The Knowledge: por que políticos brasileiros não fazem essa prova?
Enquanto taxistas londrinos decoram ruas, atalhos e destinos, a República brasileira ainda discute se seus condutores precisam saber para onde levam o país.
Por Glênio S Guedes (advogado)
Eis um fato : há homens públicos que conhecem todas as portas do poder; o inconveniente é não saberem onde fica a saída.
Existe em Londres uma prova que parece desumana, especialmente aos olhos de quem julga que toda dificuldade é uma forma antipática de elitismo. Chama-se The Knowledge. Para dirigir um táxi na cidade, não basta possuir volante, paciência e uma relação civilizada com a buzina. É preciso memorizar milhares de ruas, hospitais, estações, hotéis, teatros, becos, desvios e destinos; é preciso saber ir sem perguntar ao aparelho, e voltar sem pedir conselho ao acaso.
Durante três ou quatro anos, o candidato aprende que a cidade não é uma mancha colorida no mapa, muito menos uma fotografia aérea destinada a enfeitar promessa de campanha. Cidade é uma criatura concreta: tem rua inundada, escola abafada, posto de saúde sem médico, ponto de ônibus sem cobertura, calçada intransitável e cidadão que, por teimosia ou necessidade, continua morando ali depois que passam as eleições.
A ciência, sempre menos majestosa que os discursos e por isso mesmo mais útil, interessou-se pelos efeitos desse exercício de orientação. Pesquisas com taxistas londrinos observaram diferenças no hipocampo, região centralmente envolvida na memória e na navegação espacial. Nos motoristas mais experientes, verificou-se maior volume de matéria cinzenta em uma porção posterior dessa estrutura, associada à formação de mapas espaciais de grande escala.
O hipocampo merece atenção suplementar porque está entre as regiões precocemente afetadas pela doença de Alzheimer. Dificuldades de orientação — perder-se em trajetos conhecidos, confundir direções, deixar de reconhecer caminhos familiares — podem anteceder falhas de memória mais ostensivas. A doença, como certos administradores públicos, começa às vezes por desorganizar o percurso antes de admitir que esqueceu o destino.
Em 2024, um estudo norte-americano examinou quase 9 milhões de certidões de óbito, relativas ao período de 2020 a 2022, e encontrou entre taxistas e motoristas de ambulância uma proporção menor de mortes registradas como decorrentes de Alzheimer do que entre profissionais de muitas outras ocupações. Após ajustes estatísticos por idade, sexo, etnia e escolaridade, aproximadamente um em cada cem desses motoristas tinha o Alzheimer mencionado como causa de morte, contra cerca de um em sessenta no conjunto total analisado.
A estatística, porém, deve ser tratada com o respeito que se dá a um funcionário eficiente: atenção, sem intimidade excessiva. O estudo observou registros de mortes; não acompanhou pessoas por décadas nem provou que conduzir táxi ou ambulância previna Alzheimer. Também não elimina inteiramente outras explicações, como diferenças de saúde, seleção profissional ou qualidade dos diagnósticos anotados em certidões. Um táxi, portanto, não é vacina; e o GPS desligado, embora possa irritar o passageiro, não é tratamento neurológico.
O que esses achados sugerem, com a prudência própria da boa ciência, é algo mais modesto e mais interessante: atividades que exigem orientação contínua, atualização de mapas mentais e raciocínio espacial podem contribuir para a reserva cognitiva — a capacidade de o cérebro manter funções apesar de alterações relacionadas à idade ou à doença. Não se trata de imunidade, mas de possível resistência; não de milagre, mas de exercício.
É neste ponto que a política brasileira, chamada a comparecer, costuma procurar uma saída lateral.
Imagine-se uma prova nacional para candidatos a vereador, prefeito, deputado, senador, governador e presidente. Não uma prova de eloquência: essa matéria já é ministrada em excesso, e seus diplomados abundam. Tampouco uma prova de frases constitucionais decoradas, que produziria o triste espetáculo de cidadãos capazes de citar a República sem jamais encontrá-la.
Seria uma avaliação singela, prática e, por isso mesmo, implacável:
— Onde termina a linha de ônibus deste bairro?
— Quantas unidades de saúde existem nesta região e em que estado funcionam?
— Que caminho percorre uma criança até a escola quando chove?
— Quais áreas alagam, onde falta saneamento, em que ponto a ambulância demora?
— Quanto custa, de onde vem e para onde vai o dinheiro público?
— Em que rua, por favor, mora a realidade?
Não se exigiria de ninguém o conhecimento integral do Brasil, privilégio reservado à onisciência, aos motoristas de aplicativo e às mães que sabem onde estão os filhos mesmo quando os filhos não sabem onde estão. Exigir-se-ia apenas que quem aspira a governar demonstrasse reconhecer o território governado e seus habitantes fora da moldura eleitoral.
Dirão que todo político conta com assessores. É verdade; também um cirurgião conta com enfermeiros. Nem por isso nos tranquilizaria saber que o médico não distingue o fígado de um requerimento administrativo. Assessoria é instrumento de trabalho; não deve ser uma prótese para a ausência de discernimento. Delegar é uma necessidade; terceirizar a compreensão do país é uma carreira.
Talvez a política já possua, afinal, o seu próprio Knowledge. Muitos aprendem com admirável aplicação os corredores partidários, as geometrias das alianças, a topografia dos cargos, os atalhos do orçamento e as rotas que levam à próxima eleição. A memória não lhes falta; apenas seleciona, com a sobriedade de um cofre, aquilo que merece ser preservado.
Recordam apoios, ofensas, pesquisas, aniversários estratégicos e nomes de financiadores. Esquecem promessas com a naturalidade de um passageiro que abandona o guarda-chuva no táxi — com a diferença de que o taxista, em geral, tenta devolvê-lo.
Uma prova inspirada no The Knowledge não curaria as febres da democracia. Não impediria o oportunista, não desativaria o demagogo, não converteria ambição em virtude. Mas imporia um constrangimento saudável: antes de conduzir o país, o condutor teria de provar que sabe onde ele fica.
O Alzheimer comove porque ameaça apagar memória, orientação e vínculos. Na vida pública, há outro esquecimento, menos trágico e mais censurável: o de quem se lembra do eleitor até o instante da urna e, uma vez eleito, perde-lhe o endereço.
Para essa enfermidade pública, a medicina pouco pode fazer. Restam o conhecimento, a escola, o jornalismo responsável, a fiscalização e a memória coletiva. A República também tem hipocampo — e ele atende pelo nome de eleitor. Mas que sucede quando esse hipocampo é alimentado por boatos, slogans, cortes de vídeo e indignações de quinze segundos? Confundem-se a promessa com a obra, o escândalo com a perseguição, a propaganda com a notícia e o candidato com a criatura cuidadosamente iluminada que a campanha lhe emprestou.
A democracia é, entre os meios imperfeitos que os homens inventaram para não se entregarem a males ainda piores, o que menos frequentemente nos leva ao abismo — desde que alguém se dê ao trabalho de ler as placas. Tem, contudo, uma condição pouco ornamental: precisa de cidadãos capazes de distinguir argumento de palavra de ordem, interesse público de conveniência bem anunciada e informação de alarde. Sem isso, não deixa propriamente de existir; apenas corre o risco de se tornar uma cilada consensual, na qual todos escolhem livremente a porta e, depois, se espantam de encontrar do outro lado o mesmo corredor.
Convém, portanto, exercitar a memória coletiva antes da eleição — e não apenas depois dela, quando já se costuma procurar, com patriótica perplexidade, o endereço da realidade...


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