Gramática Trump, ONU cadáver, Direito Zumbi... viramos amebas?
- gleniosabbad
- 25 de set. de 2025
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Entre a pós-verdade e o colapso planetário, uma reflexão sobre linguagem, política e direito internacional
Por Glênio S Guedes ( advogado )
Resumo
Este artigo parte da concepção de gramática proposta por Delphine Denis e Anne Sancier-Château em Grammaire du français — como elo invisível entre palavras, pensamento e mundo — para examinar a crise contemporânea do discurso político e de suas instituições mediadoras. Analisa-se o discurso recente de Donald Trump na ONU, marcado por mentira deslavada e distanciamento da realidade.
As reflexões sobre a Gramática Trump são aprofundadas com o diagnóstico dos juristas americanos, que veem nos seus atos um projeto de erosão constitucional e autoritarismo. A ineficácia da ONU e do Direito Internacional Público é reforçada pela necessidade premente de uma refundação dos organismos internacionais, proposta pelo constitucionalista Luca Mezzetti. O texto sugere que, sem restaurar os elos entre linguagem e realidade, o risco é regredir a um estágio amebiano de comunicação e política.
Palavras-chave: gramática; pós-verdade; Donald Trump; ONU; Direito Internacional Público; refundação; constitucionalismo.
1. A gramática como premissa de raciocínio
Conforme demonstram Delphine Denis e Anne Sancier-Château em sua Grammaire du français (2002), a gramática deve ser entendida não como simples compêndio normativo, mas como mediação fundamental entre palavra, pensamento e mundo. Essa chave interpretativa nos serve aqui como premissa de raciocínio: sem gramática, não há elo entre linguagem e realidade; sem elo, não há política, direito ou civilização que resistam.
2. A “gramática Trump”: um divórcio com a realidade
O discurso de Donald Trump na Assembleia-Geral da ONU foi marcado pelo uso sistemático da mentira e da egolatria. Não se trata de mero exagero retórico, mas de uma linguagem desconectada do real, em que o pacto mínimo com a verdade factual foi rompido.
Desde sua eleição em 2016, a política trumpista radicalizou a chamada era da pós-verdade, onde a mentira deixou de ser um risco para tornar-se capital político. A “gramática Trump” é, assim, uma antigramática: não cria vínculos, mas dissolve-os; não articula mundo e pensamento, mas fabrica simulacros.
O projeto de erosão constitucional
Essa desconexão com a realidade se manifesta em um plano mais profundo, o da legalidade. Segundo a análise de juristas americanos de variados espectros ideológicos — entre eles Erwin Chemerinsky, Adrian Vermeule e Michael McConnell —, as ações de Trump não constituem meros exemplos isolados de conduta inconstitucional, mas um padrão consolidado de desrespeito às liberdades civis, à separação de poderes e aos constrangimentos legais — marca típica de um regime autoritário.
A crítica se aprofunda no diagnóstico de que há um projeto político ambicioso: a tentativa de reconfigurar o regime constitucional norte-americano a partir de uma lógica de concentração de poder no Executivo, com desprezo pelas normas jurídicas e pelas instituições de controle. Juristas alertaram que essa postura poderia resultar em algo próximo a uma “monarquia eletiva” ou a um “Estado quase autoritário”.
A Gramática Trump, portanto, vai além da mentira, sendo uma ameaça concreta aos pilares da democracia. Isso inclui a tentativa de suprimir o direito à cidadania por nascimento, a erosão das garantias processuais do due process of law, e a agressão institucional a escritórios de advocacia e universidades. Essa “antigramática” é vista como uma ameaça existencial para o constitucionalismo norte-americano, cuja eficácia depende da boa-fé e do respeito às normas pelos atores políticos.
3. A ONU cadáver: a instituição que não reage
Mais perturbador ainda foi o silêncio da ONU. A entidade assistiu calada ao maior torpedo lançado contra a ordem multilateral desde 1945. Ao não reagir, a ONU revelou sua condição de corpo institucional sem vitalidade. Mantém rituais, discursos, resoluções, mas já não exerce autoridade moral nem eficácia diplomática. Torna-se um cadáver institucional, testemunha de seu próprio esvaziamento.
Essa inação é a própria demonstração de que países deixaram de acreditar nos fóruns multilaterais.
