Entrelaçamento quântico: Abu Dhabi, Louvre, realidade virtual e o Direito
- gleniosabbad
- 27 de set. de 2025
- 3 min de leitura
Por Glênio S Guedes ( advogado )
Subtítulo
Do fórum de Augusto à Casa da Sabedoria de Bagdá, passando pelo Jal Mahal em chamas: o Quantum Dome revela que Direito, sociedade, língua e mundo estão entrelaçados por fios invisíveis, mas inquebrantáveis.
O domo como experiência
O Quantum Dome Project é uma instalação de realidade virtual situada no andar inferior do museu do Louvre Abu Dhabi. É uma experiência complementar à visita, oferecida ao final do percurso, que utiliza tecnologia de rastreamento corporal sem fio para permitir ao visitante imergir em mundos digitais sem necessidade de controles manuais.
Essa exposição se compõe — podendo variar ao longo do tempo — de três cenários virtuais inspirados em peças reais da coleção permanente do museu:
Roma de Augusto, evocada a partir do retrato do imperador em mármore;
Bagdá medieval, centrada no manuscrito árabe do De Materia Medica e na Casa da Sabedoria;
Índia Mughal, ambientada no Jal Mahal, palácio sobre as águas, em diálogo com a armadura dos Quatro Espelhos.
Cada imersão é introduzida pela figura de uma cientista, personagem-guia que “escaneia” o objeto e, por meio da metáfora da física quântica, libera suas memórias ocultas.
E aqui é inevitável, diante de minha formação jurídica, fazer a analogia com a teoria do Direito Quântico de Goffredo Telles Júnior. Afinal, entendo que somos, no fundo, seres de analogia, metáforas e alegorias. O sapiens é, em essência, uma figura de linguagem: constrói-se e se reconhece por meio de narrativas. Se a física quântica oferece a imagem do entrelaçamento invisível das partículas, o Direito — e toda forma de vida em sociedade — é tecido por esse mesmo fio narrativo, simbólico e inquebrantável.
Roma de Augusto: a encenação da lei
Ao escanear a estátua de Augusto, o visitante é transportado ao fórum romano. Ali, compreende que o Direito é mais que norma escrita: é rito, encenação política, presença pública. Roma revela que a lei vive de sua teatralidade e de sua inscrição em espaços de poder.
Bagdá e a Casa da Sabedoria: a tradução da lei
No segundo cenário, a biblioteca de Bagdá do século XIII mostra o Direito como memória escrita e tradução constante. A lei, como os manuscritos da Casa da Sabedoria, só sobrevive porque é transmitida, traduzida, adaptada. Essa cena encarna a teoria do diálogo das fontes, segundo a qual normas diversas não se excluem, mas se complementam em harmonia.
.
Índia Mughal: a catástrofe da desconexão
No terceiro cenário, a beleza do Jal Mahal dá lugar a flechas incendiárias e fogo. A armadura dos Quatro Espelhos brilha, mas não impede o colapso. A cena encena o risco do Direito desconectado de sua finalidade: quando poder e justiça se rompem, nasce a desordem. Como lembrava Goffredo, a desordem não é ausência, mas uma ordem que se volta contra outra.
.
O direito quântico: de Goffredo ao presente
A obra Direito Quântico de Goffredo Telles Júnior mostra que as normas jurídicas refletem uma ordem invisível, análoga à inscrita no DNA humano. O Direito, como a vida, é tecido por forças sutis e entrelaçadas.
Essa intuição encontrou continuidade na doutrina contemporânea: Ricardo Sayeg e Wagner Balera falam de um Direito Quântico que se consubstancia no diálogo das fontes, superando conflitos normativos em favor da coordenação. Na tributação, esse olhar mostra que o tributo é inevitável como fato social, mas sua legitimidade depende do entrelaçamento entre Estado e cidadão — se desconectado da dignidade, transforma-se em opressão.
Conclusão: o fio invisível
O Quantum Dome nos recorda que somos — como sustento — seres de analogia, metáfora e alegoria. O sapiens é, no fundo, figura de linguagem, e seu Direito não escapa a essa condição. Roma, Bagdá e a Índia não são capítulos isolados: são partículas de uma mesma rede, entrelaçadas por fios invisíveis.
A lição final é clara: quando reconhecemos o entrelaçamento, há ordem, justiça e futuro; quando o rompemos, resta apenas o incêndio.
Bibliografia
BALERA, Wagner; SAYEG, Ricardo; CANTARINI, Paola. Consubstancialidade da teoria do direito quântico à luz da teoria do diálogo das fontes. Revista de Direito do Consumidor, vol. 128, p. 307-329, mar./abr. 2020
LIMA MARQUES, Cláudia. Diálogo das fontes no Código de Defesa do Consumidor e no Código Civil. São Paulo: RT, 2002.
TELLES JÚNIOR, Goffredo. Ordem e Desordem. São Paulo: José Olympio, 1991
TELLES JÚNIOR, Goffredo. Direito Quântico. São Paulo: Juarez de Oliveira, 2003
THE NATIONAL. Time travel through Baghdad, Rome and Mughal India as Louvre Abu Dhabi launches VR experience. Disponível em: https://www.thenationalnews.com/arts-culture/2025/07/04/time-travel-through-baghdad-rome-and-mughal-india-as-louvre-abu-dhabi-launches-vr-experience/. Acesso em: 27 set. 2025.
MEDIA OFFICE ABU DHABI. Louvre Abu Dhabi launches Quantum Dome Project. Disponível em: https://www.mediaoffice.abudhabi/en/arts-culture/louvre-abu-dhabi-launches-quantum-dome-project-amplifying-visitor-experience-through-virtual-reality-technology/. Acesso em: 27 set. 2025.


Comentários