top of page
03 - Logo Brasilombia - BG Azul.png
  • Instagram Brasilombia
  • LinkedIn Brasilombia

O Advogado e o Algoritmo: Por que o Raciocínio não basta para vencer a Inteligência Artificial

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 20 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Por Glênio S. Guedes ( advogado )


A advocacia vive sob o espectro de uma ameaça existencial. A cada nova iteração de modelos de linguagem (LLMs) e ferramentas de jurimetria, surge a pergunta: "O computador vai me substituir?". Se a advocacia for resumida a processamento de dados, busca de jurisprudência e montagem lógica de silogismos, a resposta é um desconfortável "sim". O algoritmo raciocina mais rápido, mais barato e com menos erros formais do que qualquer estagiário ou sócio sênior.

No entanto, há uma fronteira que a máquina não cruza. Para entendê-la, precisamos recorrer à tradição filosófica clássica, especificamente à distinção medieval entre Ratio (razão discursiva) e Intellectus (intelecto intuitivo), fundamental para autores como São Tomás de Aquino e Boécio. É nessa diferença que reside a sobrevivência do jurista.


A Armadilha da Ratio (O Domínio do Algoritmo)


Para os escolásticos, a Ratio é o movimento do pensamento. É a faculdade discursiva que avança passo a passo, de premissa em premissa, para chegar a uma conclusão. É o tempo aplicado ao pensamento.

No Direito, a Ratio é a engenharia processual e o silogismo formal: "A lei diz X; o fato é Y; logo, a conclusão deve ser Z". É aqui que opera a Inteligência Artificial. A IA é a perfeição absoluta da Ratio: ela processa milhões de conexões sintáticas e lógicas em segundos.

O advogado que limita sua atuação a essa esfera — o "recorta e cola" de jurisprudência, a aplicação mecânica de verbetes, a petição padronizada — está competindo com uma calculadora num concurso de matemática. Ele já perdeu. Ele se tornou um burocrata do silogismo, operando uma lógica que a máquina executa com precisão "demoníaca" (no sentido de velocidade sobre-humana).


O Refúgio do Intellectus (O Domínio Humano)


Se a Ratio é movimento, o Intellectus é visão. Santo Tomás de Aquino, na Suma Teológica, distingue o intelecto como a capacidade de apreender a verdade de forma simples, imediata e intuitiva, sem a necessidade do movimento discursivo. É o olhar que capta a essência do objeto num relance.

Aristóteles, muito antes, chamava isso de Nous: a faculdade que capta os primeiros princípios indemonstráveis.

Na prática forense, o Intellectus é o Insight Jurídico ou a "Teoria do Caso". É aquele momento de silêncio em que o jurista, após ler os autos, percebe: "A questão aqui não é o contrato, é a boa-fé". A máquina pode ler todos os acórdãos sobre o tema, mas ela não entende a dor do cliente, a nuance ética da parte contrária ou a finalidade social (telos) daquele litígio.

A máquina não tem acesso à realidade; ela acessa apenas dados estatísticos sobre a realidade. O jurista humano, dotado de Intellectus, acessa a justiça do caso concreto. Ele vê o todo (Gestalt), enquanto o algoritmo apenas soma as partes.


Do Técnico ao Jurista: A Aplicação Prática


O mercado jurídico está saturado de operadores de Ratio — processadores biológicos de leis. O futuro pertence àqueles capazes de exercer o Intellectus. Como isso se traduz na rotina?


  1. Na Hermenêutica: A IA lê a letra da lei (gramática). O intelecto busca a mens legislatoris e a justiça (axiológica). O advogado deve parar de "explicar a lei" (o juiz já sabe a lei, e o computador também) e começar a "revelar o sentido" do conflito.

  2. Na Estratégia: A Ratio diz quais são os prazos e os recursos cabíveis. O Intellectus diz se vale a pena recorrer. A sabedoria — virtude intelectual máxima — reside em saber o que fazer com a técnica, e não apenas como fazer.

  3. Na Narrativa: O algoritmo lista fatos. O intelecto constrói sentido. A capacidade de contar a história do cliente de forma a evocar a empatia e o senso de justiça do magistrado é uma função estritamente humana, pois depende da experiência de vida que nenhuma base de dados possui.


Conclusão


A tecnologia democratizou a Ratio. Qualquer um hoje tem acesso à jurisprudência e modelos de petição. O diferencial, portanto, migrou para cima.

O advogado que apenas raciocina será substituído. Mas o jurista que intelige — aquele capaz de suspender o fluxo mecânico para captar a verdade substancial do caso — permanecerá intocável. O algoritmo pensa muito, mas, como diriam os antigos, ele não tem "a luz do intelecto agente". Nós ainda temos.

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
Hipocrisia soberana: a nova gramática do poder global

“Não é o Direito que limita o poder; é o poder que decide quando o Direito vale.” Por Glênio S Guedes ( advogado ) A pergunta que inaugura este ensaio pode soar provocativa, talvez até incômoda: é pos

 
 
 
Do homem universal ao gestor da inteligência alheia

Polimatia, big techs e a terceirização da síntese do saber à luz de Peter Burke “Saber muitas coisas não é o mesmo que compreender o todo.” Por Glênio S Guedes ( advogado ) 1. Introdução — A pergunta

 
 
 

Comentários


bottom of page