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Pare de mentir: você nunca experimentou um rosé de verdade

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 27 de jan.
  • 8 min de leitura
"Seu problema não é com o rosé. É com você mesmo."— Anotação de um sommelier cansado
"Convenhamos: discriminar vinho refrescante em país tropical é, no mínimo, burrice."— Jorge Lucki, Valor Econômico

Por Glenio S Guedes ( advogado )


Em homenagem ao primeiro casal rosé da Gama Filho ( Turma de Direito ) 40 anos depois


Janeiro de 2026 — Enquanto vinícolas francesas desembarcam no Brasil com planos de eventos sofisticados em Fernando de Noronha e Trancoso, apostando que o mercado brasileiro finalmente está pronto para rosés premium, uma parcela significativa dos consumidores ainda torce o nariz para a categoria. O problema? A maioria deles nunca, de fato, experimentou um rosé de verdade.

"Por mais apego que se tenha aos vinhos tintos - eles representam mais de 80% do vinho vendido no Brasil -, está difícil consumi-los no dia a dia com este calor tão típico da estação mais quente do ano", observava Jorge Lucki já em 2016. Quase uma década depois, o paradoxo persiste: vivemos em um país tropical que insiste em rejeitar a bebida mais adequada ao nosso clima.


A revolução que você perdeu enquanto repetia chavões


Os números contam uma história que contradiz frontalmente o preconceito. Entre 2014 e 2022, as importações brasileiras de vinhos rosé saltaram de 1 milhão para 11 milhões de litros - um crescimento de 1000% em menos de uma década. No mesmo período, enquanto brancos cresciam modestos 9%, os tintos caíram 9,7%.

"Tem os rosados e tem os rosés de Provence", provoca Sébastien Nore, diretor global de estratégia do Château Minuty, em passagem pelo Brasil neste início de 2026. A frase resume tudo: quando você diz que "não gosta de rosé", de qual rosé está falando, exatamente?

Do garrafão de R$ 30 do supermercado, adocicado e sem personalidade? Do "rosadinho" que seu tio serve no churrasco? Ou dos rosés premium de Provence que custam entre R$ 500 e R$ 1.778 e que o megaempresário Bernard Arnault, dono da LVMH, considerou dignos de investimento milionário?


Como nasce um rosé (e por que você acha que sabe, mas não sabe)


A sommelière Jessica Marinzeck gosta de fazer uma analogia: "Se você quiser tingir uma blusa no estilo tye-die e deixá-la por pouquinho tempo em contato com uma tinta vermelha, o pano vai ficar rosado. Se deixar por bastante tempo, ele fica vermelho".

Simples, não? O que dá cor aos vinhos são as cascas das uvas tintas. Como quem tinge uma camiseta, o produtor decide a intensidade. Mas há mais camadas nessa história.

Os métodos que você desconhece

Prensagem direta: Uvas tintas levemente maceradas com cascas, contato curtíssimo, seguindo para fermentação sem elas. Resultado: rosés claríssimos, delicados.

Maceração curta: O líquido permanece em contato com cascas durante algumas horas a dois dias na fermentação. Provence domina essa técnica para obter aquela cor "casca de cebola" - salmão quase transparente.

Método saignée (sangria): Duas garrafas, uma remessa de uvas. O produtor retira parte do líquido no início para fazer rosé; o restante vira tinto concentrado.

Corte controlado: Sim, mistura de branco com tinto existe e legalmente. Champagne permite, e muitos espumantes rosés clássicos são blend de Chardonnay com Pinot Noir.

Mas os rosés de topo vão além. No Château d'Esclans, as uvas nem sequer são prensadas em máquinas - o líquido é extraído por gravidade, apenas pelo peso das frutas empilhadas. "Nossos rosés têm diferentes expressões de aromas e sabores, conforme as uvas, que vêm de terroirs distintos, alguns com mais argila, outros com mais calcário", explica Diego de Kerhor, embaixador da vinícola.

O resultado dessas técnicas refinadas? O Garrus, rosé premium do d'Esclans feito com uvas de vinhedos centenários, custa R$ 816. O Étoile, da Domaine Ott, R$ 1.778. Ainda acha que é "vinho de segunda categoria"?


A história que você não conhece (e deveria)


Seu preconceito contra rosé não é original - é herdado. E tem explicação histórica.

O vinho rosé explodiu após a Segunda Guerra Mundial na Provença como solução para o calor do sul da França. O sucesso foi tão estrondoso que virou catástrofe: produtores sem técnica nem terroir adequado inundaram o mercado com rosés horríveis. A categoria afundou, carregando o estigma de "vinho mal feito" por décadas.

