Se o Agro é Tech, Por Que a Indústria Ainda Precisa de Escravidão Moderna?
- gleniosabbad
- 11 de fev.
- 3 min de leitura
Por Glenio S Guedes ( advogado )
Você já cansou de ouvir na TV que "o Agro é Tech, o Agro é Pop, o Agro é Tudo". E é verdade: o campo brasileiro se modernizou. Colheitadeiras guiadas por satélite, drones monitorando plantações, biotecnologia de ponta. O resultado? Segundo dados recentes, a produtividade do agronegócio cresceu impressionantes 5,8% ao ano nas últimas décadas.
Enquanto isso, na cidade, a indústria e o comércio pararam no tempo. A produtividade industrial caiu 0,3% ao ano. Por que essa diferença brutal? A resposta pode estar na sua escala de trabalho.
Enquanto o Agro investiu bilhões em máquinas para produzir mais em menos tempo, boa parte do empresariado urbano preferiu investir em… suor. Por que gastar com inovação e processos eficientes se é mais barato contratar gente para trabalhar 44 horas semanais, seis dias por um, pagando pouco?
A escala 6x1 — trabalhar seis dias e folgar um — é a "muleta" da nossa ineficiência. Ela permite que empresas desorganizadas e tecnologicamente atrasadas continuem lucrando às custas da exaustão física e mental do trabalhador. É uma espécie de "escravidão moderna": não por correntes, mas pelo roubo do tempo de vida.
O Que Diz a Constituição (E Que Eles Fingem Não Ler)
Os defensores do atraso esquecem que o Brasil tem uma Constituição Cidadã. O Artigo 1º, incisos III e IV, coloca a "dignidade da pessoa humana" e os "valores sociais do trabalho" no mesmo patamar da "livre iniciativa". Ou seja: não existe liberdade de empreender se ela custar a dignidade de quem trabalha.
Mais do que isso, o Artigo 7º é cristalino ao listar os direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, visando à "melhoria de sua condição social". Note bem: a Constituição manda melhorar, nunca estagnar. Manter uma jornada exaustiva de 44 horas, quando o mundo já caminha para 36 ou 32, fere o princípio da progressividade social. O objetivo da República é avançar, não parar no século passado.
A ordem econômica, prevista no Artigo 170, tem por fim assegurar a todos uma "existência digna", conforme os ditames da justiça social. Uma existência onde o pai ou a mãe só vê os filhos dormindo não é digna; é apenas sobrevivência biológica.
O Medo da Modernidade e o Custo Real
Agora, quando se fala em reduzir a jornada para 36 horas (escala 4x3 ou 5x2), os jornais estampam manchetes apocalípticas. Dizem que o PIB vai cair, que o país vai quebrar. É o grito do atraso contra o texto constitucional.
Um estudo sério do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) acaba de mostrar que o impacto dessa mudança no custo da indústria seria de apenas 1%. Leu direito? Um por cento. É esse o tamanho do "desastre" que eles anunciam?
Para o setor de serviços, o custo seria um pouco maior, cerca de 7%. Mas, assim como o aumento do salário mínimo, esse custo volta para o caixa das empresas na forma de consumo. Trabalhador com tempo livre viaja, vai ao cinema, faz churrasco, estuda. A economia gira, cumprindo a função social da propriedade - juridicamente, uma empresa que "moe gente" para gerar dividendo é uma propriedade disfuncional, inconstitucional(Art. 5º, XXIII).
A Verdadeira Produtividade
O que os defensores da escala 6x1 não contam é que trabalhador cansado produz mal, erra mais e adoece. A tal "baixa produtividade" do brasileiro não é culpa da nossa preguiça, é culpa da gestão arcaica que nos comanda.
Se o Agro conseguiu se tornar uma potência mundial investindo em tecnologia, por que a indústria e o comércio precisam depender de jornadas que violam o espírito da Constituição de 1988 para sobreviver?
A redução da jornada não é "festa de demagogo", como dizem os editoriais nervosos. É o cumprimento de um projeto de país desenhado na nossa Lei Maior. É o choque de modernidade e humanidade que o Brasil urbano precisa. É forçar o capital a investir em inteligência, e não apenas em força bruta.
Chega de desculpas. Se o Brasil pode ter colheitadeiras autônomas no Mato Grosso, pode ter dignidade e descanso em São Paulo. Modernidade não é só para soja; é para gente também.


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