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O Futuro foi Cancelado por Excesso de Presente: Trumpworld e o Bug no Algoritmo da Realidade

  • Glênio S. Guedes
  • 17 de ago. de 2025
  • 2 min de leitura

Atualizado: 2 de set. de 2025

Há uma sensação crescente de que o futuro, como projeto e destino, foi sumariamente cancelado. A causa? Um excesso de presente. Somos afogados por uma torrente de crises, polêmicas e rupturas tão intensas e velozes que o amanhã se tornou um luxo impensável. Essa condição paralisante tem um nome: "Trumpworld". Mais que um fenômeno político, ele representa um erro fundamental, um bug que corrompeu o algoritmo da realidade, tornando obsoletas nossas ferramentas para navegar o tempo. Diante disso, a próspera indústria de "curadoria do futuro" se assemelha a um grupo de programadores tentando rodar um software antigo em um sistema operacional que entrou em colapso.


Este "bug" se manifesta de forma mais clara na demolição da ordem global. A ofensiva contra instituições como a Organização Mundial do Comércio (OMC) não foi um simples ato político, mas a injeção de um código malicioso no sistema. Do ponto de vista da Análise Econômica do Direito, a paralisia deliberada do Órgão de Apelação da OMC é o glitch em ação: ele substitui a lógica das regras (rule−of−law) pela instabilidade do poder (rule−of−power). Na prática, a previsibilidade — o lubrificante do comércio e dos investimentos — evapora. O algoritmo que regia as trocas globais agora retorna resultados aleatórios, e o Brasil sente isso na pele, forçado a uma guerra comercial onde a lógica foi substituída pela força bruta.


É aqui que a Ciência de Dados e a Inteligência Artificial revelam sua fragilidade. Seus modelos são projetados para encontrar padrões no "algoritmo da realidade", aprendendo com o passado para prever o futuro. Contudo, quando o sistema está corrompido por um "bug" como o Trumpworld — que opera com base na imprevisibilidade e na ruptura constante com padrões anteriores —, os dados históricos perdem seu poder explicativo. O "ruído" gerado pelo erro sobrepuja o "sinal". A tarefa de "filtrar e aplicar com consciência" se torna não apenas hercúlea, mas logicamente impossível. É por isso que o futuro foi cancelado: não se pode extrapolar a partir de um presente que não para de falhar e se reescrever a cada instante.


Os contornos da nova ideologia econômica, com seu nacionalismo e protecionismo, reforçam o diagnóstico. Para uma nação como o Brasil, isso representa um dilema existencial: como planejar um caminho em meio a um sistema global que está travado, devolvendo erros a cada comando? Abertura ou protecionismo? Alinhamento a qual bloco? São perguntas de um usuário tentando operar uma máquina quebrada. A resposta, portanto, não pode ser apenas técnica, mas exige uma combinação de firmeza política para isolar os danos do "bug" e pragmatismo para encontrar rotas alternativas que ainda funcionam.


Em suma, vivemos sob o peso de um presente tão esmagador que ele consumiu o futuro. Esta condição é o resultado direto do "Trumpworld", um bug sistêmico que corrompeu o algoritmo das relações globais. A ameaça não é mais uma distopia futura, mas a disfunção permanente do agora. Antes de sonhar em prever o que vem a seguir, nossa tarefa mais urgente — como juristas, economistas e cientistas — é tentar depurar o algoritmo caótico do nosso próprio tempo.

 
 
 

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