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Nostalgia Não É Estratégia ante um Mundo em Ruptura

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 28 de jan.
  • 7 min de leitura

O discurso de Mark Carney em Davos aponta o caminho para potências médias como o Brasil em uma ordem global fragmentada.


Tradução : Brasil, você está por sua conta...


Por Glênio S Guedes ( advogado )


Dois Discursos, Duas Visões


No Fórum Econômico Mundial de 2025, em Davos, o palco recebeu dois líderes norte-americanos com mensagens diametralmente opostas. Donald Trump, recém-empossado para seu segundo mandato, ofereceu o já esperado: um discurso "confuso, impregnado de ressentimento e megalomania", nas palavras do analista Martin Wolf. Falou de tarifas, de "América em primeiro lugar", de supostos inimigos comerciais. Foi teatro para a plateia doméstica, vazio de estratégia para o mundo real.

Mark Carney, o novo primeiro-ministro do Canadá — ex-governador dos bancos centrais do Canadá e do Reino Unido — entregou algo completamente diferente: um discurso que será estudado por anos como marco intelectual da transição que vivemos. Lúcido, fundamentado e profético, Carney não ofereceu ilusões reconfortantes. Sua tese central pode ser resumida em uma frase demolidora: "Nostalgia não é estratégia".


A Ruptura, Não Transição


Carney começou citando Václav Havel, o dramaturgo que se tornou presidente da Tchecoslováquia pós-comunista. Havel argumentava que o comunismo se sustentava através da participação de pessoas comuns em rituais que elas sabiam, em privado, serem falsos — "viver na mentira", como ele chamava.

De forma provocativa, Carney traçou um paralelo: também vivemos uma mentira ao chamar de "ordem internacional baseada em regras" o que foi, na prática, uma hegemonia americana que funcionou bem quando conveniente aos EUA, mas que sempre teve "lacunas entre retórica e realidade".

O ponto crucial: vivemos uma ruptura, não uma transição. A diferença não é semântica. Uma transição pressupõe continuidade com ajustes; uma ruptura significa que as regras do jogo mudaram fundamentalmente. No mundo atual de "interdependência instrumentalizada" — onde integração econômica se tornou arma geopolítica —, "não é possível viver na mentira do benefício mútuo por meio da integração quando a integração se torna a fonte da sua subordinação".

China usando dependência de terras raras para pressão política. EUA ameaçando cortar acesso ao sistema financeiro dolarizado. Rússia fechando torneira de gás para Europa. A integração, que deveria gerar cooperação, tornou-se vetor de coerção.


Realismo sem Cinismo: O Caminho das Potências Médias


Mas Carney não ofereceu lamento. Sua frase mais importante: "Não deveríamos lamentar [a velha ordem]. Nostalgia não é estratégia".

Essa afirmação contém camadas de significado:

Primeiro, é reconhecimento de que o mundo de 1945-2020 não voltará. Os EUA não querem mais pagar o custo de ser provedor de bens públicos globais. A China não aceitará subordinação a regras ocidentais. A fragmentação está em curso.

Segundo, é rejeição do populismo reacionário que promete "fazer [país X] grande novamente". Trump vende nostalgia. Viktor Orbán, Jair Bolsonaro, Marine Le Pen vendem nostalgia. É politicamente atraente mas estrategicamente suicida.

Terceiro, é chamado à ação: se a velha ordem morreu, construamos a próxima. Carney propõe o conceito de "realismo baseado em valores" — frase cunhada por Alexander Stubb, presidente da Finlândia. Significa ser "principiado em seu compromisso com valores fundamentais" enquanto "se engaja amplamente, de forma estratégica, com os olhos abertos".

Não é idealismo ingênuo ("vamos todos nos dar as mãos"). Não é cinismo realpolitik ("só o poder importa"). É a síntese: defender democracia, direitos humanos, comércio justo e estado de direito, mas sem ilusões sobre o mundo real, construindo alianças pragmáticas onde possível.


