Marx: mais filósofo, menos ídolo (ou demônio)
- gleniosabbad
- 28 de out. de 2025
- 4 min de leitura
Distinção entre o método crítico e a ideologia dogmática: por que Marx ainda importa
Por Glênio Sabbad Guedes
Em tempos em que os nomes se desgastam no ruído das redes e as ideias se consomem como mercadorias, o de Karl Marx continua sendo um espectro que assombra a modernidade. Sua figura foi adorada ou amaldiçoada, convertida em emblema de redenção ou de terror. Entre a devoção de uns e a repulsa de outros, perdeu-se o filósofo que quis compreender as raízes materiais do mundo, não o profeta de certezas.
A força de Marx não reside nos dogmas que o cristalizaram, nem nas utopias que o traíram, mas em seu método crítico, essa forma de olhar que perfura a superfície do presente e revela suas contradições. Como mostrou o diálogo Sócrates encontra Marx, do filósofo norte-americano Peter Kreeft, confrontar Marx com a lógica formal é útil para depurar erros, mas insuficiente para anular sua potência. Marx não foi um silogismo mal construído, e sim um terremoto na história do pensamento.
Kreeft imagina o Sócrates eterno interrogando o revolucionário de Tréveris: como um burguês pode falar em nome do proletariado? Como pode haver verdade num pensamento que declara ser produto da matéria? Tais perguntas são pertinentes, mas apenas se lembrarmos que a dialética marxiana não é um sistema de fórmulas, e sim um método para pensar o movimento. A realidade — dizia Marx — não cabe em definições; transforma-se.
Seu materialismo histórico não é um determinismo mecânico, mas um esforço para compreender como as relações econômicas moldam a consciência, a política e a cultura. Nas melhores páginas, Marx não impõe receitas: interroga as raízes da dominação. Mostra que por trás das instituições e dos valores esconde-se a luta pelo controle da produção, e que as ideias dominantes são, muitas vezes, apenas as ideias da classe dominante.
Essa suspeita radical — que mais tarde inspiraria Freud e Nietzsche — faz de Marx um dos grandes mestres da suspeita. Sua crítica da ideologia desnuda as aparências: o que parece natural — o salário, o mercado, a competição — é, na verdade, um tecido histórico de poder.
Nos Manuscritos econômico-filosóficos, Marx já falava da alienação: o ser humano que perde sua essência porque o fruto de seu trabalho não lhe pertence, porque o tempo de sua vida se torna alheio. Essa alienação, que no século XIX se dava nas fábricas de Manchester, hoje se prolonga nos algoritmos que vigiam cada gesto, na “uberização” que transforma o trabalhador em sombra e o descanso em rendimento.
O fetichismo da mercadoria, essa inversão que converte relações humanas em relações entre coisas, alcança no presente sua apoteose digital: os dados se vendem, as emoções se monetizam, os corpos se editam como perfis. O capital aprendeu a extrair valor até do silêncio, do desejo e do medo.
Diante dessa mutação global, a pergunta de Marx segue viva: quem possui os meios de produção — agora os de informação, os algoritmos, a inteligência artificial — e a quem servem? As novas plataformas não aboliram a exploração; apenas a sofisticaram. Como advertiu Shoshana Zuboff, vivemos na era do capitalismo de vigilância, onde o controle social adota a máscara da liberdade digital.
Ler Marx hoje não é nostalgia de revoluções falidas, mas exercício de lucidez. Seu método, livre de dogmas, permite reconhecer os mecanismos que perpetuam a desigualdade. David Harvey, Nancy Fraser, Ruy Braga e Enrique Dussel atualizaram sua crítica desde perspectivas contemporâneas e latino-americanas, lembrando-nos que a análise do capital não pode se desligar da ética, nem a economia da dignidade humana.
Não se trata de canonizar Marx, nem de absolvê-lo dos horrores cometidos em seu nome. O marxismo dogmático — convertido em religião política — traiu o próprio Marx, que fez da crítica a alma de seu pensamento. Pensar com Marx implica, justamente, não repeti-lo, mas continuar sua tarefa: suspeitar de toda verdade que pretenda ser absoluta.
Sua herança mais profunda não é um sistema, mas uma atitude: pensar o mundo para transformá-lo, sem perder a liberdade interior de questioná-lo.
O século XXI, com suas crises, pandemias e algoritmos, não precisa de novos dogmas, e sim de nova lucidez sobre o humano. Marx, lido filosoficamente — sem mitos nem condenações —, oferece uma bússola para esse caminho: o valor de compreender as raízes do poder e a esperança de imaginar o que ainda não existe.
Bibliografia
BRAGA, Ruy. A rebeldia do precariado: trabalho e neoliberalismo no Sul Global. São Paulo: Boitempo, 2017.
DUSSEL, Enrique. Para uma ética da libertação latino-americana. São Paulo: Loyola, 1980.
FRASER, Nancy. Destinos do feminismo: do capitalismo administrado pelo Estado à crise neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2023.
HARVEY, David. O enigma do capital e as crises do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2011.
KREEFT, Peter. Sócrates encontra Marx. Campinas: CEDET, 2012.
MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos de 1844.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política.ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.


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