Vinhês: degustar é aprender um idioma novo - ou degustar é pensar com o paladar
- gleniosabbad
- 20 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
Por Glênio S Guedes ( advogado )
Perceber é aprender; cheirar é interpretar; sentir é treino.
Todo aroma é uma palavra. Todo gole é uma frase. Todo vinho é um texto a ser lido.
O vinho não fala à boca: fala ao cérebro.
Degustar é alfabetizar-se nos sentidos.
Há quem diga que o vinho é uma arte, e há quem diga que é uma ciência. Os dois erram — ou, ao menos, dizem apenas uma parte da verdade. O vinho é, antes de tudo, uma linguagem. Não uma linguagem metafórica, mas uma linguagem literal, com vocabulário, sintaxe, gramática, dialetos, idioletos e até falsos cognatos. Há quem a fale como um nativo; há quem a soletre; há quem, sem perceber, permaneça analfabeto sensorial durante toda a vida.
A tese deste ensaio é simples: degustar é aprender um idioma novo. E, como todo idioma, exige vocabulário, treino, memória, plasticidade e atenção.
É essa a lição que Bianca Bosker - especialmente no capítulo quarto de seu livro Cork Dork, Loucos por Vinho, um capítulo especial -, e tantos neurocientistas contemporâneos vêm confirmando: o paladar e o olfato são menos sentidos e mais modos de pensar. Degustar é, portanto, pensar com o paladar.
1. A alfabetização sensorial: não nascemos sabendo cheirar
Durante séculos, acreditou-se que os humanos tinham um olfato pobre, quase residual — um sentido primitivo, secundário, ultrapassado pela visão. Hoje sabemos que essa ideia é falsa. A neurociência contemporânea demonstrou que:
o olfato humano é altamente preciso,
treinável,
capaz de discriminar centenas de milhares de estímulos,
e extraordinariamente complexo.
Se muitos não percebem aromas sutis, é porque não foram alfabetizados neles.
Assim como uma criança precisa diferenciar fonemas para aprender a falar, o degustador precisa diferenciar moléculas aromáticas para aprender a sentir. O nariz não nasce pronto: é moldado pela experiência, como o ouvido de um músico ou o olhar de um pintor.
2. O vocabulário do vinho: nomear é sentir
Nenhum idioma se aprende apenas ouvindo sons — é preciso dar nome a eles. Nenhum vinho se aprende apenas bebendo goles — é preciso dar nome aos aromas.
A neurociência sensorial demonstra que:
nomear aromas altera a percepção,
aumenta a consciência olfativa,
fixa memórias aromáticas,
e reorganiza o cérebro.
O sommelier não possui um nariz mágico: possui um léxico organizado, uma taxonomia interna de frutas, flores, resinas, madeiras, minerais, especiarias e sensações táteis. Sem vocabulário, o iniciante sente, mas não entende o que sente. É como ouvir uma frase em mandarim sem dominar nenhum ideograma.
Quanto mais palavras aromáticas possuímos, mais sentimos. Linguagem é percepção. Percepção é linguagem.
3. A gramática sensorial: reconhecer padrões, estruturar o caos
Depois do vocabulário, vem a gramática — a capacidade de juntar palavras em sentidos. No vinho, isso significa:
reconhecer famílias aromáticas,
distinguir camadas sensoriais,
relacionar textura, acidez, taninos e álcool a “funções gramaticais” do sabor.
Aromas primários (fruta), secundários (fermentação), terciários (envelhecimento) compõem frases sensoriais que só fazem sentido para quem conhece essa estrutura. Novatos descrevem sensações caóticas; especialistas percebem um texto coerente.
O cérebro do sommelier, como mostram estudos de neuroimagem, ativa regiões de:
planejamento (pré-frontal),
memória semântica (temporal),
análise (orbitofrontal),
e navegação conceitual (córtex entorrinal).
Degustar é interpretar, não apenas sentir. Existe uma hermenêutica do vinho!
4. A sintaxe do gole: o vinho como frase
Cada gole produz uma sequência ordenada de informações:
ataque (primeiro impacto),
meio de boca (estrutura),
final (persistência),
retro-olfação (a verdadeira leitura sensorial).
Ignorar essa ordem é como tentar entender poesia lendo sílabas dispersas.
O degustador aprende a reconhecer o ritmo, a entonação, a pausa, o eco aromático que sobe à cavidade nasal e leva consigo a assinatura química do vinho — seu “sotaque”. A degustação, tal como a leitura, é um ato temporal: desenvolve-se em camadas sucessivas.
5. Treinar é conjugar: a plasticidade do cérebro que prova
As pesquisas mais recentes confirmam: treinar o olfato altera o cérebro.
Sommeliers experientes exibem:
maior volume no bulbo olfativo,
conexões mais eficientes entre áreas de memória e linguagem,
atividade cerebral mais concentrada,
discriminação mais precisa.
O cérebro de quem degusta muda — exatamente como muda o de quem aprende violino, chinês ou álgebra. Degustar é conjugar verbos sensoriais até que se tornem naturais.
O olfato não floresce por herança, mas por hábito.
6. Por que degustar é aprender um idioma?
Porque o vinho é um sistema simbólico:
composto de unidades mínimas (aromas),
organizadas em estruturas (famílias),
interpretadas por gramáticas (técnicas de degustação),
apoiadas em léxicos (vocabulários),
e dependentes de memória (fluência sensorial).
O “Vinhês” é uma língua tão concreta quanto qualquer outra. Seu alfabeto cheira. Sua sintaxe amadurece. Sua semântica fermenta.
Quem aprende a degustar muda sua percepção do mundo — porque treina o cérebro a perceber mais, a comparar mais, a estabelecer redes de significados onde antes havia apenas impressões vagas.
Conclusão: degustar é pensar
Degustar não é um dom. Não é intuição. Não é inspiração.
Degustar é pensar com o corpo. É ler com o nariz. É interpretar com o paladar.
É adquirir fluência em um idioma que poucos dominam, mas que está disponível para qualquer pessoa disposta a treinar os sentidos — e, sobretudo, a treinar a mente.
Ao contrário do que se imagina, o vinho não fala à boca. O vinho fala ao cérebro. E cada gole é um verbo que ainda estamos aprendendo a conjugar.


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