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O mundo voltou a ser hobbesiano — e o Brasil ainda raciocina como se fora kantiano

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    gleniosabbad
  • 13 de abr.
  • 5 min de leitura

Por Glênio S Guedes (advogado)


Há ideias que confortam — e há ideias que explicam. As primeiras são preferidas em tempos de tranquilidade; as segundas tornam-se indispensáveis quando o mundo decide, com certa impaciência, abandonar as boas maneiras.

Durante décadas, o Brasil habituou-se à confortável suposição de que a ordem internacional evoluía, lenta e irreversivelmente, em direção a um sistema regido por normas, instituições e consensos. Era uma hipótese elegante, quase pedagógica: os Estados, como alunos aplicados, aprenderiam a resolver suas divergências sob a vigilância de regras compartilhadas. O conflito, quando surgisse, seria exceção — e não método.

Sucede, porém, que o mundo, tal como certos personagens discretos, não avisa quando muda de humor.

E mudou.


I. O Retorno da Geopolítica: quando o poder volta a ser dito em voz alta


A sucessão recente de eventos internacionais — ações militares unilaterais, disputas por territórios e recursos, reposicionamento de potências — não apenas tensionou o sistema global: revelou algo mais profundo. A ordem liberal, outrora apresentada como horizonte civilizatório, mostra sinais de esgarçamento. Em seu lugar, ressurge uma lógica mais antiga, menos sentimental e, por isso mesmo, mais previsível: a lógica do poder.

Não se trata de novidade histórica, mas de retorno metodológico.

Estados voltam a agir como Estados: medem riscos, projetam força, delimitam zonas de influência e, quando necessário, falam a linguagem que dispensaria tradução, caso não fosse tão frequentemente mal interpretada — a linguagem da dissuasão.

Nesse cenário, a ingenuidade deixa de ser virtude e passa a ser risco.


II. Energia, mar e soberania: a geopolítica encontra o petróleo


Se o poder voltou, ele não voltou vazio. Ele voltou acompanhado de interesses muito concretos. A chamada Margem Equatorial brasileira, com seu potencial energético expressivo, desloca o Atlântico Sul do conforto da geografia para o centro da estratégia.

A equação é antiga, ainda que frequentemente esquecida:

onde há recursos, há interesse; onde há interesse, há disputa; onde há disputa, há necessidade de proteção.

A soberania energética, celebrada em discursos, exige uma contrapartida menos retórica: capacidade de vigilância, presença e defesa. Explorar o mar sem protegê-lo é uma forma particularmente sofisticada de otimismo.


III. Dissuasão: a gramática silenciosa das potências


Convém aqui esclarecer um equívoco recorrente. Dissuasão não é agressividade; é linguagem.

É o modo pelo qual um Estado comunica a outros Estados que determinadas ações têm custo elevado. Não se trata de desejar o conflito, mas de torná-lo desvantajoso. A paz, nesse contexto, não é ausência de força — é equilíbrio de forças.

O plano de rearmamento da Marinha brasileira, com seus investimentos projetados até 2040, inscreve-se precisamente nesse esforço de reconstrução de uma capacidade mínima de dissuasão. Fragatas, submarinos, navios-patrulha, sistemas de mísseis e monitoramento marítimo não são, nesse sentido, objetos: são argumentos.

E, na política internacional, argumentos sem substância raramente convencem.


IV. O tempo estratégico: a arte de chegar antes do problema


Há, contudo, um detalhe incômodo. O plano projeta horizontes de 2030, 2035, 2040 — datas que, em termos administrativos, soam razoáveis; em termos estratégicos, exigem cautela.

O mundo que se pretende enfrentar com meios de 2040 já começou a se manifestar em 2026.

O descompasso entre o tempo da política e o tempo da estratégia é uma das fragilidades mais persistentes das nações que acreditam ter tempo. Planejar a longo prazo é virtude; depender exclusivamente do longo prazo pode ser imprudência.

A história, como se sabe, tem o hábito de antecipar prazos.


V. O problema invisível: estrutura, não apenas equipamento


Seria tentador imaginar que a modernização militar se resolve com aquisições. Não é o caso.

O próprio quadro apresentado revela limitações mais sutis: meios em manutenção, sistemas ainda em teste, dependência de continuidade política, fragmentação de capacidades. Em outras palavras, há uma diferença significativa entre possuir e poder empregar.

