Pensar sob tutela: a heteronomia epistêmica na filosofia colonial do Brasil e da Colômbia
- gleniosabbad
- 19 de nov. de 2025
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Por Glênio S Guedes ( advogado )
1. Introdução
Brasil e Colômbia constituem dois dos maiores laboratórios intelectuais da colonização ibérica na América do Sul, cada qual oferecendo modelos distintos de implantação e reprodução da dependência epistemológica entre os séculos XVI e XVIII. Em ambos, o pensamento filosófico colonial não emergiu como fruto de inquietações internas, mas sim como resultado de modelos pedagógicos, teológicos e institucionais importados da metrópole. Trata-se da condição que denominamos heteronomia epistêmica, isto é, o pensar sob tutela — quando o regime de verdade, os currículos, os métodos e a própria possibilidade de questionar são definidos externamente.
O objetivo deste artigo é examinar como essa heteronomia se configurou no Brasil e na Colômbia durante o período colonial, identificar suas instituições e mecanismos e, por fim, analisar se essa herança deixou consequências estruturais na maneira de pensar em cada país. Ao final, buscamos responder a uma pergunta decisiva: as formas contemporâneas de pensamento no Brasil e na Colômbia ainda carregam os contornos da tutela epistêmica colonial?
2. A ideia de heteronomia epistêmica no espaço colonial
Entende-se por heteronomia epistêmica a condição pela qual uma sociedade não determina seus próprios critérios de verdade, não controla suas instituições cognitivas e não define o que pode ser pensado ou ensinado. Em vez disso, opera dentro de um regime intelectual imposto por uma autoridade externa.
Esse fenômeno se manifesta por meio de:
currículos importados;
censuras eclesiásticas e civis;
instituições de ensino subordinadas;
ausência de disputas filosóficas autônomas;
dependência de manuais e bibliografias externas.
A América ibérica foi terreno fértil para essa estrutura de dependência, mas Brasil e Colômbia vivenciaram-na de modos muito diferentes — fato que será demonstrado adiante.
3. A filosofia colonial na Colômbia: uma escolástica derivada, porém ativa
A Colômbia colonial — então Nova Granada — consolidou, desde o século XVI, uma rede de colégios maiores e universidades, como o Colegio Mayor del Rosario, a Universidade de Santo Tomás e a Universidade Javeriana. Esses centros adotavam rigorosamente o currículo escolástico espanhol, baseado em Aristóteles, Tomás de Aquino, Francisco Suárez e nos manuais de Salamanca e Alcalá.
Apesar da subordinação ao modelo europeu, a Colômbia colonial desenvolveu:
produção manuscrita própria,
exercícios reais de disputas teológicas,
vida acadêmica contínua,
reflexões sobre temas locais, como o estatuto jurídico dos povos indígenas.
Havia, pois, uma forma de filosofia derivada, mas não inexistente. O pensamento colonial colombiano operou dentro de limites rígidos, mas produziu conteúdo, formando elites letradas e uma tradição escolástica que perduraria por séculos.
Podemos caracterizar esse modelo como:
heteronomia epistêmica institucionalizada — dependência estrutural, com atividade intelectual reprimida, mas existente.
4. A filosofia colonial no Brasil: catequese, moral e silêncio
A experiência brasileira é mais radical. Durante todo o período colonial:
não houve universidades,
não houve disputas filosóficas,
não houve produção teórica derivada,
não houve tradição escrita sistemática.
A educação ficou sob controle quase absoluto dos jesuítas e sua pedagogia moral, baseada no Ratio Studiorum. Os colégios jesuítas funcionavam como centros de catequese, disciplinamento e moralização da vida colonial, mais do que como espaços de debate filosófico.
O pensamento brasileiro colonial pode ser resumido no que a historiografia chama de moralismo ou Saber da Salvação, conjunto de ideias voltadas para:
disciplinar comportamentos;
orientar almas;
legitimar a ordem social;
formar pregadores e administradores;
reforçar a hierarquia política e religiosa.
A economia rural, escravista e latifundiária, somada à altíssima taxa de analfabetismo e à ausência de imprensa, inibiu qualquer possibilidade de formação de elites letradas críticas.
Assim, o Brasil colonial não apenas viveu sob tutela epistêmica: foi privado das condições mínimas para produzir pensamento filosófico autônomo ou mesmo derivado.
5. Dois modelos de pensamento tutelado: um comparativo
A comparação entre Brasil e Colômbia evidencia dois modos distintos de heteronomia.
5.1. Semelhanças
regime de saber imposto pela metrópole;
ausência de autonomia curricular;
teologia como matriz do pensamento;
censura e limitação ao debate crítico.
5.2. Diferenças profundas
Critério | Colômbia | Brasil |
Instituições | Universidades desde o séc. XVI | Nenhuma até o séc. XIX |
Produção filosófica | Escolástica derivada, porém ativa | Moralismo catequético |
Debate | Disputationes, teses, controvérsias | Rituais pedagógicos sem debate real |
Contato com a realidade | Discussão sobre indígenas, direito e teologia | Catequese, disciplina social e administração |
Forma de tutela | Intelectual-universitária | Pastoral e moral |
Intensidade da dependência | Alta | Máxima |
A fórmula síntese é clara:
A Colômbia pensou dentro do molde imposto. O Brasil foi moldado para pensar pouco.
6. Heranças e consequências nas formas contemporâneas de pensar
6.1. Colômbia: tradição letrada dependente
A vida universitária colonial deixou como herança:
uma cultura intelectual mais antiga,
maior valorização do texto e da argumentação,
continuidade institucional do saber,
porém forte apego à tradição e lenta modernização filosófica.
A Colômbia herdou uma escolástica longa, que formou elites disciplinadas, mas pouco inovadoras.
6.2. Brasil: pragmatismo tardio e dependência estrutural
No Brasil, a ausência de tradição filosófica colonial contribuiu para:
o atraso na criação de universidades,
uma relação pragmática com o conhecimento,
dependência constante de modelos externos,
valorização do imediato e da moral sobre a teoria,
desconfiança histórica do pensamento abstrato.
A heteronomia brasileira foi tão profunda que o país demorou mais que qualquer outro grande território ibérico para construir instituições próprias de debate filosófico.
7. Conclusão
Brasil e Colômbia representam dois modelos distintos do pensar sob tutela na América do Sul. Ambos viveram sob heteronomia epistêmica, mas em escalas e profundidades diferentes. A Colômbia desenvolveu uma escolástica derivada e universitária; o Brasil consolidou uma pedagogia moralizante que praticamente abafou a filosofia enquanto prática intelectual.
À luz do comparativo histórico e institucional delineado, é possível afirmar com precisão que:
entre os grandes territórios da colonização ibérica na América, o Brasil foi o país que experimentou a forma mais profunda, prolongada e estrutural de heteronomia epistêmica.
Essa condição decorreu de fatores singulares: ausência de universidades coloniais; dependência quase total da pedagogia jesuítica; economia escravista e rural; analfabetismo generalizado; inexistência de imprensa; e tardia institucionalização do ensino superior. Enquanto a Colômbia pensava dentro dos limites impostos, o Brasil foi moldado para pensar pouco — e quase sempre segundo a lógica moral de seus administradores e missionários.
Compreender a profundidade dessa tutela não é resignar-se a ela: é reconhecê-la para superá-la. A autonomia epistêmica latino-americana começa ao saber de onde pensamos e como fomos ensinados a pensar sob vigilância.
Bibliografia
Pachón Soto, Damián. Estudios sobre el pensamiento colombiano. Volumen I.
História da Filosofia no Brasil. Editora Intersaberes.


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