SE MACHADO DE ASSIS E SCHOPENHAUER FOSSEM CHAMADOS A OPINAR SOBRE A REFORMA TRIBUTÁRIA BRASILEIRA
- gleniosabbad
- 3 de dez. de 2025
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Uma SÁTIRA MENIPEICA em cinco atos, com risos, dores, fantasmas e impostos
Por Glênio S Guedes (advogado )
ATO I — A SESSÃO ESPIRITUAL NO PLENÁRIO
Deu-se que, numa noite sem quórum, o Senado convocou dois mortos ilustres para explicar a reforma tributária ao povo brasileiro. Vieram, por ordem alfabética e espiritual:
A. Schopenhauer, de mau humor habitual.
M. de Assis, com sua ironia tão fina que corta como navalha.
O Presidente do Senado, vendo aqueles vultos, perguntou:
— Senhores… a EC 132/2023 criou o IBS e a CBS. Simplifica?
Schopenhauer cochichou a Machado:
“Meu caro, nada é simples num país onde até as sombras precisam autenticar firma.”
Machado respondeu:
“A simplicidade brasileira é como o amor de Capitu: cada um vê o que quer — mas o Fisco vê mais.”
ATO II — DA VONTADE DE ARRECADAR (OU O IMPULSO METAFÍSICO BRASILEIRO)
Schopenhauer ergueu sua luneta metafísica e declarou:
“Tudo isto — IBS, CBS, Imposto Seletivo — é apenas a Vontade de Arrecadar se reorganizando para continuar existindo. O mundo é dor; o imposto é a sua modalidade administrativa.”
Machado anotou no bolso do fraque:
“No Brasil, o imposto é a forma mais pura da metafísica: está em toda parte e não se deixa ver.”
O Diabo do “Medalhão” apareceu para dar palpite:
— A EC 132/2023 diz que o sistema deve observar “simplicidade, transparência e justiça tributária”. Que diabrura mais engraçada!— “Simplicidade”, no Brasil? Só se for aquela simplicidade que exige três senhas, dois certificados digitais e uma vela bentinha.
ATO III — A LC 214/2025 SOB A ÓTICA DOS MORTOS
Schopenhauer folheou a LC 214/2025 com aquele ar de quem lê um manual de dor existencial.
— Este capítulo de regimes específicos… — disse ele —Cooperativas, hotéis, parques temáticos, serviços financeiros, aviação regional…Isto não é um sistema tributário: é um romance russo de 800 páginas.
Brás Cubas, surgindo com seu chapéu invisível, comentou:
“Eu não tive filhos, mas se tivesse tido, certamente não os condenaria a calcular crédito do IBS em operações mistas de bens e serviços.”
Machado completou, rindo:
— Nem mesmo o Humanitismo de Quincas Borba explicaria o sistema de compensação do IBS.— Ao vencedor, os créditos; ao vencido, as obrigações acessórias.
ATO IV — A NOVA LEI DO IMPOSTO DE RENDA (2025): UM ROMANCE REALISTA EM FORMA DE TABELA
E então, chamaram a Lei nº 15.270/2025 para entrar no palco.
A Lei entrou tímida, arrastando seus artigos.
Redução do IR para quem ganha até R$ 7.350 mensais?Machado sorriu:
“É uma esmola delicada. Como quem oferece um leque perfumado para alguém enfrentando um incêndio.”
Tributação mínima de 0 a 10% sobre rendas acima de R$ 600 mil anuais?Schopenhauer murmurou:
“O rico sofre também… mas sofre em parcelas corrigidas.”
Dividendos acima de R$ 50 mil por mês tributados em 10%? Brás Cubas gargalhou:
“Meu emplasto não curaria isso.”
Regra de compensação entre IRPF mínimo e tributos da empresa? Machado anotou:
“O Humanitismo de Quincas Borba já dizia: ao contribuinte, nada; ao Fisco, tudo. ‘Ao vencido, ódio ou compaixão’; ao contribuinte, planilhas.”
ATO V — O GIRO MENIPEICO: TODOS FALAM AO MESMO TEMPO
O Fiscal da Receita:— Senhores, o objetivo é simplificar.
Schopenhauer:— A dor do contribuinte é eterna. Só mudou de nome.
Machado:— Simplificar?— “Simplificar” é promessa tão repetida no Brasil quanto “volto já” e “é só uma taxa pequena”.
O Fantasma do Conselheiro Aires:— Tudo passa, tudo cansa, tudo se compensa… menos os prazos do IBS.
O Diabo:— Eu mesmo teria medo de enfrentar o art. 16-A da nova lei do IR.— Fico com o inferno tradicional: menos burocrático.
Capitu (porque toda menipeia precisa de surpresa):— E o destino das operações no IBS?— Olharão para o local da entrega… ou para onde o contribuinte olhava?
Bentinho:— Desconfio de todos.
Schopenhauer:— Com razão.
Machado:— No Brasil, meu caro, até a dúvida paga tributo.
GRANDE FINAL — A SÍNTESE DOS DOIS GÊNIOS
Schopenhauer, encerrando a sessão:
“Reformas tributárias são como ilusões da vida: prometem liberdade, entregam disciplina.”
Machado, fechando a ata:
“O Brasil reformou impostos, tabelas, bases de cálculo, alíquotas, créditos, destino, isenções… Só não reformou o que mais precisava: o espanto do contribuinte diante do Diário Oficial.”
Brás Cubas conclui com aquele sorriso de além-túmulo:
“Eu escrevi minha própria história — mas nunca ousaria preencher a declaração de IRPF pós-2026.”
E assim termina a mais improvável das menipeias brasileiras.


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