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O Eleitor e a Capacidade Intrínseca

Foto do escritor: gleniosabbad
gleniosabbad
5 de set.
4 min de leitura

Um estudo clínico das promessas, das amnésias e da estranha vitalidade das urnas

“A democracia é uma senhora respeitável; pena que seus pretendentes só a procurem em época de casamento.”

Por Glênio S Guedes (advogado)


Aproximam-se as eleições, e o Brasil comparece à consulta com a dignidade possível a um organismo que há muito se examina por espelhos. Candidatos, partidos, comentaristas e autoridades trazem diagnósticos diversos, quase todos acompanhados da mesma certeza: a enfermidade está no adversário, ao passo que a cura, por providência inexplicável, se encontra em suas próprias mãos.

Não se pretende aqui avaliar indivíduos, mas o corpo político nacional — criatura de muitas cabeças, numerosos membros e um prontuário em que cada diagnóstico contradiz o anterior sem jamais invalidá-lo por completo. A capacidade intrínseca de um país, como a de uma pessoa, manifesta-se em cinco domínios: cognição, locomoção, percepção sensorial, vitalidade e bem-estar psicológico. O exame será objetivo, naturalmente, desde que os fatos não se mostrem excessivamente hostis às convicções do examinador.

Comecemos pela cognição. O Brasil possui memória, mas exerce-a com critério administrativo. Recorda com precisão aquilo que favorece a narrativa do dia e arquiva, em seção de acesso restrito, tudo quanto possa comprometer a narrativa de ontem. Promessas antigas reaparecem com trajes novos; fracassos conhecidos recebem nomes modernos; soluções abandonadas retornam como se tivessem passado por alguma universidade estrangeira.

Não se trata exatamente de ignorância. A ignorância, em sua simplicidade, pode ser corrigida. O problema nacional é mais sofisticado: sabe-se o que deve ser feito, reconhecem-se as causas dos males, enumeram-se as reformas indispensáveis e, ao fim, escolhem-se os métodos que produziram o diagnóstico. A inteligência existe; falta-lhe, às vezes, a inconveniência de converter-se em decisão.

Quanto à locomoção, o país caminha. Seria injusto negar-lhe movimento. Corre durante a campanha, salta obstáculos nos debates e percorre longas distâncias em direção às promessas. Depois, instalado o governo, a promessa pede uma cadeira, um grupo de trabalho e alguns meses para estudar o percurso.

A marcha brasileira é peculiar: dois passos adiante, três para o lado e um elegante salto em direção à comissão que examinará a necessidade de avançar. Obras começam como símbolos, reformas amadurecem como lendas e políticas públicas deslocam-se com admirável lentidão entre o anúncio e a execução. A República não está imóvel; encontra-se em movimento circular, que é a maneira mais laboriosa de permanecer no mesmo lugar.

Passemos aos sentidos. O poder enxerga muito bem aquilo que aparece nas telas: pesquisas, palanques, inaugurações, gráficos favoráveis e multidões convenientes. Para a pobreza sem porta-voz, a violência cotidiana, a precariedade dos serviços e a vida que não cabe no enquadramento oficial, desenvolveu uma catarata institucional de notável resistência.

A audição não se encontra em melhor estado. O Estado escuta com clareza os setores que possuem microfone, representação e acesso aos gabinetes. Aos demais oferece consultas públicas, canais de participação e a promessa de avaliar atentamente todas as contribuições — fórmula delicada pela qual se comunica que ninguém será necessariamente ouvido.

A democracia brasileira não é surda. Distingue perfeitamente as vozes que lhe convém escutar.

A vitalidade, por sua vez, é abundante, embora mal distribuída. O país trabalha, improvisa, cria, empreende, estuda e resiste; encontra solução para problemas que não deveriam ter existido e transforma a precariedade em prova de engenho. O Estado, com admirável modéstia, costuma atribuir a si o mérito dessa sobrevivência.

Há, contudo, diferença entre resistência e saúde. Um organismo pode manter-se de pé por longo tempo graças à força dos próprios membros, sem que isso signifique bom funcionamento do corpo inteiro. Quando a população precisa substituir o serviço público, o planejamento e a proteção institucional por improviso, crédito, parentesco ou coragem, a vitalidade social deixa de ser virtude celebrada e passa a funcionar como subsídio silencioso da incompetência.

Resta o bem-estar psicológico. O país chega às urnas cansado, desconfiado e, apesar de tudo, esperançoso. Não acredita inteiramente nas promessas, mas ainda precisa escolher alguma delas — como quem, diante de cinco remédios duvidosos, pergunta qual ao menos não agravará a febre.

O humor nacional merece registro clínico. Ri-se da inflação, da fila, do escândalo, da crise e do futuro. Não necessariamente porque haja tranquilidade, mas porque o sarcasmo é um dos poucos benefícios públicos distribuídos sem licitação.

Um povo que ri de tudo pode ser espirituoso. Um povo que só consegue rir para suportar tudo talvez esteja apenas fatigado.

O diagnóstico, portanto, não é de falência, mas de funcionamento precário. O Brasil compreende, embora não aprenda o suficiente; movimenta-se, embora frequentemente em círculos; vê e ouve, embora seletivamente; possui energia, embora a consuma em emergências; conserva esperança, embora a pague com juros emocionais.

A eleição surge, então, como teste da capacidade operativa nacional, não como milagre terapêutico. As urnas revelarão o que o país recorda, o que prefere esquecer, quais promessas ainda o seduzem e que espécie de sofrimento considera tolerável. Nenhum voto, isoladamente, cura a amnésia institucional, a marcha lenta ou a surdez do poder. Mas a escolha pública pode indicar se ainda existe disposição para lembrar, fiscalizar e cobrar.

A democracia é uma senhora respeitável, como já se disse, mas sofre de enfermidade curiosa: recebe visitas em época de eleição e passa os anos seguintes entregue à própria solidão. O Brasil continuará votando enquanto puder. A questão mais grave é saber se conservará a capacidade de escolher sem esquecer, esperar sem se iludir e cobrar sem desistir.

 
 
 

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