O Papel das Potências Médias


O coração da proposta de Carney é a articulação entre potências médias como alternativa tanto à hegemonia americana em declínio quanto a um "mundo de fortalezas" — blocos isolados em competição predatória.

Potências médias (Canadá, Austrália, países europeus individualmente, Coreia do Sul, Indonésia, México, Brasil) têm:


  • Economia significativa mas não dominante

  • Capacidade militar defensiva mas não projeção global

  • Compromisso com ordem multilateral

  • Vulnerabilidade à coerção de superpotências


A estratégia de Carney: tecer rede de acordos entre potências médias em três dimensões:

Comércio: Viável. EUA representam apenas 17% das importações globais. Acordos como CPTPP, RCEP, pactos UE-Mercosul podem criar volumes que compensem mercado americano.

Finanças: Difícil. Vulnerabilidade ao dólar é real. Solução não é adotar renminbi (troca uma dependência por outra pior). Necessário desenvolver sistemas de pagamento alternativos, fortalecer moedas regionais, criar clearing houses independentes.

Segurança: Muito difícil. Potências médias não substituem guarda-chuva nuclear americano. Mas podem criar capacidades defensivas coletivas, compartilhar inteligência, coordenar dissuasão contra ameaças regionais.


Lições para o Brasil: Entre Ilusões e Oportunidades


O discurso de Carney fala diretamente ao Brasil, talvez mais do que ele imaginou. O Brasil é arquétipo de potência média com dilemas estratégicos agudos.


1. Abandonar Nostalgias Múltiplas

O Brasil cultiva várias nostalgias paralisantes:


  • Nostalgia desenvolvimentista: A ilusão de que voltaremos aos anos 1970 fechando a economia e fazendo "substituição de importações". Não voltaremos.

  • Nostalgia da "autonomia pela distância": A ideia de que podemos ficar à margem de disputas geopolíticas. Não podemos. Interdependência nos alcançou.

  • Nostalgia do "protagonismo natural": A fantasia de que o Brasil é automaticamente grande potência por território e população. Não somos, sem capacidades reais.


Carney está certo: nostalgia não é estratégia. O Brasil precisa de realismo sobre sua posição — potência média com ativos significativos mas limitações claras.


2. Construir Autonomia Estratégica Real


O conceito brasileiro de "autonomia" precisa atualização. Não pode ser isolamento nem equidistância tática. Deve ser capacidade de:


  • Escolher parcerias sem subordinação: Comércio com China, tecnologia com Europa, segurança cooperativa com vizinhos.

  • Desenvolver capacidades próprias críticas: Segurança alimentar, energética, tecnológica em áreas-chave (semicondutores, IA, biotech).

  • Liderar arranjos sul-sul: Brasil tem credibilidade única para articular América do Sul, África lusófona, diálogo com Índia e Indonésia.


3. Aproveitar a Fragmentação Estrategicamente


Mundo multipolar não é só risco — é oportunidade. Brasil pode:


  • Jogar competição EUA-China a favor: Ambos querem acesso a mercado brasileiro, recursos naturais, apoio diplomático. Brasil deve negociar duro.

  • Posicionar-se como ponte: Entre Norte-Sul, entre Ocidente e "resto", entre blocos. Papel de mediador tem valor crescente.

  • Atrair investimento de todos: China investe em infraestrutura. Europa em transição verde. EUA em tecnologia. Brasil não precisa escolher — precisa negociar melhor.


4. Fortalecer Vizinhança


Carney enfatiza acordos entre potências médias. Para Brasil, isso começa em casa:


  • Revitalizar Mercosul: Bloco disfuncional mas com potencial imenso. Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai juntos têm massa crítica.

  • Integração física sul-americana: Energia, transporte, comunicações. Reduz dependência de extra-região.

  • Coordenação política: Posições comuns em fóruns multilaterais ampliam influência.


O acordo UE-Mercosul, após 25 anos de negociação, é teste crucial. Se Brasil não conseguir aprová-lo por resistências domésticas, terá perdido oportunidade histórica.