4. O Direito Internacional Público: um zumbi em cena e a urgência da refundação
Se a gramática Trump representa a ruptura com a realidade e a ONU configura um cadáver institucional, o Direito Internacional Público emerge como um zumbi jurídico. Vive formalmente, mas perdeu eficácia normativa.
A força vinculante das resoluções se diluiu; a retórica multilateral tornou-se mera liturgia, repetida sem crença, incapaz de ordenar comportamentos. A ideia de um direito internacional como escudo contra a barbárie foi esmagada pelo enterro do multilateralismo.
O apelo à refundação
O professor de Direito Constitucional Luca Mezzetti, da Universidade de Bolonha, corrobora essa constatação, afirmando que a existência do Direito Internacional e de organismos como a ONU e a OMC tem se mostrado incapaz de deter medidas agressivas tomadas pelos Estados nos últimos anos.
A fraqueza dos órgãos internacionais e a falta de confiança dos países nesses fóruns são dois fenômenos que se retroalimentam: quanto menos acreditam nos organismos, mais os Estados apostam em soluções unilaterais. Isso se evidencia na invasão da Ucrânia pela Rússia, que violou todas as normas do Direito Internacional, e na incapacidade da ONU de exercer um papel efetivo.
Diante disso, Mezzetti defende a necessidade de refundar ou remodelar os organismos internacionais, seus procedimentos de negociação e de tomadas de decisão. A tendência recente nos Estados modernos é considerar o Direito Internacional como um instrumento frouxo, incapaz de responder às demandas, o que representa uma das fraturas mais evidentes no mundo atual. É preciso refundar os organismos internacionais para que eles voltem a ter efetividade.
5. O pano de fundo: limites planetários e a urgência do real
Enquanto a política desconstrói os elos entre palavra e realidade, a ciência insiste em lembrá-los. O último relatório sobre os limites planetários revelou que sete dos nove sistemas de suporte à vida já foram ultrapassados, incluindo, pela primeira vez, a acidificação dos oceanos.
A contradição é brutal: enquanto líderes constroem universos paralelos de palavras vazias, o planeta dá sinais de colapso. O fracasso não é apenas político ou diplomático: é o rompimento do pacto entre discurso e realidade, sem o qual não há sobrevivência possível.
Conclusão: entre palavras e amebas
A gramática, como recordam Denis e Sancier-Château, é o espaço em que palavras, pensamento e mundo se encontram. Quando líderes a dissolvem, com um projeto de erosão constitucional e desrespeito à legalidade (Gramática Trump), quando instituições se calam (ONU cadáver), e quando o Direito se esvazia (Direito zumbi), sobra apenas um vazio mórbido.
A reflexão enriquecida aponta que a saída para o colapso do multilateralismo e do Direito Internacional é a refundação dessas estruturas, buscando dotá-las de poder e ferramentas para lidar com a crise. A metáfora final é inevitável: se não restaurarmos os elos invisíveis da linguagem com a realidade, tanto no plano constitucional interno quanto no internacional, e se não houver a refundação das estruturas de governança, deixaremos de ser sujeitos políticos para nos converter em amebas comunicativas — reagindo por instinto, sem razão, sem elo, sem humanidade.
Referências
CONSULTOR JURÍDICO. O que dizem os juristas dos EUA sobre os atos de Trump? Coluna de Lenio Luiz Streck. São Paulo: ConJur, 2024. Disponível em: https://www.conjur.com.br. Acesso em: 24 set. 2025.
CONSULTOR JURÍDICO. Organismos internacionais precisam ser refundados, diz constitucionalista italiano Luca Mezzetti. São Paulo: ConJur, 2024. Disponível em: https://www.conjur.com.br. Acesso em: 24 set. 2025.
DENIS, Delphine; SANCIER-CHÂTEAU, Anne. Grammaire du français. Paris: Armand Colin, 2002.
PIK – POTSDAM INSTITUTE FOR CLIMATE IMPACT RESEARCH. Planetary Health Check Report 2025. Potsdam: PIK, 2025. Disponível em: https://www.pik-potsdam.de. Acesso em: 24 set. 2025.
THE NEW YORK TIMES. Law professors across political spectrum warn of Trump’s constitutional threats. New York: NYT, 2024. Disponível em: https://www.nytimes.com. Acesso em: 24 set. 2025.


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