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O novo ouro do século XXI: por que investir em terras raras no Brasil agora

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 24 de mar.
  • 4 min de leitura

Presentes em tudo — de turbinas eólicas a smartphones —, esses minerais colocam o Brasil no mapa da nova economia global.

“Há riquezas que não jazem no solo — jazem no tempo.”

Por Glênio S Guedes (advogado)


I. O subsolo que fala — mas ainda não foi ouvido


Há, no Brasil, uma estranha dissonância entre o que se sabe e o que se faz. Como se o país, dotado de uma geologia pródiga e de uma história científica notável, tivesse decidido — por uma dessas ironias que a realidade cultiva com esmero — ignorar o próprio passado para adiar o próprio futuro.

As chamadas terras raras, esse conjunto de elementos discretos e silenciosos, não possuem a exuberância do ouro, nem o dramatismo do petróleo. Não cintilam à vista, nem inflamam imaginários coloniais. E, no entanto, são elas — não o ouro, não o ferro — que sustentam a ossatura invisível da civilização contemporânea.

Sem elas, não há turbinas eólicas, nem motores elétricos eficientes, nem smartphones, nem radares de precisão, nem a própria transição energética que o mundo, entre alarmado e resignado, tenta acelerar.

São minerais discretos — e, por isso mesmo, decisivos.

E o Brasil, com rara ironia, não apenas os possui em abundância: já soube, um dia, dominá-los.


II. Pawel Krumholz: o pioneiro que antecipou o futuro


Convém, antes de tudo, restituir à história aquilo que dela foi injustamente subtraído.

Nos anos 1940 e 1950 — época em que o mundo ainda mal compreendia o alcance tecnológico das terras raras — o Brasil já não apenas as explorava, mas dominava processos avançados de separação e refino.

No centro dessa história está uma figura cuja importância ainda não foi devidamente assimilada: Pawel Krumholz.

Químico de origem polonesa, formado na tradição rigorosa da escola europeia, Krumholz trouxe ao Brasil não apenas conhecimento, mas método — e, sobretudo, visão. Instalado no país, e atuando na empresa Orquima, liderou um esforço científico-industrial que, à época, colocou o Brasil na fronteira mundial da tecnologia de terras raras.

Sob sua direção, desenvolveram-se técnicas de separação que rivalizavam com as mais avançadas do mundo. Mais do que isso: o país chegou a figurar entre os maiores produtores globais desses elementos.

Não se tratava de um ensaio periférico. Tratava-se de protagonismo.

Krumholz, em rigor, antecipou o século XXI.

Mas, como tantas vezes ocorre na história brasileira, o que foi conquista tornou-se hiato; o que foi liderança tornou-se memória difusa; o que foi projeto tornou-se silêncio.


III. O intervalo histórico: entre o saber e o abandono


O Brasil não perdeu suas terras raras. Perdeu — eis o ponto — a capacidade de transformá-las em poder.

Ao longo das décadas seguintes, a cadeia produtiva foi se desarticulando. A pesquisa científica permaneceu, em nichos acadêmicos. A mineração, por sua vez, manteve-se fragmentária. E a etapa decisiva — o refino, a separação, a agregação de valor — foi progressivamente abandonada.

Enquanto isso, outros países compreenderam aquilo que aqui se deixou escapar.

A China, em particular, não apenas assumiu a produção, mas construiu o verdadeiro domínio: o domínio da cadeia completa. Do minério ao produto final. Da geologia à indústria. Da ciência à geopolítica.

O resultado é conhecido: quem controla as terras raras não controla apenas minerais — controla o futuro tecnológico.


IV. O Brasil de hoje: potência latente


E, no entanto, o que impressiona não é o atraso — é o potencial.

O Brasil possui uma das maiores reservas de terras raras do planeta. Possui diversidade geológica, estabilidade institucional relativa, capacidade científica instalada e uma posição geográfica que o insere, com naturalidade, nos circuitos globais de exportação.

Mas há algo ainda mais relevante — e menos visível:

👉 o Brasil possui memória técnica.

Não parte do zero. Parte de Krumholz.

Parte de uma tradição científica que já enfrentou — e venceu — o problema mais complexo dessa cadeia: a separação.

Isso altera tudo.

Porque, em termos econômicos, o verdadeiro valor não está no minério bruto, mas no domínio do processo. E quem domina o processo, domina o mercado.


V. A janela histórica: por que agora?


A pergunta decisiva, portanto, não é se o Brasil pode — mas se o momento é propício.

E a resposta, aqui, é inequívoca: nunca foi tão propício quanto agora.

Três fatores convergem:


1. A transição energética


A demanda por terras raras cresce exponencialmente, impulsionada por energias renováveis, mobilidade elétrica e tecnologias de baixo carbono.


2. A fragmentação geopolítica


A dependência global de um único fornecedor tornou-se um risco estratégico. O mundo busca diversificação.


3. A reindustrialização seletiva


Países e blocos econômicos procuram reconstruir cadeias produtivas críticas — e buscam parceiros confiáveis.

Nesse cenário, o Brasil não é apenas uma opção.

É uma alternativa estratégica.


VI. Uma mensagem aos investidores: o tempo da antecipação


É aqui que a análise deixa o plano histórico e adentra o plano decisório.

Investir em terras raras no Brasil hoje não é um ato de especulação — é um ato de antecipação.

Trata-se de perceber, antes da consolidação plena, um movimento que já está em curso:


  • a valorização dos minerais críticos

  • a reconfiguração das cadeias globais

  • a necessidade de novos polos produtivos


O investidor atento sabe que os grandes ciclos não se anunciam com clareza — insinuam-se. E, quando se tornam evidentes, já não são oportunidades, mas fatos consumados.

O Brasil, neste momento, oferece uma conjunção rara:


  • abundância de recurso

  • baixa exploração relativa

  • necessidade global crescente

  • espaço para construção de cadeia integrada


É, em termos econômicos, o equivalente ao petróleo antes da indústria do petróleo.Ou ao silício antes da revolução digital.


VII. Conclusão: o futuro como retomada


Talvez o maior equívoco seja pensar que o Brasil precisa “entrar” no mercado de terras raras.

Não precisa.

Precisa, isto sim, retornar a ele.

Retornar com a consciência de que já esteve à frente. Retornar com a maturidade de quem compreende o valor estratégico do que possui. Retornar com a inteligência de construir não apenas mineração, mas cadeia.

Porque, no fundo, a história não é linear. Ela se dobra, às vezes, sobre si mesma.

E há momentos — raros, como os elementos que aqui examinamos — em que o passado não é apenas memória, mas prenúncio.

O Brasil, nesse campo, não está começando.

Está — silenciosamente — sendo chamado a retomar o seu lugar.

E o investidor que compreender isso não estará apostando no futuro.

Estará, simplesmente, chegando antes dele.

 
 
 

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