Silves - a cidade feira medieval - e seu ilustre e conturbado poeta Ibn `Ammar
- gleniosabbad
- 6 de set. de 2025
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Silves - a cidade feira medieval - e o Enigma Ibn 'Ammār
como falar de ti, Silves, sem que uma lágrima me caia
— Ibn 'Ammār
Por Glênio S Guedes ( advogado )
No coração do Gharb Al-Andalus, o atual Algarve, ergue-se Silves (então Xelb), uma cidade cujo legado transcende as suas imponentes muralhas de arenito vermelho. Não é à toa que, ainda hoje, este rico passado faz de Silves o palco de uma das mais aclamadas feiras medievais de Portugal (a minha preferida, aliás ). A história desta cidade e a do seu mais célebre filho, Abū Bakr Muhammad Ibn ‘Ammār (n. 1031), estão de tal forma entrelaçadas que se torna impossível compreender uma sem a outra. A vida de Ibn 'Ammār — um arco dramático de ascensão fulgurante e queda catastrófica — não é apenas a biografia de um homem, mas o espelho de uma era de esplendor e decadência, encapsulando o enigma de uma das mais fascinantes figuras da Península Ibérica medieval.
Xelb: O Esplendor de um Reino Taifa
Silves gozava de uma localização estratégica privilegiada, situada entre a Serra e o Litoral e com acesso ao mar através do rio Arade, navegável na época. Esta geografia permitiu-lhe florescer como um importante entreposto comercial e centro de poder muito antes da chegada dos muçulmanos. Contudo, foi sob o domínio islâmico, a partir de 713, que a cidade atingiu o seu apogeu.
Os geógrafos e cronistas árabes descreviam-na como uma metrópole de "belo aspecto, de construção elegante e possui bazares bem arranjados", rodeada por uma região de grande fertilidade, com pomares e hortas abundantes. A sua riqueza não era apenas material; Silves era, acima de tudo, um centro de saber. Os seus habitantes, na sua maioria de origem iemenita, eram conhecidos pelo seu amor às Belas-Letras e, sobretudo, pela poesia, sendo berço de inúmeros poetas, historiadores e filósofos.
No século XI, durante o período dos reinos de taifas que se seguiu à desintegração do Califado de Córdoba, Silves tornou-se a capital de um pequeno emirado, antes de ser integrada no poderoso reino abádida de Sevilha. Foi nesta época de fitna — um termo que designa a desordem e a dissensão política — que a cidade se tornou o palco da juventude de Ibn 'Ammār e do futuro rei-poeta al-Mu'tamid, servindo de pano de fundo para uma das mais célebres amizades e rivalidades da história do Al-Andalus.
O Enigma Ibn 'Ammār: Génio e Tragédia
A vida de Ibn 'Ammār é a personificação da mobilidade social e da instabilidade política do seu tempo.
A Ascensão: Nascido nos arredores de Silves numa família de "extrema pobreza", a sua infância de privações "desenvolverá nele a raiva de vencer". Apesar da escassez de recursos, os pais proporcionaram-lhe uma educação esmerada junto aos melhores mestres, e o jovem rapidamente se destacou pelo seu génio poético e inteligência fulgurante. O seu talento era a sua única moeda de troca num mundo onde os reis de taifas competiam para atrair os mais ilustres homens de letras às suas cortes.
A Amizade com al-Mu'tamid: O ponto de viragem na sua vida foi o encontro com o jovem príncipe Muhammad al-Mu'tamid, enviado pelo pai para governar Silves. Juntos, viveram uma "época de ouro", partilhando a paixão pela poesia, o gosto pelos prazeres e uma profunda amizade.
lembras-te daquela noite, junto ao açude
lá nos meandros do rio deslizando qual serpente?
Quando al-Mu'tamid subiu ao trono de Sevilha, chamou de imediato o seu amigo do exílio e nomeou-o Grão-Vizir, entregando-lhe as rédeas da política do reino.