"Como sempre, pode demorar um pouco, mas a verdade sempre aparece", pontua Jorge Lucki. E a verdade era amarga: na Antiguidade, vinhos mais claros eram considerados "vinho preto", bebida inferior reservada a escravos.

O renascimento que mudou tudo

No final dos anos 1990, Sacha Lichine fez uma aposta audaciosa: trocou o prestigioso Château Prieuré-Lichine, de Margaux, para investir em rosés na Provença. Junto ao lendário enólogo Patrick Léon (ex-Château Mouton Rothschild), revolucionou a elaboração: macerações ultrafinas, estágio em barricas de carvalho, seleção rigorosa de terroirs.

Nasceu o Whispering Angel. E o mundo do vinho nunca mais foi o mesmo.

A transformação foi tão significativa que atraiu Bernard Arnault, que adquiriu tanto o Château d'Esclans quanto o Minuty - colocando rosés no mesmo portfólio de Dom Pérignon e Moët & Chandon. Brad Pitt entrou na jogada com o Miraval (R$ 532 no Brasil). Dolce & Gabbana lançou o Rosa com a Donnafugata siciliana (R$ 538).

"Estamos em uma categoria distinta dos rosés mais adocicados e de maior extração", reforça Sébastien Nore. A Organização Internacional da Vinha e do Vinho confirma: a produção aumentou 25% entre 2001 e 2021.


Os cinco mitos que você repete (sem nunca ter checado)


Mito 1: "Rosé é mistura de tinto com branco"

Realidade: Na maioria esmagadora dos casos, não. É processo específico com uvas tintas. Quando há blend legal (como em Champagne), é técnica regulamentada, não gambiarra.

Mito 2: "Rosé é vinho doce"

Realidade: "Existem rosés desde os mais secos aos, de fato, adocicados. A quantidade de açúcar residual no vinho é sempre uma decisão do produtor", explica Jessica Marinzeck. Os rosés premium de Provence são tipicamente secos.

Mito 3: "Rosé é bebida de mulher"

Realidade: Enquanto você se preocupa com "masculinidade", Bernard Arnault investe milhões, Brad Pitt produz, e Patrick Léon - que fez carreira no Mouton Rothschild - dedica-se a aperfeiçoá-los. Seu machismo diz mais sobre você do que sobre o vinho.

Mito 4: "Rosé é só para o verão"

Realidade: "O rosé é incrivelmente versátil e pode ser harmonizado com uma ampla gama de pratos, desde saladas leves e frutos do mar até pratos mais substanciais como carnes grelhadas e queijos", afirma Ricardo Morari, presidente da Associação Brasileira de Enologia.

Mito 5: "Rosé não envelhece"

Realidade: Muitos não envelhecem mesmo - são feitos para consumo jovem. Mas rosés de regiões como Tavel, na França, podem desenvolver complexidade por anos. O ponto é: nem todo vinho precisa envelhecer décadas para ser excelente.


Instagram, celebridades e o fator que você despreza


"Muita gente passou a relacioná-lo com o estilo de vida dos ricos da Côte d'Azur e acredito que o Instagram tenha uma boa parcela de responsabilidade em fazer essa tendência acontecer", observa Jessica Marinzeck.

É aqui que o preconceito brasileiro se revela especialmente provinciano. Enquanto enófilos torcem o nariz para rosé por ser "instagramável", ignoram que a visibilidade nas redes sociais simplesmente ampliou o alcance de vinhos que já eram excelentes.

Jon Bon Jovi, Sarah Jessica Parker, Drew Barrymore, Snoop Dog, Cameron Diaz, Kylie Minogue, Sting, John Legend - todos têm rosés. Não porque são vinhos ruins vendidos por celebridades, mas porque rosé premium virou símbolo de luxo descontraído, perfeitamente alinhado com o zeitgeist contemporâneo.

"É difícil imaginar um evento badalado sem vinho rosé nas taças. Ou uma pool party em que o charme da bebida rosada não esteja presente", constata Sergio Crusco. E se você acha isso "superficial", talvez o problema esteja na sua dificuldade de aceitar que sofisticação não precisa ser sisuda.


O Brasil pode superar a roseofobia?


Os sinais são contraditórios. Por um lado, importações explodiram 1000% entre 2014 e 2022. Por outro, rosés ainda representam apenas 7,9% do mercado (contra 71,3% de tintos e 20,8% de brancos).

"Nosso mercado baseia-se muito no que acontece na Europa e nos Estados Unidos. Com o rosé, não foi diferente", explica Ricardo Morari. O problema é que copiamos com atraso - e seletivamente.

A transformação nas vinícolas brasileiras

"No começo, muitos produtores brasileiros acreditaram que a tendência do vinho rosé seria uma moda passageira, mas a categoria tem crescido e se consolidado em números e qualidade", relata Morari.

