top of page
03 - Logo Brasilombia - BG Azul.png
  • Instagram Brasilombia
  • LinkedIn Brasilombia

Para Além do "Governo das Leis": O Direito como Freio ao Arbítrio

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 1 de jan.
  • 3 min de leitura

Por Glenio S Guedes ( advogado )


O recente editorial do Estadão, "Quando o poder vence o Direito", traz um diagnóstico alarmante: em diversas esferas – do crime organizado às altas cortes –, a vontade autoritária tem prevalecido sobre a norma jurídica. O texto evoca a máxima de Norberto Bobbio sobre a cegueira do poder sem o Direito. Contudo, para entendermos a raiz dessa crise, precisamos ir além da superfície e, guiados pelo mestre florentino Paolo Grossi - em sua pequena grande obra Prima Lezione di Dirrito -, questionar: o que acontece quando o Direito se divorcia da sociedade?


1. O Estado não cria o Direito, apenas o monopoliza


O editorial denuncia facções criminosas que impõem sua ordem em territórios onde o Estado falha. Para Grossi, isso confirma uma tese dura: o Direito não é monopólio do Estado. O Direito é "ordenamento", é a auto-organização da sociedade. Onde há um grupo social, haverá Direito – seja na "fila" de um guichê ou, tragicamente, numa comunidade dominada pelo crime.

O "vazio" deixado pelo Estado não é um vazio jurídico; é um espaço que será preenchido por outros ordenamentos. O alerta de Grossi é claro: quando o Estado (o poder político) se torna ineficiente ou corrupto, a sociedade busca outras formas de organização, ainda que perversas. A "ordem do bandido" citada pelo jornal é a prova de que o Direito é inerente ao social; se o ordenamento estatal não reflete os valores da comunidade, outros "ordenamentos" surgem.


2. A Patologia do "Direito como Comando"


O jornal critica duramente o STF e o Legislativo por manipularem as leis para fins de poder. Grossi explicaria isso como a consequência nefasta da Modernidade: a redução do Direito à Lei escrita, ao comando autoritário que "chove do alto".

Quando enxergamos o Direito apenas como um texto aprovado por políticos (leis) ou uma decisão imposta por juízes, ele se torna uma ferramenta de poder. O inquérito das fake news ou as manobras do orçamento secreto são exemplos do que Grossi chama de "assolutismo jurídico". Os detentores do poder usam a "casca" da lei, o texto frio, divorciado da consciência social, para impor vontades particulares. O Direito deixa de ser um valor observado para ser uma técnica de controle.


3. O Perigo da Interpretação sem Valores


O editorial aponta o ativismo de ministros que "acordam processos dormentes" ou decidem monocraticamente. Grossi, em sua obra, defende que a interpretação é a "vida do direito" e que o juiz deve adaptar a lei à realidade. Porém, há uma diferença crucial: a interpretação saudável busca os valores profundos da sociedade (a Constituição material), enquanto a arbitrariedade denunciada pelo jornal é o uso da técnica jurídica para proteção corporativista.

O problema não é o juiz interpretar, mas interpretar desconectado da "consciência coletiva". O poder vence o Direito quando o intérprete esquece que sua função é servir à sociedade, e não servir-se do cargo.


4. Da Obediência à Observância


O editorial conclui desejando o retorno ao "governo das leis". Grossi nos convidaria a um passo além: precisamos passar da mera "obediência" (passiva, por medo da sanção) para a "observância" (adesão ativa aos valores).

A crise brasileira não se resolverá apenas com mais leis ou mais rigor punitivo. Ela exige o que Grossi chama de "recuperação" do Direito: devolver o jurídico ao seu lugar de origem, o seio da sociedade.

Enquanto o Direito for visto como um instrumento de poder nas mãos de ministros, deputados ou criminosos, ele será sempre "vencido". O Direito só vence quando é reconhecido pelo cidadão comum não como uma ameaça ou uma manobra política, mas como a própria respiração da sociedade, a garantia de que a convivência é possível sem que o mais forte esmague o mais fraco.

Como disse Grossi ao final de sua lição: reivindicar direitos sem reconhecer os deveres de solidariedade social é o caminho para o egoísmo. O Brasil de hoje, infelizmente, parece ter esquecido essa lição elementar.


 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
Viajar: conhecer o mundo ou apenas consumi-lo?

Inspirado pelas memórias de Claude Lanzmann, este ensaio propõe uma pergunta incômoda: quando foi que a viagem deixou de ser um encontro com o desconhecido para tornar-se apenas um catálogo de experiê

 
 
 
Nas margens da lei

Como um manuscrito medieval explica por que interpretar sempre foi tão importante quanto legislar "As leis ocupam poucas linhas. As civilizações jurídicas escrevem o restante nas margens." Por Glênio

 
 
 
A montanha engarrafada

O inverno, a dupla poda e as vinícolas que estão mudando a história do vinho brasileiro. "Há montanhas que produzem pedra. Outras, quando encontram mãos pacientes, produzem história." Por Glênio S Gue

 
 
 

Comentários


bottom of page