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Trump ativo, e o Museu da Ordem dos Advogados de Paris fechado: oxímoro existencial?

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 18 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

Por Glênio S Guedes ( advogado)


« N’ayez pas peur d’écrire, même des mensonges. Gardez la vérité pour le barreau. »— Christian Charrière-Bournazel, « L’avocat et l’écriture ou Le réel et le rêve », in Revue Littéraire du Barreau de Paris, n° 1, 2024.


Fui recebido, recentemente, por Madame Cindy Geraci, historiadora experiente, diretora do Museu da Ordem dos Advogados de Paris, cuja competência e cortesia honram a instituição que ela representa. Recebeu-me com uma disponibilidade rara, um sorriso que disfarçava a gravidade do tema, e uma atenção que toca aquele que vem de longe. Ela me deu, sem rodeios, a seguinte informação: o Museu não dispõe mais, há alguns anos, de espaço de exposição; continua, no entanto, a existir sob outras formas — projetos virtuais, exposições itinerantes — e projetos de reabertura estão em estudo, ainda sem prazo definido.


Como não ouvir, nessas palavras simples, o sintoma inquietante de nossa época?


O mundo cambaleia. Em Washington, um ex-presidente continua a agir como se as regras não lhe dissessem respeito. Ataca, nega, zomba do devido processo legal — e, demasiadas vezes, triunfa, ou ao menos retarda o curso normal da justiça. Dois anos, e mais, em que Donald Trump impõe sua vontade e desfigura o Estado de Direito. Enquanto isso, em Paris, no coração da Île de la Cité, o Museu da Ordem dos Advogados permanece sem o seu espaço vivo de exposição, como se a memória tivesse de se contentar com formas dispersas.

Não há aí uma metáfora inquietante? Quando os templos do direito se calam, os autocratas falam mais alto. Quando os lugares de memória dos advogados se fragmentam, os homens fortes se imaginam eternos.


Pois o Museu da Ordem dos Advogados de Paris não é uma simples vitrine empoeirada: é um espelho de nossa civilização. Cada manuscrito, cada toga, cada defesa ali recorda que os advogados não apenas defenderam clientes, mas moldaram a história, infletiram destinos, transformaram o mundo. Esse museu é o altar discreto de uma fé laica: aquela que acredita na democracia, na liberdade e na igual dignidade de cada ser humano.


O direito, já se escreveu, é a prosa da civilização. Mas essa prosa não é sem ritmo, não é sem música. Os advogados tantas vezes a elevaram à altura de um canto: pensemos em Berryer diante de Luís Filipe, em Gambetta fulminando o Império, ou nesses defensores anônimos que, dia após dia, arrancam um acusado da injustiça, uma minoria da opressão, um povo da tirania.


E, no entanto, enquanto o Estado de Direito vacila em escala planetária, enquanto democracias inteiras são ameaçadas de asfixia, Paris mantém esse santuário sem vitrine, suspenso, como se a história pudesse esperar. Como se a memória daqueles que falaram pela liberdade pudesse dormir atrás de portas trancadas.


Estamos doentes? Sim, sem dúvida. Doentes de indiferença, de distração, de um sono que custa caro.


Pois esquecemos com frequência que a economia, a técnica, o consumo mesmo, não passam de andares superiores, frágeis, de um edifício que ameaça ruir se lhe faltarem os alicerces. Conhecemos a pirâmide de Maslow, essa hierarquia das necessidades humanas que coloca primeiro a sobrevivência física, depois a segurança, até chegar ao desenvolvimento pessoal. Mas, a meu ver, essa figura deve ser repensada: na base deveriam estar as ciências humanas e a filosofia, porque sem elas perdemos nossas bússolas de valores e vagamos em um mundo entregue aos caprichos da força e do mercado. Mais ainda, o Direito, como ciência da convivência humana, deve igualmente fazer parte desse fundamento, pois não é senão um aprendizado coletivo do viver junto.


Não por acaso escrevo estas linhas no mesmo dia em que se anuncia uma greve intersindical na França (18.09.25). Protestar é um exercício legítimo da democracia, desde que não viole os direitos fundamentais e se realize sem violência. Pois que se proteste também contra o desprezo de nossos valores civilizacionais, nos quais os advogados tiveram parte decisiva em sua construção.


Esquecer o museu é esquecer que o direito é frágil, que a democracia não sobrevive sozinha, e que o esquecimento é a primeira vitória dos tiranos.


É preciso reabrir esse lugar — não para turistas, mas para nós mesmos. Para lembrar que o advogado não é apenas um técnico do processo, mas um artesão de civilização. Para recordar que a defesa é irmã da poesia, que a advocacia é irmã do povo livre.


Enquanto o Museu da Ordem dos Advogados de Paris permanecer sem espaço de vida e de exposição, uma parte de nossa consciência coletiva permanecerá trancada com ele. E enquanto homens como Trump continuarem a afrontar a lei sem que isso abale o mundo, estaremos, coletivamente, doentes.


A cura começa pela memória. Abramo-la.

 
 
 

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