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A IA nos abovinará, ou ainda há escrita humana? Mugidos, algoritmos e o risco da extinção do humano

  • Glênio S. Guedes
  • 25 de ago. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 2 de set. de 2025

A Inteligência Artificial como ecossistema onipresente


A Inteligência Artificial (IA) já não é tema exclusivo de pesquisadores, nerds ou ficcionistas. Ela está, com discrição e eficiência, entranhada em cada dobradiça da experiência cotidiana: recomenda filmes, filtra nossos e-mails, acelera diagnósticos médicos, automatiza decisões judiciais, cria imagens e redações, ensina línguas, orienta deslocamentos urbanos e, sem que percebamos, começa a decidir sobre o que lemos, vemos e até como pensamos.


A professora Lucia Santaella lembra: discutir se a IA é ou não inteligente virou, paradoxalmente, um debate quase irrelevante – pois ela já é agente onipresente. Não importa tanto se as máquinas “pensam” como nós, e sim que elas atuam, de fato, no mundo, atravessando esferas antes reservadas à ordem da sensibilidade e da criatividade humana.


Foi ao assistir, na Casa do Saber, palestras do professor Marcos Bruzzo, autor do livro O universo dos sonhos técnicos (2025), que a inquietação tomou forma. Bruzzo falava em “reservas naturais de ser humano” — e a partir daí passei a pensar em reservas de ser-humanidade, espaços a serem preservados para que não sucumbamos ao mugido uniforme dos algoritmos.


O risco do abovinamento


Diante disso, inquieta-nos uma pergunta estranha: corremos o risco de sermos abovinados? Sim, “abovinar” – nos tornarmos, diante da IA, seres mugidores, repetitivos, passivos, enquanto delegamos o logos ao algoritmo invisível e deixamos de ser protagonistas do nosso próprio destino simbólico.


O surpreendente é que, justamente quando sentimos o risco de perder para a IA nossa centralidade, pesquisas como as da sociolinguista Leonie Cornips revelam o quanto vacas, baleias, abelhas e corvos detêm formas sofisticadas de comunicação – dialetos, rituais, gestos, ritmos corporais.


E aqui a ironia é insuportável: enquanto a inteligência artificial nos abovina, linguistas descobrem que vacas, baleias e até corvos têm linguagem. Que paradoxo: no mesmo instante em que a ciência revela a língua dos animais, nós vamos perdendo a nossa, transformada em eco de algoritmos.


As vacas, por exemplo, nos ensinam sobre atenção, respeito, aproximação gradual, percepções sensoriais e expressão multimodal. Não estão em busca da razão abstrata, mas dominam práticas linguísticas complexas, muitas vezes ignoradas pelo nosso preconceito logocêntrico.


Santaella faria aqui uma provocação: por séculos, definimos a inteligência a partir de critérios que excluem o diferente. Ao definir a “inteligência” como algo exclusivamente racional, autônomo, abstrato, recusamos às vacas (e a outros animais, e agora às máquinas) o direito ao pensamento – mas isso mais revela nossa ânsia de controle do que qualquer essência superior.


Sonhos humanos e sonhos técnicos


É nesse ponto que as reflexões de Bruzzo tornam-se fundamentais. Em O universo dos sonhos técnicos (2025), ele mostra que a humanidade sempre sonhou por imagens — das cavernas de Lascaux às telas digitais. O que muda agora é que essas imagens não são apenas humanas: surgem os “sonhos técnicos”, produtos de inteligências artificiais que criam narrativas, mundos e símbolos próprios.


O paradoxo é que, ao mesmo tempo em que a IA ameaça abovinar nossa imaginação, ela também expande os horizontes do que significa imaginar. Mas a diferença está em que os sonhos técnicos tendem a recombinar padrões, enquanto os sonhos humanos carregam hesitação, falha, errância — aquilo que Bruzzo identifica como zonas ainda irredutíveis à máquina.


A reserva de ser-humanidade


Se a IA já domina o texto utilitário – relatar, descrever, resumir, argumentar – o que sobra como reserva de humanidade? É aqui que a ideia das reservas de ser-humanidade ganha densidade.


Para Santaella, há uma “imaginação cega” no humano — potência de errância e descoberta que resiste ao cálculo. Bruzzo, por sua vez, sugere que não devemos simplesmente resistir às máquinas, mas criar reservas naturais do humano, ambientes em que hesitar, metaforizar, inventar e sentir não sejam considerados ruído, mas essência. Essas reservas não significam negar a técnica, mas impedir que ela nos reduza à repetição bovina. São espaços de lentidão, dúvida e criação, indispensáveis para que não confundamos os sonhos técnicos com a totalidade dos nossos próprios sonhos.


Contra o mugido uniforme


Santaella alerta que a IA já não é só máquina, mas ecossistema: sua presença é vasta, múltipla, heterogênea, indo do simples spam à mineração de conceitos, da automação industrial às decisões judiciais. Já não importa discutir se ela pensa, sente ou age “como humano”; importa perceber que ela age – e, com isso, desloca fronteiras, satura ambientes e agencia vidas.


Se não cultivarmos reservas simbólicas de ser-humanidade, perderemos o comando da criação dos futuros possíveis e nos resignaremos ao mugido. Antes de sucumbir ao mugido ordenador dos algoritmos, talvez seja tempo de, como Bruzzo, observar, duvidar e inventar novos modos de ser.


Pois, se nos abovinarmos, a culpa já não será da máquina – mas da nossa renúncia em construir o devir.

Referências bibliográficas


• Bruzzo, Marcos. O universo dos sonhos técnicos: como as inteligências artificiais redefinirão nossa imaginação. São Paulo: Blucher, 2025.

• Santaella, Lucia. A inteligência artificial é inteligente? São Paulo: Paulus, 2023.

• Preston, Christopher J.; Hamann, Valéria (Ed.). “¿Las vacas tienen una lengua propia?” MSN, 8 de marzo de 2025. Disponível em: https://www.msn.com/es- mx/noticias/otras/vacas-tienen-una-lengua-propia/ar-BB1iA9hs (acesso em ago. 2025).

 
 
 

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