O Brasil regulado por guaxinins: uma hipótese nada absurda
- gleniosabbad
- 22 de jan.
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Quando a realidade se torna grotesca, a sátira deixa de ser humor e passa a ser diagnóstico.
Por Glênio S Guedes ( advogado )
1. Introduzindo — quando o absurdo deixa de ser metáfora
Toda sátira nasce de um desconforto. Mas há momentos em que o desconforto é tão persistente que a sátira deixa de ser exagero e passa a ser descrição fiel. O Brasil contemporâneo vive um desses momentos: quando órgãos concebidos para operar com técnica, autonomia e previsibilidade passam a funcionar segundo lógicas que nada têm de técnicas, a pergunta correta já não é “o que está errado?”, mas “por que ainda fingimos normalidade?”.
É nesse contexto que surge a hipótese — aparentemente absurda, mas metodologicamente honesta — de imaginar o país regulado por guaxinins. Não como piada zoológica, mas como experimento mental. Afinal, quando a régua institucional cai abaixo do senso comum, comparar torna-se inevitável.
2. O guaxinim e a decisão: errar não é o problema
Estudos recentes em neurociência comportamental demonstram que guaxinins possuem número de neurônios comparável ao de primatas, alta capacidade de resolução de problemas, tomada rápida de decisão e aprendizado por experiência. Um guaxinim pode errar — e erra — mas erra por excesso de curiosidade, não por incapacidade cognitiva.
O episódio do guaxinim que invadiu uma loja de bebidas, bebeu além da conta e desmaiou no banheiro virou anedota mundial. Mas há algo de profundamente instrutivo ali: o animal avaliou o ambiente, explorou possibilidades, tomou decisões e arcou com as consequências. Não pediu vistas, não terceirizou culpa ao sistema, não alegou “complexidade excessiva do contexto”.
Errar, nesse caso, foi parte do processo cognitivo. Já normalizar o erro institucional é outra coisa.
3. Regulação brasileira: quando o erro vira método
O caso recente envolvendo o Banco Master expôs algo que o mercado financeiro já percebia, mas raramente dizia em voz alta: a fragilidade crescente da regulação brasileira diante de interferências políticas. O problema não foi apenas a fraude em si, mas o entorno — pressões, tentativas de reescrita narrativa, decisões institucionais tensionadas por interesses alheios à técnica.
Nesse cenário, tanto o Banco Central do Brasil quanto a Comissão de Valores Mobiliários aparecem como personagens centrais de um drama conhecido: órgãos criados para serem contramajoritários, técnicos e impopulares quando necessário, mas progressivamente atraídos para a órbita da conveniência política.
A captura do regulador não acontece de uma vez. Ela se dá em etapas:– indicações “negociadas”;– colegiados esvaziados;– decisões adiadas;– sigilos mal explicados;– e, por fim, a naturalização do improvável.
Nada disso é clandestino. Tudo é feito à luz do dia, com linguagem jurídica sofisticada o suficiente para mascarar o óbvio.
4. Neurônios versus padrinhos
Aqui a comparação com o guaxinim deixa de ser jocosa e passa a ser incômoda. O guaxinim não precisa agradar bancadas, não constrói carreira por alianças e não confunde lealdade com competência. Ele opera com algo mais simples — e, paradoxalmente, mais raro no sistema institucional brasileiro: adequação entre capacidade e função.
No Brasil, ao contrário, consolidou-se um modelo no qual o cargo frequentemente precede a competência, e a técnica entra como justificativa posterior. A consequência é conhecida: regula-se mal, fiscaliza-se tarde e corrige-se apenas quando o dano já se tornou sistêmico.
Se a função de um regulador é antecipar riscos, conter excessos e agir com independência, a pergunta torna-se inevitável: qual critério exatamente estamos usando para escolher quem ocupa essas cadeiras?
5. Por que o guaxinim ainda não foi indicado
Talvez o guaxinim não tenha sido indicado porque lhe faltam qualidades essenciais ao jogo institucional:– não transita bem em Brasília;– não deve favores;– não compõe maioria;– não sabe negociar silêncio.
Em compensação, ele reconhece padrões, aprende com o erro e responde ao ambiente de forma direta. Num sistema em que o faz-de-conta virou política pública, isso pode soar perigosamente subversivo.
Conclusão — a sátira como alarme
Este texto não propõe substituir humanos por animais na regulação financeira. Propõe algo mais simples — e mais radical: restaurar o óbvio.
Quando a sátira parece mais razoável que a realidade, o problema não é o exagero do texto, mas a pobreza do sistema que ele descreve. O dia em que a hipótese de um Brasil regulado por guaxinins deixar de soar absurda talvez seja o dia em que teremos admitido, finalmente, que o grotesco não estava na metáfora — mas na normalidade que fingíamos defender.
E, nesse dia, a sátira terá cumprido sua função: não a de fazer rir, mas a de diagnosticar.


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