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Porfírio Barba

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 1 de set. de 2025
  • 2 min de leitura

Atualizado: 2 de set. de 2025

Porfírio Barba Jacob, o que pensas de Brasil e Colômbia?

Undívagos, demasiado undívagos…


Por Glenio S. Guedes ( advogado)


Confesso, sem rodeios: meu poeta colombiano preferido é Porfírio Barba Jacob. Enigmático até a loucura, ou loucamente enigmático. Escrevia do limite, com a clareza dos que veem além.

Deixou-nos um poema que ressoa como advertência: “Canção da Vida Profunda”. Ali se diz que a vida oscila como pêndulo, entre esperança e dor, dia e noite, júbilo e desencanto.


“Há dias em que somos tão lúgubres, tão lúgubres...”


É também o retrato de Brasil e Colômbia. Nações que ensaiam grandeza, mas tropeçam em contradições seculares. Dores que se repetem: violência, desigualdade, promessas adiadas.


Riquezas inertes


O Brasil guarda a Amazônia. A Colômbia, jardins de vida múltipla. Juntos, reúnem aves e rios em abundância sem igual. No entanto, permanecem como Barba Jacob os chamou: undívagos.

Errantes, incertos, sonâmbulos. O mundo espera liderança; nós nos demoramos diante do espelho, adolescentes tardios.


O sonho sul-americano


Pergunto: e se deixássemos de apenas sonhar, para enfim caminhar? E se, em lugar de fragmentados, nos assumíssemos como um só continente, dotado de voz própria?


“E há dias em que somos tão plácidos, tão plácidos...”


Há também dias luminosos. Quando a juventude dança, quando a arte floresce, quando se toca o céu. Mas passam depressa, e ficamos outra vez a meio caminho.

A América do Sul é um gigante que desperta tarde, com as marcas do travesseiro ainda no rosto.

E acrescento: ver dois países tão ricos, um continente tão plúrimo e opulento, refém de histórias coloniais, é devastador. Dá vontade de rasgar constituições, fundi-las em uma só, e nela inscrever apenas um artigo: façam jus às suas potências, caramba!


O ideal que me move


Minha ideologia não é de esquerda nem de direita. É fruto de um ideal. Sonho com uma Constituição única, não semântica ou decorativa, mas normativo-efetiva: carta viva, cumprida no real.

Sonho com uma moeda única, com dois idiomas potentes —português e espanhol— e com um só Legislativo, Judiciário e Executivo que sirvam a todos. Uma única cidadania: sul-americana.

E que cada cidadão permita emergir seu lado Barba Jacob: não em interesse próprio, mas em busca do bem comum. Líderes justos, imparciais, responsáveis.


O professor que imagino


Se eu fosse professor de literatura colombiana, desejaria ser o mestre de A Sociedade dos Poetas Mortos, vivido por Robin Williams. Levaria meus alunos às ruas da Candelária, livro em mãos, para ler Porfírio em voz alta.

Juntar-se-ia a nós Merlí, com seus peripatéticos, lembrando que se pensa melhor caminhando. E, nesse cortejo imaginário, viriam também os fantasmas da cidade: La Loca Margarita, delirante e lírica, recitando versos, e o advogado José Raimundo Russi, morto no século XVI, cuja alma —dizem— ainda clama inocência diante de juízes que o traíram.

Seria uma aula incomum: procissão de vivos e mortos, de poesia, filosofia e justiça, interpelando-nos sem descanso.


A lucidez do delírio


Chamaram Porfírio de louco. Era, antes, lúcido no delírio. Mostrou-nos que entre extremos há sempre escolha.

Hoje, precisamos dessa mesma loucura. O mundo clama por respostas; a América do Sul insiste em dormir.

Não podemos ser eternamente undívagos. O tempo de apenas sonhar já passou. É hora de assumir a lucidez de Porfírio e, enfim, tornarmo-nos protagonistas de nossa história.

 
 
 

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