De 10 ou 15 anos para cá, houve melhora significativa: técnicas de prensagem mais controladas, estudo afinado das temperaturas de fermentação. "Esse aprimoramento ajudou a tirar o rosé da condição de 'vinho de segunda linha'", avalia o enólogo da Cooperativa Garibaldi.

Andrea Ferreira, analista da Product Audit, resume: "É um vinho que não requer pompa e elegância. O brasileiro percebeu que é leve, bom para o nosso clima e, em muitos casos, uma opção mais barata".


Harmonizações brasileiras: do boteco ao gala


A versatilidade do rosé brilha na culinária tropical:

No boteco: Bolinhos, croquetes de mandioca com carne seca, iscas de peixe, manjubas. "Se você pensou em acarajé, está no caminho certo", aprova Jessica. A acidez do rosé corta a gordura perfeitamente.

Na praia: Ostras com rosés clarinhos. Moqueca de camarão com mais encorpados. Sushis, sashimis, crudos.

No jantar: Carnes cruas (tartare, carpaccio, quibe), embutidos (copa, salaminho, presunto cru), pratos com tomate (risotos, caprese, gazpacho).

Temperatura: 8°C a 12°C, em taças de bojo grande - as mesmas dos brancos.


O perigo dos excessos: a segunda queda pode estar chegando


Há um alerta urgente. "A leva de rosés medíocres que, aproveitando-se da abertura, entrou de sola no mercado, tenta impressionar à primeira vista", adverte Jorge Lucki. "É pela cor, pelo corpo, pelo álcool elevado, e, pior de tudo, por um indisfarçável e proposital toque adocicado."

Esses produtos baratos e mal elaborados alimentam exatamente os preconceitos que levaram décadas para serem superados. É o ciclo vicioso: vinhos ruins geram má reputação, má reputação afasta consumidores sérios, mercado enche de produtos piores ainda.

"Um bom rosé deve ser alegre - a cor ajuda -, nem diluído nem encorpado, não destoar na graduação alcoólica. E o principal: que tenha frescor. É a boa acidez que dá equilíbrio", ensina Lucki.

A elaboração de qualidade "começa no vinhedo, na escolha da hora certa de vindimar - não há como compensar uvas sobremaduras na vinificação". Exige os mesmos cuidados de qualquer grande vinho.


Convenhamos: você está errado e o mundo sabe disso


Chegamos ao cerne da questão. Enquanto a LVMH planeja eventos de luxo em Fernando de Noronha e Trancoso para promover seus rosés premium no Brasil em 2026, enquanto Provence fatura milhões com vinhos perfeitamente adequados ao clima tropical, enquanto dados mostram crescimento explosivo de uma categoria que "ninguém leva a sério"…

…você continua repetindo que "rosé não presta" baseado naquele garrafão que tomou numa festa há cinco anos.

"No fundo, é o renascimento de um vinho que foi moda nas décadas de 1950 e 1960 e entrou em decadência vítima de seu próprio sucesso", contextualiza Jorge Lucki. A história está se repetindo - mas desta vez, com produtores conscientes da importância de manter a qualidade.

A pergunta não é mais se rosé é bom. A pergunta é: quando você vai admitir que estava errado?


Epílogo: o teste definitivo


Aqui vai um desafio simples: antes de criticar rosé novamente, experimente um dos seguintes:

  • Château d'Esclans Whispering Angel (em torno de R$ 200-300)

  • Château Minuty Prestige (faixa similar)

  • Miraval de Brad Pitt (R$ 532) - o real, não o criado por IA !

Sirva gelado (10°C), em taça adequada, acompanhado de frutos do mar frescos ou um bom carpaccio. Então, e só então, volte a me dizer que "não gosta de rosé".

Porque aí não será mais sobre o vinho. Será, como disse aquele sommelier cansado, sobre você mesmo.

Conclusão: A sofisticação que o Brasil insiste em rejeitar

"Por sorte (ou por mérito), os vinhos rosés ultrapassaram, há algumas décadas, o status de ser um subproduto dos tintos", escreve Suzana Barelli no Estadão. "E, mais do que isso, depois do enorme crescimento de seu consumo, os rosados agora se destacam em uma categoria, digamos, premium."

O mundo mudou. Provence virou sinônimo de luxo. Bernard Arnault apostou milhões. O mercado brasileiro cresceu 1000%. Celebridades lançam marcas próprias. Técnicas de elaboração atingiram sofisticação impensável.

E você? Ainda preso em preconceitos de quando rosé era, de fato, mal feito. Ignorando dados, ignorando técnica, ignorando lógica, ignorando até o clima do país onde vive.

"Convenhamos: discriminar vinho refrescante em país tropical é, no mínimo, burrice."

Não poderia ter dito melhor, Jorge Lucki.


 
 
 

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