A dissuasão não se mede por inventário, mas por prontidão.

E a prontidão depende de algo menos visível e mais exigente: integração de comando, interoperabilidade entre forças, inteligência autônoma, logística eficiente e cultura institucional adaptada à guerra contemporânea.

Navios são necessários. Mas, sem estrutura, são promessas flutuantes.


VI. Autonomia e indústria: a soberania que se fabrica


Entre os elementos mais promissores do plano está a aposta em sistemas nacionais: mísseis desenvolvidos localmente, projetos navais concebidos internamente, fortalecimento da base industrial de defesa.

Esse ponto merece destaque.

Em tempos de estabilidade, dependência tecnológica pode parecer economicamente racional. Em tempos de crise, torna-se vulnerabilidade estratégica. Quem depende de terceiros para manter sua capacidade militar descobre, cedo ou tarde, que a soberania pode ser suspensa por razões que nada têm a ver com o interesse nacional.

Produzir defesa não é apenas política industrial. É política de sobrevivência.


VII. A Amazônia Azul: o território que não se vê


O Brasil habituou-se a pensar-se como potência continental. O conceito de “Amazônia Azul” — vasto espaço marítimo sob jurisdição nacional — ainda não foi plenamente assimilado no imaginário estratégico.

E, no entanto, ali se concentram rotas, recursos, infraestruturas críticas, cabos submarinos, plataformas energéticas e, potencialmente, disputas.

Sem sistemas de monitoramento como o SisGAAz - Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul, um sistema de sistemas, o núcleo da consciência situacional marítima brasileira -, esse território permanece mais jurídico do que real. E territórios apenas jurídicos têm uma característica inconveniente: existem até que alguém os conteste.


VIII. O dilema do prestígio: parecer grande ou ser eficaz?


A ausência de menção explícita à reconstrução de uma aviação naval embarcada — tema tradicionalmente associado ao prestígio estratégico — sugere uma escolha implícita: priorizar meios de dissuasão mais realistas dentro das restrições orçamentárias.

É uma decisão que pode parecer modesta, mas talvez seja prudente.

A história militar é pródiga em exemplos de nações que preferiram o símbolo à substância. O resultado, em geral, foi elegante — até o primeiro teste.


IX. A guerra que começa antes da guerra


A ênfase em navios-patrulha, fiscalização e combate a ilícitos indica percepção de uma realidade contemporânea: o conflito não se inicia necessariamente com confrontos declarados.

Ele se insinua.

Manifesta-se em pressões sobre rotas, sabotagens discretas, operações híbridas, exploração de zonas cinzentas entre paz e guerra. Nesse contexto, presença constante e vigilância tornam-se tão importantes quanto capacidade de combate convencional.

A guerra moderna começa onde ainda fingimos que há apenas normalidade.


X. A decisão política: onde a estratégia se realiza — ou não


Por fim, há o elemento decisivo. O plano existe, foi elaborado, dimensionado, justificado — mas depende de decisão política.

E aqui reside o ponto mais delicado.

Defesa nacional não é política de governo; é política de Estado. Exige continuidade, previsibilidade e compromisso intertemporal. Sem isso, qualquer estratégia, por mais bem concebida, permanece no plano das intenções.

A política decide se a estratégia será executada — ou arquivada com a elegância dos documentos importantes que ninguém quis assumir.


Conclusão: entre Hobbes e Kant


O título que encabeça estas reflexões não é mero exercício retórico. Ele expressa uma tensão real.

O mundo atual aproxima-se de uma condição em que a segurança volta a depender, em grande medida, da capacidade dos Estados de se protegerem e de se fazerem respeitar. É uma condição menos confortável, menos idealista — e, por isso mesmo, mais exigente.

O Brasil, por sua vez, ainda cultiva, em parte de sua imaginação estratégica, a esperança de que a ordem internacional continuará a premiar a moderação independentemente da capacidade.

Talvez essa esperança não seja inteiramente infundada.

Mas seria prudente não depender dela.

Porque, no fim das contas, a história raramente pune o excesso de preparação. Sua severidade costuma recair sobre aqueles que confundiram desejo com realidade — e descobriram, um pouco tarde, que o mundo não se rege por intenções, mas por forças.

E forças, ao contrário das ideias, não se improvisam.

 
 
 

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