculo de uma era. Não o fim do vinho, mas o fim de sua centralidade cotidiana. O Tokaj não desaparecerá; sobreviverá como sobrevivem as coisas que não se dobram: em nichos, em mesas raras, em escolhas conscientes. Deixará de ser hábito para tornar-se gesto. Deixará de acompanhar a refeição para justificar o encontro.

No fundo, o conflito não é entre o vinho e o consumidor, mas entre duas concepções de tempo. O mundo quer velocidade; o vinho oferece duração. O mundo pede funcionalidade; o vinho entrega experiência. O mundo aceita o imediato; o vinho insiste no amadurecido. Como em Machado, não há vilões absolutos — apenas desencontros educados e uma ironia tranquila: o vinho foi feito para um mundo que sabia esperar. O mundo, como se vê, desaprendeu.

O Tokaj continuará ali, paciente, como sempre esteve. O mundo, como de costume, passará. 🍷

 
 
 

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