5. Investir em Capacidades Reais


"Potência média" não significa "potência de segunda classe". Significa escolher onde investir:

  • Tecnologias críticas: IA, computação quântica, biotech. Brasil tem talento, falta investimento e estratégia.

  • Transição energética: Brasil tem matriz limpa, potencial solar/eólico imenso, biomassa. Pode ser superpotência verde.

  • Segurança cibernética: Guerras futuras são digitais. Brasil está vulnerável.

  • Educação e ciência: Base de tudo. Brasil desinvestiu em década perdida. Precisa reverter.


Europa como Modelo (e Alerta)


Martin Wolf destaca que a União Europeia tem papel-chave na construção do sucessor da ordem americana. Europeus têm:


  • Maior mercado unificado do mundo

  • Alavancagem financeira sobre EUA

  • Capacidade regulatória global ("efeito Bruxelas")

  • Experiência em integração entre democracias


Para Brasil, a lição: integração regional gera poder. Europa fragmentada é irrelevante. Europa unida é superpotência. América do Sul fragmentada será marginal. Integrada, pode ser ator global.

Mas Wolf também alerta: Europa precisa ser "salvadora, não destruidora" desta vez. Em 1914-1945, disputas europeias geraram catástrofe global. Hoje, se Europa (e outras potências médias) falharem em construir ordem cooperativa, resultado será fragmentação caótica e, eventualmente, conflito.


O Custo da Nostalgia


Carney conclui que podemos "construir algo melhor, mais forte, mais justo" a partir da ruptura. É esperança, não garantia. Mas certeza há uma: tentativas de ressuscitar o passado falharão.

Trump tenta fazer EUA de 1955 retornar. Xi Jinping invoca glórias imperiais chinesas. Putin fantasia sobre império russo. Modi romantiza era védica indiana. Nenhum terá sucesso, mas todos causarão danos imensos tentando.

O Brasil não pode cair na mesma armadilha. Não podemos tentar reviver nacional-desenvolvimentismo dos anos 1950, nem protagonismo do Itamaraty pré-2000, nem crescimento dos anos 2000 baseado em boom de commodities.

Precisamos de estratégia para o mundo que existe, não o que gostaríamos que existisse:


  • Multipolar, não unipolar

  • Fragmentado, não globalizado

  • Competitivo, não cooperativo por padrão

  • Com interdependência instrumentalizada, não integração benéfica

  • Onde potências médias precisam se articular, não esperar liderança americana


Conclusão: Da Ruptura à Construção


O discurso de Mark Carney em Davos importa porque oferece o que falta no debate global: clareza sobre o momento e direção para frente.

Trump oferece ilusão de retorno ao passado. Xi oferece submissão à ordem sinocêntrica. Putin oferece caos.

Carney oferece terceira via: reconhecer a ruptura, abandonar nostalgia paralisante, construir arranjos cooperativos entre países comprometidos com democracia e estado de direito, mas com realismo sobre interesses e poder.

Para o Brasil, as implicações são claras:

Não esperar que EUA voltem a liderar ordem liberal — não voltarão. Não aceitar subordinação à China — seria trocar dependência por dependência. Não isolar-se em "autonomia" — interdependência é real. Não romantizar passado — tempos mudaram fundamentalmente.

Em vez disso:


  • Articular potências médias em rede de acordos pragmáticos

  • Fortalecer integração sul-americana

  • Investir em capacidades reais que geram autonomia

  • Jogar competição entre blocos a favor brasileiro

  • Liderar construção de ordem cooperativa no Sul Global


Como disse Carney citando Havel: não podemos mais "viver na mentira". A mentira hoje seria fingir que ordem liberal está intacta, que basta "defender multilateralismo" retoricamente, que Brasil pode ficar à margem.

A verdade incômoda: estamos por nossa conta. A verdade esperançosa: não estamos sozinhos. Potências médias juntas têm massa crítica para construir ordem alternativa ao caos.

Nostalgia não é estratégia. Realismo construtivo é.


A ruptura está em curso. A questão não é se gostaríamos que fosse diferente. A questão é o que faremos com o mundo que temos.

 
 
 

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