Posso falar de relacionamento amoroso e coisas que tais enquanto o mundo está acabando?
Dos problemas que temos no mundo ao pequeno problema de continuarmos tendo um
“O que separa o homem dos bichos é que o homem sabe que é irracional.” — Luis Fernando Verissimo
Por Glênio S Guedes (advogado)
Claro que pode.
Pode falar de amor, sobretudo. De amores começados, terminados e, categoria talvez mais numerosa, daqueles que ninguém sabe exatamente em que estado se encontram. Pode discutir se o silêncio de três horas no WhatsApp constitui abandono afetivo, estratégia de sedução ou apenas uma bateria descarregada. A humanidade atravessou pestes, guerras e terremotos sem jamais perder completamente o interesse pela pergunta essencial: “Por que ele não respondeu?”
Pode também falar de Daniel Vorcaro e do Banco Master. Pode discutir bancos, banqueiros, empréstimos, liquidações, investigações e todas essas delicadezas mediante as quais o dinheiro, que já era abstrato, consegue às vezes tornar-se metafísico. Um escândalo financeiro, além do mais, possui apreciáveis vantagens narrativas: tem personagens, cifras, depoimentos, suspeitas, episódios novos e, se a fortuna colaborar, alguma contradição por dia. O clima não dispõe de semelhante assessoria de imprensa.
Pode falar das contas públicas. Deve, aliás. Déficits não desaparecem quando fechamos os olhos, embora sucessivos governos tenham dedicado considerável talento experimental à hipótese contrária. Dívida, gasto, arrecadação, juros e responsabilidade fiscal não são minudências. Um país que perde a capacidade de organizar suas contas acaba descobrindo que a aritmética, ao contrário do eleitor, não se impressiona com discursos.
Pode falar das eleições, do Supremo, do Congresso, da última declaração de alguma autoridade, da penúltima indignação das redes sociais e do próximo escândalo, que terá a delicadeza de nos fazer esquecer o atual.
Pode falar de futebol.
Pode falar de tudo.
Há apenas uma condição, tão modesta que quase constrange mencioná-la: convém que continue existindo um mundo onde possamos fazê-lo.
Eis o pequeno inconveniente.
Talvez tenhamos confundido duas categorias bastante diferentes: os problemas que temos no mundo e os problemas que ameaçam as condições de continuarmos tendo um mundo humano habitável no qual possamos tê-los.
Convém fazer a distinção. A Terra provavelmente sobreviverá a nós. Tem idade, experiência e não consta que dependa de nossos pareceres. O que está em questão não é propriamente a sobrevivência desta esfera mineral que gira em torno do Sol, mas a estabilidade climática, ecológica, econômica e social que permitiu à civilização humana fazer coisas tão extraordinárias quanto escrever sinfonias, construir hospitais e discutir relacionamentos pelo WhatsApp.
Uma crise bancária pode ser gravíssima. A irresponsabilidade fiscal pode empobrecer gerações. Uma crise institucional pode corroer uma democracia. Nada disso merece desprezo. Mas ainda discutimos bancos, déficits e instituições dentro de uma moldura que tomamos por garantida: haverá amanhã.
O clima introduz certa impertinência nessa conversa.
Enquanto examinamos os problemas da semana, ele insiste em apresentar a conta do século.
E há uma ironia adicional. A irresponsabilidade fiscal e a irresponsabilidade climática, embora sejam fenômenos inteiramente distintos, conhecem uma tentação parecida: usufruir no presente e remeter a fatura ao futuro. Gasta-se agora, alguém pagará depois. Emite-se agora, alguém suportará depois. Em ambos os casos, a posteridade desempenha um papel fiscal muito conveniente: não vota, não protesta e ainda não contratou advogado.
Talvez por isso certas ameaças nos mobilizem tão pouco. O ser humano reage admiravelmente ao próximo, ao imediato, ao visível. O amante que não respondeu tem nome. O banqueiro tem rosto. O déficit tem número. O político aparece na televisão.
Já uma tendência climática de décadas tem a péssima educação de ser estatística.
Somos excelentes para perceber um tigre atrás da árvore. Temos alguma dificuldade quando o tigre é uma curva num gráfico.
Não se deve, portanto, censurar demasiadamente a espécie. Entre uma ameaça difusa para daqui a décadas e o boleto que vence amanhã, o boleto possui notável poder de argumentação. Entre a elevação da temperatura média do planeta e uma dor amorosa às duas da madrugada, compreende-se que a segunda pareça mais quente.
O problema começa quando essa limitação psicológica se transforma em método político.
Sabemos que certas consequências de nossas escolhas ultrapassam eleições, governos e gerações. Sabemos que alguns riscos se acumulam lentamente até deixarem de ser lentos. Sabemos até que sabemos.
É justamente aí que Verissimo se torna inconveniente: o homem distingue-se dos bichos porque sabe que é irracional.
O bicho, ao menos, dispõe de álibi.
Nós temos relatórios.
E, como se um risco civilizacional não fosse suficiente para ocupar uma espécie tão diligente, acrescentamos outro assunto à agenda: a inteligência artificial e o poder das grandes empresas tecnológicas.
Convém aqui não misturar os apocalipses. Mudança climática e riscos extremos associados à inteligência artificial não possuem a mesma natureza, o mesmo grau de conhecimento, a mesma previsibilidade nem idêntico consenso científico. Compará-los não significa equipará-los.
Mas há uma inquietação comum: ambos nos obrigam a pensar em consequências capazes de ultrapassar o indivíduo, a empresa, o Estado e a geração presente.
As grandes plataformas já não se limitam a oferecer produtos. Organizam atenção, selecionam informações, modulam comportamentos e ajudam a formar ambientes de percepção. A inteligência artificial acrescenta a isso uma velocidade tecnológica diante da qual o Direito e a política frequentemente parecem cavalheiros muito corretos que chegaram atrasados à estação.
Hão de alcançar o trem, naturalmente.
Convém apenas pedir às empresas que diminuam o passo.
Enquanto isso, discutimos regulamentação depois que a tecnologia chegou, responsabilidade depois que o dano apareceu e limites depois que o poder se consolidou. É uma velha especialidade humana: construir primeiro o navio e, em alto-mar, constituir uma comissão para deliberar se teria sido prudente levar botes.
Nada disso significa que devamos abandonar os amores, os bancos, o orçamento ou o futebol para passar as refeições discutindo emissões de carbono e riscos tecnológicos. Uma humanidade que salvasse o planeta, mas proibisse conversas inúteis, paixões desastradas e uma ou outra discussão sobre impedimento talvez tivesse preservado a espécie à custa de boa parte da razão para preservá-la.
O cotidiano não é inimigo das grandes questões.
É aquilo que está em jogo nelas.
Queremos estabilidade climática porque queremos continuar tendo casas, cidades, colheitas, viagens, livros, instituições e pessoas a quem amar. Queremos tecnologias submetidas a algum controle humano porque desejamos que continuem existindo seres humanos suficientemente livres para decidir o que fazer delas.
Portanto, falemos de relacionamento amoroso e coisas que tais.
Sem culpa.
Apenas seria prudente reservar alguns minutos para uma questão menos urgente: em que mundo continuaremos discutindo nossos problemas?
Porque talvez esta seja a mais refinada de nossas irracionalidades: preocuparmo-nos apaixonadamente com o que faremos amanhã e apenas ocasionalmente com a existência do amanhã...


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