San Millán de la Cogolla: O Berço Escrito da Língua Castelhana
- gleniosabbad
- 6 de set. de 2025
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San Millán de la Cogolla: O Berço Escrito da Língua Castelhana
Autoria
Glênio S. Guedes (advogado, Brasil)
Resumo
Este artigo explora o significado histórico e cultural dos mosteiros, ou monastérios, de Suso e Yuso, em San Millán de la Cogolla, La Rioja, como o berço simbólico da língua castelhana. Analisa-se o contexto da transição do latim vulgar para o romance e o papel fundamental das Glosas Emilianenses, anotações manuscritas no Códice Emilianense 60, como o primeiro testemunho escrito da nova língua. Com especial atenção à Glosa 89, destaca-se o seu caráter de oração, que confere um nascimento espiritual à prosa espanhola. O texto aborda a natureza do códice, a identidade incerta do glosador e a importância desses primeiros “vagidos” escritos para a consolidação de um dos idiomas mais falados do mundo, sublinhando como a arquitetura monástica e a paisagem riojana se tornaram o cenário para o nascimento de uma identidade linguística.
Palavras-chave: Glosas Emilianenses; San Millán de la Cogolla; nascimento do castelhano; Códice Emilianense 60; Mosteiros de Suso e Yuso.
Introdução
Nas dobras silenciosas do tempo, onde a história se confunde com a lenda e a pedra guarda o eco de orações milenares, há lugares que são mais do que geografia: são destino, epifanias, mistério. San Millán de la Cogolla, aninhado nos vales de La Rioja, é um desses lugares. Não é apenas uma paisagem de vinhas e montanhas, mas também o cenário em que uma língua — a castelhana — ousou, pela primeira vez, reconhecer-se no pergaminho.
Falar de San Millán como o “berço da língua” é, sem dúvida, uma metáfora, pois uma língua não nasce num dia exato nem num ponto concreto do mapa: ela se faz no lento e contínuo murmúrio de um povo. No entanto, é aqui, entre os muros de seus dois mosteiros, que encontramos a sua certidão de nascimento: as Glosas Emilianenses. Este artigo, inspirado pela reverência que os lugares de memória merecem, percorre os caminhos de pedra e silêncio que levaram um monge anônimo a realizar o ato revolucionário de escrever como falava, batizando assim, talvez sem o saber, um idioma universal.
Quando ali estive pessoalmente, caminhando por Suso e Yuso, senti-me tomado por um respeito quase místico diante do ambiente. O silêncio das paredes, a harmonia da arquitetura e a carga espiritual do lugar reforçaram em mim a percepção de que não se tratava apenas de monumentos históricos, mas de testemunhas vivas do nascimento de uma língua.
1. Os Mosteiros: Suso e Yuso, Coração de Pedra e Espírito
Para entender o nascimento, é preciso conhecer o ventre. Em San Millán, esse ventre são dois mosteiros, distintos em sua forma, mas unidos por uma única história e propósito: a devoção a San Millán.
O de Suso, o de cima, é um eremitério de silêncio, cravado na montanha como um elemento da própria paisagem. Ali, onde o santo buscou refúgio e onde seu corpo foi inicialmente sepultado, misturam-se estilos que narram séculos de fé: do visigótico ao moçárabe e ao românico. Suso é a semente, o lugar da inspiração austera, um centro de peregrinação, religiosidade e cultura desde o século VII.
Abaixo, no vale, ergue-se Yuso, grandioso em sua arquitetura e generoso em seus espaços. Inaugurado em 1067, é a expansão, a imponente fábrica de saber que abrigou a vida monástica beneditina até o século XIX. Seus claustros, sua imensa biblioteca e seus cantorais falam de uma cultura estabelecida e florescente. Embora hoje sejam edifícios distintos, historicamente formaram uma única comunidade, um só coração pulsante de fé e conhecimento, cujo scriptorium seria o palco do alumbramento da língua.
2. A Língua que se Faz: Do Latim ao Romance
No alvor da Idade Média, a Península Ibérica vivia uma profunda dicotomia linguística. O latim, língua da liturgia, da lei e do saber, era a única forma de escrita culta. No entanto, nas ruas, nos campos e até nos corredores dos mosteiros, o povo já não falava o latim de Cícero, mas um “latim vulgar” em constante transformação, uma mescla que, ao longo de séculos de isolamento de Roma e do contato com visigodos e árabes, se tornara outra coisa.
Esta nova fala — o romance — era a língua do coração, o veículo das vivências e dos sentimentos cotidianos. Era uma língua viva e dinâmica, mas ágrafa, sem representação no pergaminho. O latim dos códices tornara-se ininteligível para o povo, e mesmo para os clérigos de menor formação, a sua compreensão exigia um esforço crescente. Foi dessa necessidade de ponte, desse abismo entre a palavra escrita e a palavra falada, que nasceram as glosas.