O Político e a Queda: No poder, o carácter de Ibn 'Ammār sofreu uma "mutação". O homem amargurado pela infância pobre e movido por uma "ambição desmedida" emergiu. Tornou-se um diplomata consumado, mas também um mestre da intriga, astuto e desprovido de escrúpulos. A sua política expansionista, que visava unificar o Al-Andalus sob a coroa de Sevilha, foi marcada por traições e alianças pragmáticas, incluindo com os reinos cristãos do norte. O seu maior triunfo, a conquista de Múrcia, foi também o início da sua ruína. Inebriado pelo sucesso, traiu al-Mu'tamid ao proclamar-se emir independente. A sorte, porém, abandonou-o. Perdeu Múrcia, foi capturado em Segura em 1084 e, ironicamente, vendido ao próprio rei que traíra. Em 1086, numa reviravolta trágica, foi morto em Sevilha pelas mãos do seu antigo amigo, al-Mu'tamid, num acesso de fúria.
A Alma Contraditória: Um Roteiro Interior
Quem foi, afinal, Ibn 'Ammār? Um vilão oportunista ou um génio trágico, vítima das circunstâncias de uma era caótica? A sua personalidade, "extremamente contraditória", foge a qualquer classificação simplista. As fontes históricas, muitas vezes escritas por seus inimigos, pintam dele um "retrato sinistro". No entanto, a sua vida está repleta de gestos que revelam um homem complexo: a lealdade inicial a al-Mu'tamid, e o pungente arrependimento expresso nos poemas que escreveu na prisão.
Um dos episódios mais reveladores da sua dualidade é a sua relação com um mercador de Silves. Nos seus primórdios, pobre e desconhecido, Ibn 'Ammār recitou um poema ao comerciante, que o recompensou com um modesto saco de cevada. Anos mais tarde, já como todo-poderoso governador, Ibn 'Ammār não esqueceu o gesto. Mandou procurar o mercador e devolveu-lhe o mesmo saco, mas agora cheio de moedas de prata, com uma mensagem que misturava gratidão e orgulho:
"Se me o tivesses enviado naquele tempo, um saco cheio de trigo, eu tê-lo-ia devolvido cheio de moedas de ouro."
O gesto demonstra não só uma memória grata, mas também a necessidade de afirmar a sua ascensão e o valor do seu talento.
A sua poesia é o mais fiel "roteiro interior" da sua alma. Nela, encontramos a exaltação do poder, a melancolia do exílio, a angústia da prisão e a dor da traição. É nos momentos de maior sofrimento que o seu génio poético atinge o auge, despido dos artifícios da poesia laudatória e imbuído de uma "profunda sinceridade". O seu último poema, uma súplica de perdão a al-Mu'tamid, termina com uma declaração que resume a sua vida:
que, se eu morrer, fique contigo uma réstia de consolação. morrerei mas levarei comigo
a violência toda da minha afeição.
Conclusão: Memórias Entrelaçadas
O enigma de Ibn 'Ammār é, em grande medida, o enigma da própria Silves e do seu tempo. A sua história é a de um homem que emergiu da obscuridade para o centro do poder, refletindo tanto o brilho cultural como a fragilidade política do Al-Andalus das taifas. A sua ascensão foi alimentada pelo ambiente intelectualmente fértil de Silves, e a sua queda foi precipitada pela mesma instabilidade que permitiu a sua subida.
Hoje, as muralhas do Castelo de Silves testemunham silenciosamente a grandeza de uma era passada. O legado político de Ibn 'Ammār desvaneceu-se com as intrigas do seu tempo, mas a sua voz poética perdura. É através dos seus versos que a memória de Xelb, a capital poética do Gharb, e o drama do seu mais ilustre e atormentado filho continuam vivos, recordando-nos a complexa e inseparável relação entre a arte, o poder e o destino humano.
Referências Bibliográficas
ALVES, Adalberto; HADJADJI, Hamdane. Ibn 'Ammār Al-Andalusī: o drama de um poeta. Lisboa: Assírio & Alvim, 2000.
GOMES, Rosa Varela. Silves (Xelb), uma cidade do Gharb Al-Andalus: território e cultura. Lisboa: Instituto Português de Arqueologia, 2002. (Trabalhos de Arqueologia, 23).


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