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Transição energética justa : não haveria um meio termo?

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 7 de nov. de 2025
  • 5 min de leitura

Entre o barril e a utopia, a América Latina procura sua rota própria.


Por Glênio S Guedes ( advogado )


A poucos meses da COP30, o debate sobre a “transição energética justa” ganhou novo fôlego na América Latina. E, como quase tudo por aqui, o tema se desdobra em contradições. O continente que abriga a maior floresta tropical do planeta e uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo continua sustentando boa parte de suas economias no petróleo, no gás e no carvão.

O Brasil e a Colômbia condensam esse paradoxo em dois projetos quase antípodas. De um lado, Lula da Silva fala de justiça social e liderança climática, mas autoriza a Petrobras a explorar petróleo na foz do Amazonas, prometendo transformar o país no quarto maior produtor mundial até 2030. De outro, Gustavo Petro anuncia o fim das novas licenças de exploração e o nascimento de uma “potência mundial da vida”, disposta a abandonar o carvão e o petróleo em nome de um novo modelo civilizatório.

Ambos invocam a palavra “justiça” — mas uma justiça que, para cada um, significa algo distinto.


I. O Brasil: a justiça financiada a óleo


Lula construiu sua narrativa internacional como defensor do meio ambiente, amparado na queda do desmatamento amazônico e no retorno do país às mesas multilaterais. Mas internamente, o discurso climático se ancora em um cálculo político e econômico: usar o petróleo como motor da transição.

Para o governo brasileiro, “transição energética justa” não implica renunciar de imediato aos combustíveis fósseis, mas maximizar sua exploração enquanto houver demanda mundial, convertendo parte dos lucros em programas sociais, infraestrutura verde e biocombustíveis.

O dilema foi bem resumido por Alfonso Blanco, do Inter-American Dialogue:

“Se eu parar de produzir voluntariamente, perco a chance de monetizar minhas reservas enquanto outros seguem explorando. Estou perdendo minha chance de desenvolvimento.”

Esse raciocínio é dominante entre os países em desenvolvimento. Afinal, como abrir mão de uma riqueza concreta quando os grandes emissores do Norte — inclusive os Estados Unidos, maior produtor mundial — continuam extraindo e consumindo petróleo sem freio?

Ainda assim, o modelo brasileiro enfrenta forte oposição. Ambientalistas e lideranças indígenas denunciam que perfurar na foz do Amazonas contradiz o papel de liderança climática que o país reivindica. O Greenpeace e outras ONGs chegaram a acionar a Justiça para barrar licenças exploratórias.

A resposta oficial é pragmática: explorar hoje para investir amanhã. O risco, porém, é transformar a transição em retórica orçamentária, em que o verde é financiado pelo negro do barril — e, como tantas vezes, o futuro serve para justificar o presente.


II. A Colômbia: o laboratório da ruptura


Gustavo Petro, primeiro presidente de esquerda da história recente colombiana, resolveu inverter o tabuleiro. Logo em seu discurso de posse, em agosto de 2022, anunciou o propósito de migrar para uma economia sem carvão e sem petróleo, prometendo proteger o solo, o subsolo, os rios e o céu da Colômbia.

Cumpriu o que disse: suspendeu novas licenças de exploração, aumentou impostos sobre o setor fóssil, impôs moratória ao fraturamento hidráulico (fracking) e promoveu uma retórica de reconversão para o turismo e a agricultura sustentável. “O desastre climático”, declarou na ONU, “não é causado pelo planeta, e sim pelo capital.”

Mas a realidade fiscal cobrou seu preço. O petróleo e os minerais representavam 44% das exportações colombianas em 2022, e os hidrocarbonetos respondiam por até 15% da receita do governo. O resultado foi previsível: multinacionais como Chevron, ExxonMobil, ConocoPhillips e Repsol reduziram operações ou deixaram o país. A produção de gás caiu, obrigando a Colômbia a importar combustível mais caro e mais poluente.

O economista Mauricio Cárdenas, ex-ministro da Fazenda, resumiu o impasse:

“A única coisa que conseguimos foi pagar mais e poluir mais por causa de uma política energética ruim.”

O entusiasmo inicial da sociedade começou a arrefecer. Em apenas três anos, o sonho de Petro de uma economia “sem fósseis” parece ter se chocado com as restrições do desenvolvimento. Ainda assim, o presidente colombiano plantou uma semente incômoda: mostrou que o custo da coerência ecológica pode ser alto — mas que a hipocrisia climática também tem um preço.


III. O continente dividido


Enquanto Brasil e Colômbia encenam visões opostas, o restante da América Latina se move em ritmos variados.


  • Argentina acelera a produção em Vaca Muerta, na Patagônia, com a pressa de quem tenta monetizar o que resta antes da descarbonização global.

  • México, pela Pemex, reabre poços antigos.

  • Venezuela e Guiana competem por novas fronteiras offshore — a Guiana, aliás, quintuplicou sua economia entre 2019 e 2024 com o boom do petróleo.

  • Suriname entra no mapa dos produtores e, ironicamente, o faz com aval de uma empresa francesa, a TotalEnergies, que chama o projeto de “exemplo perfeito de transição”.


A região, portanto, abriga três narrativas simultâneas:


  1. O petrolismo distributivo do Brasil;

  2. O ambientalismo radical da Colômbia;

  3. O extrativismo de oportunidade dos vizinhos que correm contra o relógio.


Entre esses polos, a América Latina ainda não encontrou seu eixo comum.


IV. O meio termo possível


Há um consenso silencioso: todos reconhecem que a era do petróleo terá fim. O desacordo está no quando e no como.

Uma transição energética justa, porém, não pode ser apenas moralmente correta; precisa ser socialmente viável e politicamente sustentável. Entre o “petróleo até o último centavo” e o “petróleo nunca mais”, há caminhos intermediários:


  1. Definir um pico de produção e um cronograma de declínio — explorando o que já existe, sem abrir novas fronteiras sensíveis, e com prazo claro de desativação.

  2. Criar fundos soberanos verdes e blindados, onde parte das receitas fósseis financie exclusivamente renováveis e reconversão produtiva de regiões petroleiras.

  3. Reformar subsídios aos combustíveis fósseis, que hoje consomem orçamentos públicos e beneficiam desproporcionalmente os mais ricos.

  4. Lançar uma aliança Brasil–Colômbia, unindo a tecnologia brasileira em bioenergia e créditos de carbono à visão ética colombiana de uma economia pós-fóssil.

  5. Defender na COP30 um mecanismo internacional de compensação real — não simbólica — para países que optem por deixar petróleo no subsolo.


Essas medidas não encerram o dilema, mas desenham uma transição menos cínica e menos ingênua — capaz de conjugar soberania, responsabilidade e futuro.


V. Conclusão – Entre o barril e o abismo


A América Latina não é a culpada pelo aquecimento global, mas pode escolher não repetir a tragédia alheia.

Se o Norte global construiu sua riqueza queimando carbono, o Sul pode — e deve — exigir tempo, tecnologia e financiamento para mudar de rota. Mas também precisa provar que a justiça climática não é só retórica diplomática.

O Brasil insiste que ainda é cedo demais para abandonar o petróleo; a Colômbia, que já é tarde demais para continuar. Talvez ambos tenham razão — e, por isso mesmo, precisem conversar.

Entre o barril e a utopia, resta construir pontes de transição. Pontes sólidas, feitas de energia limpa, governança transparente e coragem política. Pontes que não levem ao passado nem ao precipício — mas a um futuro que, por justiça e inteligência, ainda pode ser latino-americano.


 
 
 

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