3. O Códice 60 e o Nascimento da Palavra Escrita
Longe de ser uma joia artística, o Códice Emilianense 60 é um manuscrito modesto. Seu pergaminho é de baixa qualidade, seu formato é pequeno, quase de bolso, e carece de ornamentos e cores. Foi, como o descreve o Padre Olarte, um “livro de batalha”, um manual de formação para monges, com textos sobre moral, vidas de santos e sermões, intensamente usado, como atestam suas páginas gastas. O original, escrito provavelmente entre o final do século IX e o início do século X, hoje repousa na Real Academia de la Historia, em Madrid.
É neste humilde códice que um ou vários monges anônimos, em algum momento provavelmente na primeira metade do século XI, começaram a semear anotações. São as Glosas Emilianenses: pequenas explicações, escritas entre as linhas ou nas margens, com a intenção de aclarar o texto latino. Este ato, de uma humildade comovente, era uma revolução. O glosador, talvez um jovem estudante lutando com a sintaxe latina, um professor preparando uma lição, ou um pregador traduzindo para seus fiéis, sentiu a necessidade de recorrer à única ferramenta que possuía para desvendar o texto: sua própria língua.
As glosas aparecem em latim mais simples, em basco (dando também a esta língua um de seus primeiros testemunhos escritos) e, o mais importante, em romance. Palavras como sanos et salvos para explicar incolumes, caigamus para precipitemur, ou fere para facere, demonstram um sistema linguístico já formado, que já não é latim, mas um embrião do que viria a ser o castelhano, com influências riojanas, navarras e aragonesas.
4. A Glosa 89: O Primeiro Vagido da Língua foi uma Oração
Entre as mais de mil glosas do códice, uma brilha com luz própria: a Glosa 89. No fólio 72r, à margem de uma homilia atribuída a Santo Agostinho, o monge se depara com a doxologia final em latim: Adjubante domino nostro Jesu Christo.... Sentindo-a talvez obscura ou distante, ele não apenas a traduz, mas a reza em sua própria língua:
Cono ajutorio de nuestro dueno, dueno Christo, dueno salvatore, qual dueno get ena honore, e qual duenno tienent ela mandatione cono patre, cono spiritu sancto, enos sieculos de lo sieculos.
E, não contente, acrescenta do seu próprio fervor uma súplica que já não está no original, uma criação espontânea:
Facanos Deus omnipotes tal serbitio fere ke denante ela sua face gaudioso segamus. Amen.(Conceda-nos Deus onipotente realizar tal serviço que diante de sua face sejamos felizes. Amém.)
Nestas 43 palavras, a língua castelhana não apenas se manifesta pela primeira vez em prosa contínua, mas o faz de forma lírica e espiritual. Dámaso Alonso observou que, enquanto o primeiro documento francês é um juramento militar e o italiano uma disputa de terras, “o primeiro vagido da língua espanhola é, pois, uma oração”. A língua castelhana nasce a falar com Deus. Este batismo confere-lhe uma dignidade única, prenunciando os cumes de espiritualidade que alcançaria com São João da Cruz ou Santa Teresa.
Conclusão
Mais do que um nascimento, as Glosas Emilianenses foram uma revelação: a constatação de que a fala do povo, a lingua roman paladino, tinha dignidade para ser gravada no pergaminho. O monge anônimo de San Millán, ao aclarar um texto para si ou para outros, deu corpo e alma a um idioma.
Aquelas palavras tímidas, comparáveis a “aldeãs amontoadas umas contra as outras”, foram a nascente de um rio caudaloso que atravessaria oceanos e séculos.
Os mosteiros de Suso e Yuso, declarados Patrimônio da Humanidade pela UNESCO em 1997, não são apenas edifícios de valor artístico ou religioso, mas também monumentos a uma língua. Suas pedras guardam a memória do instante em que a voz de um povo encontrou a sua escrita e, com ela, a porta para a imortalidade.
Minha própria experiência, estando em San Millán, reforça essa dimensão: ali compreendi que o espanhol, ainda balbuciante, encontrou-se a si mesmo e começou a sua assombrosa viagem pelo mundo.
Referências
ALVAR, M. (1989). “De las glosas emilianenses a Gonzalo de Berceo”. Revista de Filología Española, LXIX, pp. 5-38.
ALVAR, M. “Preámbulo”. En Las Glosas emilianenses y silenses. p. 10.
DÍAZ Y DÍAZ, M. (1978). Las primeras glosas hispánicas. Barcelona.
GARCÍA TURZA, C.; MURO, M. A. (1991). Glosas Emilianenses. Estudio preliminar. La Rioja.
HERNÁNDEZ ALONSO, C. “Las Glosas. Interpretación y estudio linguístico”. En Las Glosas emilianenses y silenses, pp. 74-82.
MENÉNDEZ PIDAL, R. (1976). Orígenes del español. Estudio lingüístico de la Península Ibérica hasta el siglo XI. Madrid.
OLARTE, J. B. (1997). “En torno a las ‘glosas emilianenses’”. Introducción a las glosas emilianenses. Logroño.


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